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Os velhinhos dão lição
Por José Nilton Dalcim
24 de março de 2019 às 01:06

Em situações totalmente antagônicas, Roger Federer e David Ferrer deram neste sábado uma boa lição de tênis. O número 5 do mundo esteve longe de seus melhores dias, pouca coisa funcionou a contento, mas ele procurou um jeito de ganhar, e conseguiu. O veterano espanhol, fazendo suas últimas partidas, não perde jamais o espírito de superação. Usou todas as armas possíveis para derrubar de virada nada menos que o terceiro do mundo.

Fiquei muito curioso para ver as explicações de Federer para uma atuação tão instável. Inegável que o moldávio Radu Albot foi aplicadíssimo na parte tática, com o objetivo de colocar o primeiro saque em quadra para sofrer o mínimo de ataque, assim como tentou variar o jogo e até ir à rede antes do poderoso adversário.

Não deu para concluir muita coisa da entrevista oficial. O suíço elogiou o adversário, falou do clima estranho do estádio novo e reconheceu que ficou confuso sobre qual padrão adotar. Chegou a dizer que se esqueceu do que tinha combinado com o treinador. Nenhuma palavra para a dificuldade de mexer bem as pernas, notória em boa parte do jogo.

O fato é que Federer só avançou para a terceira rodada porque conseguiu arrancar golpes perfeitos nos momentos mais delicados, como a sequência de três aces que o tirou do sufoco de um break-point no sétimo game do terceiro set. Alguns números assustam, principalmente os 69% de serviços devolvidos diante de um oponente que raramente sacou a mais de 180 km/h. Também curioso o empate por 61 nos pontos mais curtos e os 22 erros de forehand.

Já o espanhol de 36 anos valeu-se da incrível instabilidade de Alexander Zverev. Mesmo o primeiro set de placar elástico viu o alemão vacilar no saque. Tudo ainda parecia caminhar para a lógica quando reagiu e virou para 5/4 no segundo set. Mas Ferrer não é do tipo que dá ponto de graça. Sascha sofreu, cometeu 12 duplas faltas, foi dominado na base e decepciona pelo segundo Masters seguido. Sorridente e muito aplaudido, Ferrer enfrentará agora Frances Tiafoe, que saiu mancando de quadra.

Federer cruzará na segunda-feira com o sérvio Filip Krajinovic, que ganhou um presente de Stan Wawrinka no tiebreak derradeiro. O suíço abriu 5-2 com dois serviços para liquidar a partida e perdeu cinco pontos consecutivos. Incrível. Destaques ainda para outra queda de Maric Cilic, o bom retorno de Grigor Dimitrov, a má fase acentuada de Karen Khachanov e a boa estreia de Stefanos Tsitsipas.

O torneio feminino, por sua vez, foi sacudido por duas grandes baixas. Serena Williams antecipou-se e anunciou desistência um dia antes de sua partida de terceira rodada, agora com problemas no joelho.

Na quadra, Naomi Osaka colecionou oportunidades perdidas e parou diante do tênis paciente de Su-Wei Hsieh. A japonesa saiu com larga desvantagem mas se achou e aí parecia caminhar bem. Sacou para a partida com 5/4,  chegando a ter 30-0, e aí começou o drama. A taiwanesa é outra que não se entrega, batalhou, levou ao tiebreak e ao terceiro set. Outra vez Osaka abriu 2/0, e aí perdeu intensidade. Erros sucessivos e um final de jogo melancólico.

Petra Kvitova e Simona Halep são perigosas candidatas a tirar o número 1 de Osaka, mas as duas precisão do título para tanto. Angelique Kerber, se vencer o reencontro desta madrugada com Bianca Andreescu, também estará na briga.

Thiem volta a ser Thiem
Por José Nilton Dalcim
22 de março de 2019 às 23:28

É absolutamente normal no circuito de hoje um campeão tropeçar imediatamente no torneio seguinte, seja por falta de adrenalina ou pela cobrança natural.

Dominic Thiem no entanto foi além desse direito natural e fez uma partida a seu melhor estilo na noite desta sexta-feira: exagerado na força, falho nas escolhas, frágil na parte mental.  Saiu na frente com quebra, não segurou e fez um game pavoroso para perder o serviço e o primeiro set. Depois teve 3/1 e 4/2, não suportou a pressão e cedeu os dois serviços seguintes.

A parte boa disso tudo é que ele deixou uma vaga nas oitavas de final do Masters de Miami para dois garotos que vêm chamando a atenção: seu algoz Hubert Hurkacz, polonês de 22 anos cheio de bons recursos, e a sensação Felix Auger-Aliassime, de 18, com seu delicioso tênis muito ofensivo. Quem ganhar, aliás, será top 50 do ranking pela primeira vez. Então digamos que o trabalho de Thiem acabou bem feito.

A outra decepção no dia em que os primeiros grandes nomes estrearam em Miami foi Kei Nishikori. Repetiu a receita de Thiem em doses ainda mais dolorosas. Arrasou Dusan Lajovic no primeiro set e aí se perdeu em erros, a ponto de terminar com 20 forehands desperdiçados. O sérvio de 28 anos é brigador, tem um jogo mais na base de toques e vive um bom momento.

