Arquivo da tag: Milos Raonic

Nadal se enrola e embola
Por José Nilton Dalcim
1 de setembro de 2018 às 01:34

Para dar um tom ainda maior de equilíbrio ao US Open, Rafael Nadal resolveu dar um susto nesta sexta-feira. Bem menos eficiente e preciso do que o habitual, se viu incomodado pelo estilo de alto risco de Karen Khachanov e esteve perto, muito perto mesmo de encarar um placar negativo de dois sets. Para quem acha que isso é pouco, Rafa só virou um placar assim três vezes na carreira.

O jovem russo tem golpes e ousadia, não restam dúvidas, mas se mostra um tanto cru quando encara grandes partidas e adversários de peso. Foi isso o que salvou Nadal no segundo set, em que novamente permitiu quebras e atuou de forma muita defensiva.

É bem verdade que o russo ainda se manteve muito competitivo mas, a partir da reação, Nadal já era outro. Optou pelas paralelas de forehand, usou muito slice e conseguiu balançar mais o adversário. Ainda assim, viu Khachanov sacar (e fazer dupla falta) com 7-7 no primeiro tiebreak e, um set mais tarde, jogar no pé da rede um forehand no set-point. Foi quase uma façanha Rafa ter escapado do quinto set, ainda que fosse evidente a falta de pernas do russo após essas 4h23 de incrível batalha.

A dificuldade inesperada certamente servirá de alerta contra Nikoloz Basilashvili, um georgiano de 26 anos que saiu do anonimato ao ganhar Hamburgo semanas atrás vindo do quali, o que lhe levou ao atual top 40. Quem tem boa memória, lembrará de seu duelo contra Roger Federer na Austrália de 2016 mas principalmente da surra que levou de Nadal em Paris do ano passado, quando venceu um único game em três sets.

Outro jogo intensamente disputado da sexta-feira teve a experiência de Kevin Anderson contra a juventude de Denis Shapovalov, e foi mais um cheio de grandes lances. O canadense fez quase o dobro de winners (59 a 31), porém a administração mental do sul-africano segurou o quinto set. Anderson já fez 13 sets no US Open e terá outro tenista que arrisca demais nas oitavas. Dominic Thiem virou em cima de Taylor Fritz com números intrigantes: 59 winners e 52 erros em quatro sets.

Stan Wawrinka deu uma crucial vacilada no tiebreak do primeiro set contra Milos Raonic. A partir daí o canadense cresceu e fez uma partida muito consciente até mesmo no fundo de quadra. Para ir às quartas do US Open pela primeira vez, terá de passar por John Isner, o líder de aces do torneio (98), contra quem leva desvantagem de 1-4 nos confrontos, incluindo recente quartas em Wimbledon.

Por fim, Juan Martin del Potro precisou de muito esforço para segurar Fernando Verdasco e sua irritação, já que deixou escapar vantagens importantes nos dois primeiros sets. O inédito cruzamento com Borna Coric promete, e deixa a dúvida tática: o croata vai tentar ganhar no fundo ou ousará na rede atrás do backhand argentino?

A chave feminina viu o reencontro um tanto frustrante entre Serena e Venus Williams, mas de certa forma Venus apenas ratificou seu momento de baixa que vem desde abril. Serena tem grande chance de ir às quartas contra Kaia Kanepi e depois enfrentar Karolina Pliskova ou Ashleigh Barty, aí sim jogadoras bem mais perigosas na quadra dura. Registre-se que Serena disputou todas as oitavas do US Open em suas últimas 17 participações, com única exceção na estreia de 1998, há exatos 20 anos.

Sloane Stephens jogou bem contra Vika Azarenka, apesar de algums games instáveis na metade do segundo set, e deve ganhar confiança para dois jogos difíceis: Elise Mertens nas oitavas – a belga venceu há duas semanas em Cincinnati – e quem passar de Elina Svitolina e Anastasija Sevastova. Note-se que todas as candidatas já tiveram set perdido e algum susto, o que só aumenta a imprevisibilidade.

Nadal testa armas
Por José Nilton Dalcim
30 de agosto de 2018 às 01:00

Um adversário de bom saque mas jogo de fundo bastante impreciso, que teria como maior opção encurtar pontos e ir muito à rede. Então o número 1 do mundo usou uma receita diferente e testou novas armas: além do saque muito profundo e alternado – que só deu uma caída no meio do segundo set -, experimentou devolver de forma agressiva, muitas vezes um passo dentro da quadra, e disparar bolas mais rasantes.

Essa postura tática também teve a ver, claro, com o calor insuportável de Nova York. Evitar desgaste, correria, games e pontos longos era extremamente necessário. Então, no conjunto, Rafael Nadal teve uma exibição admirável no fechamento da rodada noturna contra Vasek Pospisil. Na sexta-feira, vai encarar o russo Karen Khachanov, a quem dominou semanas atrás em Toronto, que também joga no risco o tempo todo, embora raramente saia do fundo de quadra. E deve concluir no domingo sua tranquila primeira parte do US Open diante de Guido Pella ou Nikoloz Basilashvili. Serão então dez jogos seguidos no US Open sem enfrentar um único top 25. Não dá para reclamar da sorte.

