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Sharapova sonha com o fim do pesadelo
Por José Nilton Dalcim
2 de junho de 2018 às 18:43

Serena Williams e Maria Sharapova cumpriram a tarefa com louvor e vão mesmo se reencontrar nas oitavas de final de Roland Garros, algo raro entre elas. Nos 21 duelos já feitos, apenas três aconteceram de forma tão precoce, o mais recente deles em Wimbledon de 2010. É a reedição da final de Paris de 2013, quando Serena levantou o segundo de seus três troféus e impediu o bi da russa, que o alcançaria no ano seguinte.

Não poderia haver momento mais apropriado para Sharapova enfim encerrar a cruel série de 18 derrotas consecutivas, que vem desde janeiro de 2005. Em todo esse longo período, tirou apenas três sets, tendo engolido placares elásticos e atuações deprimentes. Não que seu estilo se adapte mais ao saibro do que o de Serena, mas puramente pelo fato de que a algoz ainda está longe de seu auge físico e técnico. A nova mamãe sequer havia pisado na terra nos últimos 24 meses.

Mas todo cuidado é pouco. Jogo após jogo, Serena está se soltando. Começou pesada e pouco móvel, mas à medida que achou o saque demolidor e calibrou sua espetacular devolução a confiança só aumenta. Sharapova fez uma estreia também irregular, não brilhou na segunda partida porém neste sábado demoliu Karolina Pliskova. Ela, mais do que ninguém, sabe que terá de evitar o segundo serviço, diminuir ao máximo os erros não forçados e quem sabe apostar nas curtinhas, uma arma que agregou com sucesso, para acabar com o pesadelo.

Embora ainda estejam longe de ser candidatas ao título, talvez façam na segunda-feira o grande momento deste Roland Garros.

Segue a fila
A expectativa em cima de Rafa Nadal fica para ver quais os candidatos com real chance de testá-lo dignamente. Richard Gasquet, como já se imaginava, foi um fiasco. Vem aí o pouco conhecido alemão Maximilian Marterer, mero 70º do ranking. Possui um tênis consistente e parece à vontade no saibro, mas tal qual Gasquet ou Guido Pella deverá entrar em quadra preocupado em ganhar game.

Diego Schwartzman é o próximo da lista, desde que passe por Kevin Anderson, um duelo com 35 centímetros de diferença. O argentino fez o que eu esperava e, com exceção de uma postura um tanto cômoda no final do terceiro set, dominou Borna Coric com muito empenho na base. Não era um compromisso fácil, porque havia perdido os dois jogos para o croata. Anderson, que está nas quartas de Paris pela quarta vez, perdeu um set para Mischa Zverev porém jamais o serviço.

O quadrante debaixo está bem imprevisível. Fabio Fognini oscilou contra Kyle Edmund e chegou a estar atrás por 2 sets a 1, porém adotou uma postura agressiva, não economizou nos winners (41) e erros (60) e convenhamos que essa é a única postura admissível para quem sonha em competir com Nadal. A próxima tarefa é barrar Marin Cilic e repetir as quartas de 2011. O poderoso saque do croata exige cuidado, mas o italiano tem mais recursos. Os dois não se cruzam há quase sete anos.

Quem passar, deve encarar Juan Martin del Potro. O argentino já se confessou incapaz de ganhar de Rafa no saibro de hoje, mas não é novidade ele tirar o peso dos ombros para tentar jogar solto. De qualquer forma, fisicamente falando parece difícil mesmo de acreditar, a menos que economize muita energia. Isso não será problema diante de John Isner ou Pierre Herbert, que aceleram o jogo. Porém, bem mais difícil se cruzar depois com Fognini. O duelo deste sábado contra o canhoto Albert Ramos mostrou bem essa dificuldade, porque todo o poder ofensivo do argentino fica um tanto minimizado sobre a terra. E aí exige-se trabalho e pernas. Ah, e Isner não está tão limitado ao saque. Anda se mexendo bem para usar o forehand.

E mais
– Foi constrangedor ver a torcida vibrar com o primeiro ponto de Gasquet na altura do quarto game. Com 5/0 e incríveis 14 minutos, estava 22 a 2 em lances. Nadal só falhou em um serviço e permitiu um ou outro game mais equilibrado. No geral, fez o quis. O francês escapou de um placar vexaminoso.

