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Avassalador
Por José Nilton Dalcim
20 de abril de 2018 às 16:56

Qual será o adjetivo mais apropriado quando você enfrenta aquele que deveria ser seu maior obstáculo não só ao título da semana mas talvez a toda a fase do saibro e o atropela como um principiante, tendo de ouvir a torcida implorar por um game? Deu pena de Dominic Thiem no reencontro com o cada vez mais avassalador Rafael Nadal.

Na verdade, em que pese a atuação soberba do espanhol, é incompreensível como um já experiente Thiem desaba em momentos importantes. Esta atuação apagada lembrou muito a semi de Roma do ano passado, quando escapou também de ‘bicicleta’ diante de Novak Djokovic, e mostrou fragilidade ainda maior do que na semi de Paris diante do mesmo Nadal poucos dias depois.

Eu havia escrito ontem que, para ser competitivo, Thiem precisava muito do primeiro saque e o que vimos foi um percentual pífio de 35% no primeiro set e 44% no segundo. E mesmo quando acertou, só ganhou 11 de 21 lances. Fez ainda cinco duplas faltas, três delas no fundamental comecinho da partida, e jamais explorou o saque bem aberto no lado do iguais ou um ‘american twist’ que jogasse o adversário para a linha de dupla no lado da vantagem, mesmo com Nadal a seis passos da linha. Teimosia ou incompetência?

Claro que essas opções táticas óbvias não seriam suficientes para ganhar de Nadal, já que o espanhol está degraus acima na confiança, repertório, deslocamento e visão tática, mas ao menos deixaria o jogo mais decente para dois especialistas de saibro de nível top 10.

Será muito mais aceitável que Grigor Dimitrov leve uma surra na semi deste sábado, já que o búlgaro não morre de amores pelo saibro e terá seu backhand atormentado pelo spin de Nadal. Mais uma vez, apenas um grande desempenho no serviço pode evitar um vexame, pois Rafa está assombroso no fundo da quadra, com um backhand mais calibrado e ofensivo do que nunca, e dando pouquíssimas oportunidades quando saca. Contra Thiem, errou apenas nove lances e ganhou todos os 10 pontos com mais de nove trocas. Um trator.

Dimitrov aliás viveu altos e baixos contra David Goffin. Fez um belo primeiro set até o nono game. Daí perdeu set-points e o saque, mas se valeu da falta de potência do belga para ainda fechar. Depois, entrou em parafuso, perdeu quatro games seguidos e viu Goffin chegar a 5/1. Mas com duas oportunidades de confirmar o saque, o belga pecou pela falta de coragem, errou backhands e viu Dimitrov crescer novamente. O búlgaro terminou a partida com um tênis vistoso. Uma pena que isso não aconteça o tempo inteiro.

A outra semi terá Alexander Zverev contra Kei Nishikori e honestamente não chega a me empolgar. O japonês sofreu muito para ganhar de um avariado Marin Cilic, jogando desnecessariamente um terceiro set, enquanto o alemão sofreu demais diante de Richard Gasquet sem outra vez mostrar a consistência ideal para o saibro. Sem falar nas escolhas duvidosas na parte tática, como a estranha insistência em atacar o backhand do francês.

Destaques
– Conforme publicado em TenisBrasil, Nadal anotou seu 12º pneu da carreira sobre um top 10, o 59º sobre o saibro (sendo 11 em Monte Carlo) e o 97º do total. Até mesmo o atual técnico Moyá levou surra do canhoto de Mallorca.
– Desde que perdeu para Thiem em Roma do ano passado, Nadal ganhou 12 partidas e 32 sets consecutivos no saibro.
– Dimitrov tem mostrado grande poder de recuperação em Monte Carlo. Virou contra Herbert e Kohlschreiber antes da incrível reação no segundo set diante de Goffin.
– Com a semi, Nishikori pode retornar ao 26º lugar do ranking e será 21º se atingir a final, mas certamente a meta é estar entre os 17 após Roma para pegar uma boa condição de cabeça em Paris.
– Djokovic aceitou convite e vai jogar em Barcelona, onde entrará como cabeça 6 e portanto estreará diretamente na segunda rodada. A chave sai neste sábado, com Nadal, Dimitrov, Thiem e Goffin como principais inscritos além de Ferrer, Verdasco, Carreño e Bautista. Dureza. O sérvio aliás anunciou que Marian Vajda fica até o final do saibro.