Será o adversário de Nick Kyrgios, que exagerou no malabarismo mas tirou o quali Alexander Bublik. Se o australiano tiver o mínimo de juízo, vai aproveitar uma chave muito propícia para ir longe. Quem sabe até as quartas e aí faça o duelo contra Novak Djokovic que escapou em Indian Wells por sua total incompetência.

Por falar no líder do ranking, ele ratificou o favoritismo sobre Bernard Tomic e ampliou o placar para 6-0, mas foi um jogo chato, sonolento. O australiano ficou trocando bolas em peso, evitou arriscar e Nole passou a maior parte do primeiro set nesse ritmo insosso, chegando até a perder o serviço antes de Tomic. Assim que resolveu ser mais ofensivo, o sérvio dominou e atropelou. Afinal, a distância técnica é enorme. Faz agora um duelo curiosamente inédito contra o canhoto argentino Federico Delbonis, a quem sobra potência, mas falta consistência.

A chave feminina completou a segunda rodada também com as estreias finais das cabeças e viu altos e baixos de Naomi Osaka, Angelique Kerber e Serena Williams, todas com sets perdidos mas nenhum risco real de derrota. Destaque para a ótima vitória de Simona Halep e as duas rodadas que a veteraníssima Venus Williams já avançou.

A terceira rodada coloca oito jogos em quadra com uma grande atração: a revanche da final de domingo de Indian Wells entre Kerber e Bianca Andreescu. Ainda que tenha tenros 18 aninhos, é incrível que Bianca tenha que jogar pelo terceiro dia seguido em Miami. Na lentidão do lugar e diante do poder defensivo da alemã, ganhar será mais um feito incrível.

Os números 1 perderam… a cabeça
Por José Nilton Dalcim
13 de março de 2019 às 00:55

Terça-feira a se esquecer tanto para Novak Djokovic como para Naomi Osaka. O número 1 masculino sequer chegou nas oitavas de final de Indian Wells, a líder feminina e atual campeã levou uma surra e só não vai perder o posto porque a vice Simona Halep também decepcionou.

Nole definitivamente perdeu a cabeça. Jogou mal, parecia desfocado, arrebentou a raquete ao perder o primeiro set e furou a lona de fundo de quadra na partida de duplas que mais tarde venceu ao lado de Fabio Fognini. Seria efeito do péssimo clima dos vestiários?

Philipp Kohlschreiber, inegável, jogou de forma inteligente, exatamente como havia feito diante de Nick Kyrgios. A partir do quarto game, apostou numa tática inusitada, enchendo a bola de topspin antes de disparar um golpe mais reto ou arriscar uma deixadinha. Misturou demais o tempo inteiro.

Costumeiramente um ótimo estrategista, Djokovic desta vez se atrapalhou todo e não achou antídoto. Terminou com incríveis 19 erros de forehand de um total de 32, ou seja, média superior a 3 erros por game disputado. Algo que só o tênis pode proporcionar, o alemão repetiu a isolada vitória de Roland Garros praticamente 10 anos depois.

Osaka bem que ameaçou quebrar sua raquete também, porém se conteve e engoliu a frustração. A japonesa chegou claramente pressionada para defender o título e jogar como número 1. Mas é algo que com certeza mais algum tempo de estrada a fará administrar bem.

Aplausos para Belinda Bencic. Mesmo tendo um segundo saque pouco contundente, derrubou a quinta adversária top 10 em dois torneios seguidos, incluindo as três atuais líderes. Sua grande arma é uma visão de jogo extraordinária, que se junta a aplicação tática ferrenha e conjunto técnico competente.

Em dia cheio, Rafael Nadal demoliu Diego Schwartzman, enfrentará o sérvio Filip Krajinovic e provavelmente cruzará com John Isner ou Karen Khachanov. Sequência muita promissora.

Como era de se esperar, Roger Federer se mostrou muito mais inteiro fisicamente do que o amigo Stan Wawrinka e deve desafiar a nova geração, primeiramente Kyle Edmund e quem sabe Denis Shapovalov ou o ascendente Hubert Hurkacz, polonês de 22 anos que já chamei a atenção aqui.

Do outro lado, Kohlschreiber faz interesse duelo de ‘trintões’ com o renovado Gael Monfils e quem passar jogará contra Dominic Thiem ou Ivo Karlovic. Há boa chance para Milos Raonic ir longe. Pega Jan-Lennard Struff, que se valeu de péssimo dia de Alexander Zverev, e teria todo favoritismo contra Yoshihito Nishioka ou Miomir Kecmanovic, garoto sérvio de 19 anos.

Por falar em experiência, Venus Williams continua firme e forte. Aos 38 anos, dá outro show de vitalidade e amor ao tênis. Fez um jogo magnífico contra Petra Kvitova logo na estreia e embalou para as quartas. Nada fácil encarar agora Angelique Kerber ou Aryna Sabalenka.