– Com as derrotas de Lucas Pouille e Gael Monfils no complemento das partidas suspensas de sexta-feira e de Pierre Herbert, o tênis masculino francês deu mais um adeus a Roland Garros. Monfils perdeu chance de avançar mais uma rodada e marcar uma grande vitória em cima de David Goffin. Jogou com grande empenho, enlouqueceu a torcida e desperdiçou quatro match-points. Já Pouille decepcionou, ainda que Karen Khachanov seja consistente. Herbert lutou diante de um Isner superior.

– Acabou a série invicta de Petra Kvitova. Perdeu os dois tiebreaks diante da também agressiva Anett Kontaveit dando à estoniana 57% dos pontos marcados através de erros. Muita coisa. Sua adversária será Sloane Stephens, que escapou por pouco.

– Garbiñe Muguruza e Caroline Garcia passearam, em contraste com o primeiro set bem duro de Simona Halep e os dois tiebreaks que Angelique Kerber precisou jogar. Campeonato continua totalmente aberto.

O domingo
– Zverev e Khachanov buscam primeira presença nas quartas de um Slam com diferença de idade inferior a um ano. Alemão ganhou único duelo, em 2016.
– Thiem perdeu os dois jogos que já fez contra Nishikori e sem vencer set. Promessa de jogo longo e emocionante, já que os dois batem firme na bola.
– Depois de dois jogos duros em cinco sets, Goffin volta à quadra contra a surpresa Cecchinato, 72º do ranking. Belga venceu de virada em Roma, semanas atrás.
– Djokovic pode atingir o recorde de 12 quartas em Paris – e igualar as 9 seguidas de Federer – se passar por Verdasco. O histórico é de 10-4 para o sérvio, que não perde para o canhoto desde Roma-2010.
– Kasatkina tem 2-1 sobre Wozniacki e no saibro deste ano já venceu Muguruza. Quem ganhar, enfrentará Stephens ou Kontaveit, que fazem duelo inédito.
– Keys encara a canhota Buzarnescu, embalada pela vitória sobre Svitolina, enquanto Strycova tenta terceiro triunfo sobre Putintseva.

Ao ataque
Por José Nilton Dalcim
31 de maio de 2018 às 19:48

Rafael Nadal, Maria Sharapova e Serena Williams foram ao ataque nesta segunda rodada de Roland Garros. Se o espanhol usou o recurso para atropelar o argentino Guido Pella em duelo de canhotos, a russa quase se atrapalhou no segundo set e a norte-americana demorou para enfim pegar a mão de seu tênis tão agressivo.

Na estreia diante de Simone Bolelli, Nadal conseguiu 30 winners em 32 games. Nesta segunda rodada, fez 37 em 22. Isso por sí só mostra sua mudança de postura. Claro que tanto o saque como os golpes de base de Guido Pella não tem o mesmo peso de Bolelli, porém o canhoto argentino conseguiu bolas bem profundas e ainda assim Rafa encontrou jeito de ir para winners, com especiais paralelas de forehand.

Agora, vai reencontrar Richard Gasquet, o adversário contra quem tem o mais expressivo domínio (15 a 0). Apesar do apoio da torcida e de sua grande habilidade, não parece haver a menor chance de o francês endurecer em função de seu problema em se defender com o forehand. Terá de sacar muito bem para não passar vexame. Talvez a grande amizade entre eles, que vem desde os 12 anos, ajude.

Sharapova passou outra rodada sem grande brilhantismo – abriu 5/1 e salvou break-point que daria empate a Donna Vekic no segundo set – e tem jogo muito perigoso diante de Karolina Pliskova, onde só se pode esperar uma tremenda pancadaria e um festival de bolas vencedoras e erros não forçados.

Serena se impôs lentamente diante de Ash Barty. Depois de um começo estranho, foi crescendo e dominando. Deu show no game final, ao melhor estilo Serena: quatro lances e quatro winners (ace, voleio, forehand e backhand). Se avançarem mais uma rodada, Sharapova e Serena se reencontrarão num Slam pela 9ª vez, a primeira desde o Australian Open de 2016.