Sai Djokovic, entra Thiem
Por José Nilton Dalcim
19 de abril de 2018 às 15:53

Substituição no time dos que sonham em barrar Rafael Nadal no saibro europeu. Cansado e ainda fora da forma ideal, Novak Djokovic dá lugar à juventude e impetuosidade do atacante Dominic Thiem.

A bem da verdade, Thiem é o titular do time. Ao mesmo por enquanto. Ainda que esteja voltando da torção no pé em Indian Wells, está em ritmo muito melhor. De seus 12 jogos sobre o saibro em 2018, só perdeu um, diante de Fernando Verdasco no Rio Open. Também não se pode ignorar que é um dos raros tenistas do circuito a somar duas vitórias sobre Nadal sobre o saibro, ainda que tenha perdido cinco vezes também.

A vitória do austríaco sobre Djokovic nesta quinta-feira em Monte Carlo deveria ter sido em dois sets. Nole começou lento e frio, salvando um set-point ainda no oitavo game que daria vastos 6/2 a Thiem, que se mostrava menos afoito para definir pontos.

Só aí tivemos realmente um jogo. O austríaco desperdiçou outros dois set-points, perdeu o saque e vimos enfim o sérvio vibrar. Subiu de nível, ainda que o saque raramente tivesse funcionado, e ganhou um tiebreak muito mal jogado por Thiem.

Talvez a história tivesse mudado se Djokovic aproveitasse o break-point que lhe daria 2/0 no segundo set, já que o austríaco baixou muito a guarda. Ao contrário, foi Thiem quem obteve a quebra e daí em diante dominou um adversário que parecia não ter mais energia. Os seis primeiros games do terceiro set foram bons, com trocas pesadas como imaginei que aconteceria o tempo todo, até que Nole voltou a falhar no serviço.

Evidente que Djokovic ainda está longe do nível ideal. Cometeu 40 erros, dos quais 27 de backhand, índices muito altos. Levaria provavelmente uma surra de Nadal. De qualquer forma, mostrou clara evolução técnica e física. E deu a ótima notícia: vai jogar na próxima semana, devendo pedir convite a Barcelona ou Budapeste. É preciso também destacar a boa performance de Thiem na base: 33 erros, mas apenas 11 de backhand, e 36 winners no total.

Nadal continua passeando. Diante de um Karen Khachanov que sempre abusa da força, foi o espanhol quem fez muito mais winners (25 a 10) e menos erros (14 a 19, ainda que 10 de forehand). E mais: ganhou 12 dos 14 lances que tentou junto à rede, incluindo pelo menos dois de grande categoria. Claro que Khachanov decepcionou com 43% de acerto de primeiro saque. Que sirva de grande alerta para Thiem: sem seu poderoso primeiro serviço, será duro se manter competitivo nesta sexta-feira.

As quartas de Monte Carlo verão ainda um interessante duelo entre Grigor Dimitrov e David Goffin, estilos bem diferentes. O búlgaro tem 6 a 1 nos duelos, todos na quadra dura. Os dois jogaram bem nesta quinta-feira. Alexander Zverev avançou apesar dos 53 erros e leva 3 a 0 de histórico contra Richard Gasquet, mas nunca sobre o saibro. Marin Cilic nem entrou em quadra já que Milos Raonic se contundiu de novo! Faz 14º duelo contra Kei Nishikori. O japonês vai recuperando a confiança a cada semana, tem 7 a 6 diante do croata e ganhou o único sobre o saibro, em 2014.