E mais
– Jogo para decidir qualquer ATP 500, Fabio Fognini e Kyle Edmund vão duelar na terceira rodada. Nada menos que o 17º contra o 18º do mundo. Nunca se enfrentaram, mas o italiano tem favoritismo natural por ser mais afeito ao saibro. Edmund no entanto está jogando direitinho na terra e, se o piso não estiver tão lento, vai dar muita pancada.

– Marin Cilic e Denis Shapovalov erraram demais. A diferença é que o croata pegou um adversário pouco experiente e venceu no quarto set, mas o espetáculo foi tenebroso. O canadense somou 82 falhas não forçadas, um assombro, e pegou o também canhoto Maximilian Marterer que tem qualidades: saca e se mexe bem, gosta de contraataque e pega pesado da base. Aos 22 anos, pode evoluir muito.

– Mesmo depois de errar um smash muito semelhante àqueles de Djokovic e Nishikori – a diferença foi que empurrou para fora da quadra – Juan Martin del Potro calou a Philipp Chatrier e tirou Julien Benneteau em seu último Roland Garros. Delpo demorou para mexer bem as pernas. Se continuar assim, corre risco diante de Albert Ramos, que sabe abrir bem a quadra.

– Outro jogo bem interessante de terceira rodada envolverá Diego Schwartzman e Borna Coric. O ‘baixinho’ ainda não cedeu sets, ainda que tenham encarado jogadores de ranking muito inferior. Coric já tirou Philipp Kohlschreiber e arrasou Dieguito nos dois confrontos feitos. A vitória vale possível encontro com Nadal nas quartas, já que o adversário sairá de Kevin Anderson e Misha Zverev.

– Caroline Garcia venceu para alegria da torcida, mas o estádio Suzanne Lenglen tinha 30% de lugares vazios. Dona de muitos recursos, a francesa ainda pode jogar melhor. Parece muito presa e ansiosa. Possível sequência contra Kerber, Halep e Muguruza – e as três aqui muito firmes – não é nada fácil.

A sexta-feira
– Depois de completar com louvor a vitória sobre Tsitsipas, Thiem volta pelo terceiro dia à quadra para enfrentar Berretini, 96º do ranking. A lógica diz que o austríaco irá enfrentar Nishikori nas oitavas. Japonês é amplo favorito contra Simon, embora curiosamente jamais tenha se enfrentado. Francês só tem 20 vitórias em 13 participações em Paris.
– Djokovic reencontra Bautista, contra quem tem 6-1, e tenta a 43ª oitavas de Slam na carreira, o igualaria Connors no segundo lugar da Era Aberta.
– Interessante ver se Dimitrov terá pernas contra Verdasco após a maratona de quarta-feira. Experiente espanhol, que já esteve seis vezes nas oitavas de Paris, ganhou o duelo mais recente, em Indian Wells.
– Para variar, Monfils diz que está com mínimas condições de enfrentar Goffin. “Torci o joelho na segunda ronda, vou fazer exames. Além disso, estou bastante doente e tenho tomado antibióticos”. O belga – que ganhou de Monfils no último US Open por retirada do francês no segundo set – deve ter vida fácil.
– Zverev encara Dzumhur com a chance de disputar as oitavas de Paris pela primeira vez, mas bósnio ganhou único duelo na quadra dura em 2017.
– Pouille encara Khachanov pela terceira vez na temporada, com empate nos duelos em piso duro. Francês jamais atingiu quarta rodada do torneio.
– Invicta há 13 jogos no saibro, Kvitova pega Kontaveit, contra quem já teve duas vitórias duras. Estoniana venceu Wozniacki, Venus e Kerber no saibro deste ano. Deve ser melhor jogo da rodada feminina. Svitolina é favorita contra Buzarnescu e Wozniacki encara torcida contra Parmentier.

Avassalador
Por José Nilton Dalcim
20 de abril de 2018 às 16:56

Qual será o adjetivo mais apropriado quando você enfrenta aquele que deveria ser seu maior obstáculo não só ao título da semana mas talvez a toda a fase do saibro e o atropela como um principiante, tendo de ouvir a torcida implorar por um game? Deu pena de Dominic Thiem no reencontro com o cada vez mais avassalador Rafael Nadal.

Na verdade, em que pese a atuação soberba do espanhol, é incompreensível como um já experiente Thiem desaba em momentos importantes. Esta atuação apagada lembrou muito a semi de Roma do ano passado, quando escapou também de ‘bicicleta’ diante de Novak Djokovic, e mostrou fragilidade ainda maior do que na semi de Paris diante do mesmo Nadal poucos dias depois.

Eu havia escrito ontem que, para ser competitivo, Thiem precisava muito do primeiro saque e o que vimos foi um percentual pífio de 35% no primeiro set e 44% no segundo. E mesmo quando acertou, só ganhou 11 de 21 lances. Fez ainda cinco duplas faltas, três delas no fundamental comecinho da partida, e jamais explorou o saque bem aberto no lado do iguais ou um ‘american twist’ que jogasse o adversário para a linha de dupla no lado da vantagem, mesmo com Nadal a seis passos da linha. Teimosia ou incompetência?

Claro que essas opções táticas óbvias não seriam suficientes para ganhar de Nadal, já que o espanhol está degraus acima na confiança, repertório, deslocamento e visão tática, mas ao menos deixaria o jogo mais decente para dois especialistas de saibro de nível top 10.

Será muito mais aceitável que Grigor Dimitrov leve uma surra na semi deste sábado, já que o búlgaro não morre de amores pelo saibro e terá seu backhand atormentado pelo spin de Nadal. Mais uma vez, apenas um grande desempenho no serviço pode evitar um vexame, pois Rafa está assombroso no fundo da quadra, com um backhand mais calibrado e ofensivo do que nunca, e dando pouquíssimas oportunidades quando saca. Contra Thiem, errou apenas nove lances e ganhou todos os 10 pontos com mais de nove trocas. Um trator.

Dimitrov aliás viveu altos e baixos contra David Goffin. Fez um belo primeiro set até o nono game. Daí perdeu set-points e o saque, mas se valeu da falta de potência do belga para ainda fechar. Depois, entrou em parafuso, perdeu quatro games seguidos e viu Goffin chegar a 5/1. Mas com duas oportunidades de confirmar o saque, o belga pecou pela falta de coragem, errou backhands e viu Dimitrov crescer novamente. O búlgaro terminou a partida com um tênis vistoso. Uma pena que isso não aconteça o tempo inteiro.

A outra semi terá Alexander Zverev contra Kei Nishikori e honestamente não chega a me empolgar. O japonês sofreu muito para ganhar de um avariado Marin Cilic, jogando desnecessariamente um terceiro set, enquanto o alemão sofreu demais diante de Richard Gasquet sem outra vez mostrar a consistência ideal para o saibro. Sem falar nas escolhas duvidosas na parte tática, como a estranha insistência em atacar o backhand do francês.

Destaques
– Conforme publicado em TenisBrasil, Nadal anotou seu 12º pneu da carreira sobre um top 10, o 59º sobre o saibro (sendo 11 em Monte Carlo) e o 97º do total. Até mesmo o atual técnico Moyá levou surra do canhoto de Mallorca.
– Desde que perdeu para Thiem em Roma do ano passado, Nadal ganhou 12 partidas e 32 sets consecutivos no saibro.
– Dimitrov tem mostrado grande poder de recuperação em Monte Carlo. Virou contra Herbert e Kohlschreiber antes da incrível reação no segundo set diante de Goffin.
– Com a semi, Nishikori pode retornar ao 26º lugar do ranking e será 21º se atingir a final, mas certamente a meta é estar entre os 17 após Roma para pegar uma boa condição de cabeça em Paris.
– Djokovic aceitou convite e vai jogar em Barcelona, onde entrará como cabeça 6 e portanto estreará diretamente na segunda rodada. A chave sai neste sábado, com Nadal, Dimitrov, Thiem e Goffin como principais inscritos além de Ferrer, Verdasco, Carreño e Bautista. Dureza. O sérvio aliás anunciou que Marian Vajda fica até o final do saibro.