Destaques
– A última vez que Nadal conquistou Monte Carlo sem perder sets foi na edição de 2012. No ano passado, cedeu um para Edmund na primeira rodada e depois embalou. Agora, já são 12 sets seguidos.
– Gasquet completou nesta quinta-feira sua vitória de número 500 da carreira e se tornou o francês com maior quantidade de triunfos em toda Era Profissional. Ele, que aos 15 anos se tornou o mais jovem a passar uma rodada de Masters lá mesmo em Mônaco, tem boa versatilidade: 298 vitórias na dura, 130 no saibro e 62 na grama.
– Goffin terá tristes recordações contra Dimitrov: foi justamente na semi de Roterdã contra o búlgaro quando sofreu o acidente da bola no olho que o prejudicou por dois meses.
– Nishikori não pode ser considerado fraco sobre o saibro: tem dois títulos e outra final em Barcelona e um vice em Madri, naquele jogo em que teve chance real de bater Rafa.
– Aos 34 anos, Seppi tenta sobreviver no circuito. Jogou challenger no começo do ano, mas depois fez semi em Roterdã. Então precisou abandonar Indian Wells e Miami por problema recorrente no quadril.

Saibristas autênticos
Por José Nilton Dalcim
18 de abril de 2018 às 18:56

Não é nada difícil entender o que são verdadeiros saibristas. Basta admirar Rafael Nadal e Novak Djokovic para entender como se deve construir um ponto sobre a terra batida. Os dois deram uma aula de estratégia, paciência e deslocamento nesta quarta-feira, o que só aumenta a expectativa por um reencontro nas quartas de final de Monte Carlo.

Nadal fez sua estreia, mas já o terceiro jogo sobre o piso incluindo-se a Copa Davis, e não é preciso falar muito sobre o ‘rei do saibro’. A se destacar a firmeza cada vez maior do backhand e como funciona bem para ele o princípio de devolver seis passos atrás da linha, apostando numa devolução profunda que o permita dominar rapidamente o ponto.

Djokovic por seu lado passou com louvor por um duelo bem exigente diante de Borna Coric, em que precisou ser consistente na base e esperar a hora certa para ser agressivo. Usou mais as paralelas, mostrou-se fisicamente em ordem e acima de tudo a cabeça ficou no jogo o tempo inteiro, sem mostrar ansiedade ou frustração excessivos, nem mesmo depois de desperdiçar nove match-points.

Enquanto Rafa deve ter outro jogo protocolar diante de Karen Khachanov – o jovem russo possui fortes golpes de base, mas emocionalmente é muito instável para aguentar a pressão constante que o canhoto espanhol impõe -, Djokovic terá um teste ainda mais difícil diante de Dominic Thiem. No ano passado, o sérvio atropelou na semi de Roma, mas três semanas depois levou até ‘pneu’ nas quartas de Paris. Thiem joga bem diferente de Coric, acelerando muito da base com inteligente mescla de slices, sem falar num saque a mais de 200 por hora o tempo todo. Imperdível.

Do lado inferior da chave, admito completa indecisão sobre quem seria o maior candidato à vaga na final. Richard Gasquet surrou Diego Schwartzman, mas o argentino estava com problema na mão direita e não rendeu nada. Semifinalista em 2005, Gasquet é favorito natural contra Mischa Zverev, porém o habilidoso do saque-voleio pode explorar o forehand deficitário e surpreender. Quem avançar, enfrentará Alexander Zverev ou Jan-Lennard Struff, e então não é impossível termos um duelo de irmãos nas quartas. Ouso dizer que Sasha corre risco por conta de sua irregularidade, já que Struff joga direitinho e adora pressionar na rede.

No outro quadrante, Marin Cilic e Milos Raonic fazem duelo de gigantes onde a teoria manda apostar cegamente no jogo de base muito superior do cabeça 2. O vencedor terá Kei Nishikori ou o quali Andreas Seppi, dois jogadores que preferem muito mais um piso veloz, ainda que não sejam grandes sacadores.

Detalhes
– A favorável temporada sobre o saibro deverá levar Nadal do 10º para o 6º lugar em número de partidas disputadas em toda a Era Profissional. Ele agora tem 1.066, muito perto de Edberg (1.071), McEnroe (1.075) e Nastase (1.077) e apenas 19 atrás de Ferrer (1.085).
– Em termos de vitórias totais, Rafa marcou a 880ª e ocupa o quinto lugar. O próximo da lista é Vilas, com 929.
– Nadal e Djokovic ainda sonham superar Borg em percentual de vitórias na carreira. O sueco ficou com 82,74%, muito perto do sérvio (82,58%) e do espanhol (82,55%).
– Nadal ganhou ao menos um título por temporada desde 2004, portanto tenta ir à 15ª consecutiva e igualar recorde de Federer (2001-15).