Solto na chave por ser hoje um mero 101º do ranking, Stan Wawrinka concorre a ser a boa surpresa. Teve trabalho com o jovem canhoto Ugo Humbert por conta de alguma instabilidade e pode encarar dois grandes sacadores na sequência: agora vem Milos Raonic, sobre quem tem 4 a 1 nos duelos, e quem sabe depois John Isner. O principal nome da casa escapou da derrota para Nicolas Jarry, chileno pouco afeito ao piso duro, e se mostra um tanto pressionado por boa campanha.

Portanto, dá para sonhar com uma semifinal entre dois campeões do US Open, porque Juan Martin del Potro é amplo favorito no seu setor. Nestes dois jogos iniciais, mostrou determinação de ir à rede e encurtar pontos. Enfrenta agora o canhoto Fernando Verdasco, contra quem só sofreu uma derrota há sete anos.

O espanhol fez um belo duelo milimétrico contra Andy Murray antes de virar a polêmica do dia, ao ser acusado pelo escocês de receber instrução no intervalo de 10 minutos pela ‘regra do calor’. Errado, mas será que isso fez tanta influência assim para quem entrou em quadra com retrospecto positivo de 13 a 1?

Outra partida interessante de terceira rodada promete envolver Kevin Anderson e Denis Shapovalov. O atual vice jogou bem melhor do que na estreia, sem apresentar sinal de problemas musculares, e o canadense venceu Andreas Seppi no seu mais puro estilo: 76 erros e 55 winners. Continua no limite entre o arrojado e o inconsequente, porém não sei se isso será válido contra Anderson. Quem passar, enfrentará Dominic Thiem e Taylor Fritz. Boa chance.

A chave feminina por sua vez teve confirmado o 30º capítulo entre as irmãs Serena e Venus Williams, um molho saboroso para o US Open. É bem verdade que elas raramente fazem bons duelos, mas é a certeza de que uma irá adiante com todo o favoritismo para fazer quartas, já que o cruzamento será com Kaia Kanepi ou Rebecca Peterson.

Desde o início, ficou claro que não há uma favorita destacada para esta edição de Flushing Meadows e o perigoso vacilo de Sloane Stephens apenas confirma isso. A campeã ainda se safou, mas sua caminhada é bem dura: vem agora Vika Azarenka, que atropelou Daria Gavrilova e está num de seus torneios prediletos.

Show suíço, surpresa belga
Por José Nilton Dalcim
18 de agosto de 2018 às 01:17

Roger Federer e Stan Wawrinka ficaram em quadra até perto da meia noite local, mas deram um belo espetáculo no encerramento quase milagroso das quartas de final do sofrido Masters 1000 de Cincinnati. Valeu a pena. Menos para as bolinhas, é claro, que foram surradas pelos dois gigantes suíços sem piedade, num duelo milimetricamente disputado e que por pouco não acabou nas mãos de Wawrinka.

Stan jogou muito bem, movimentando-se sem limitações, forçando o saque e se defendendo das tentativas de ataque de Federer. A rigor, Roger jogou mal mesmo o primeiro tiebreak e quase repetiu o vacilo no desempate do segundo set, quando deixou escapar vantagem e viu o amigo sacar com 6-6. Duas bolas fora de tempo deram o empate ao número 2 do ranking, que então finalmente concretizou sua superioridade nas devoluções com as duas únicas quebras que selaram uma partida de alto nível técnico.

O adversário de Federer inesperadamente será David Goffin, que venceu Juan Martin del Potro em dois tiebreaks. Se teve pequenos altos e baixos na execução técnica, o belga se portou magnificamente na postura tática. Mostrou-se ofensivo, foi à rede toda vez que sentiu que Delpo daria um backhand defensivo, sacou com determinação em momentos delicados. Num piso tão veloz como Cincinnati, Goffin brilhou com postura bem ofensiva, que poderá repetir diante de Federer às 20h deste sábado. Vale lembrar que ele encerrou a série de seis derrotas para o recordista de Grand Slam com atuação magnífica na semi do Finals de Londres.

Enquanto isso, Djokovic amplia sua freguesia, uma após a outra. Aumentou para 8 a 1 o placar em cima de Grigor Dimitrov, no complemento do jogo interrompido na véspera, e chega a 9 a 0 diante de Milos Raonic. Tem feito um curso intensivo de como aturar intermináveis slices cruzados, algo que vem desde Steve Johnson.

O sérvio teve suas instabilidades – e cenas de fúria, contra a bola e a raquete – mas na hora em que o mental tanto importa ele faz a diferença. Virou contra Dimitrov, dominando pouco a pouco a cabeça do búlgaro, e se viu atrás de Raonic nos três sets, momentos em que colocou a devolução para funcionar e encurralou o canadense no fundo de quadra, expondo Milos a seus erros. Foram 50, aliás, diante de meros 17.

E às 15h vem aí outro ‘freguês’, Marin Cilic, que ganhou apenas 2 de 16 duelos, embora tenha levado a melhor nos dois mais recentes, incluindo a final de Queen´s de dois meses atrás. Não se pode menosprezar o poder de fogo do croata num piso veloz, mas também todo mundo sabe o quanto ele pode ir do céu ao inferno em questão de minutos. Que o diga a recente derrota para Rafa Nadal em Toronto.

Enquanto isso, a chave feminina tem outra vez Simona Halep nas semifinais. Depois da exaustiva conquista em Montréal, a número 1 do mundo também superou rodada dupla nesta sexta-feira e ainda parece ter fôlego suficiente para tentar outro título às portas do US Open. A barreira deste sábado é a embaladíssima Aryna Sabalenka, que bateu sempre na bola para tirar Johanna Konta, Karolina Pliskova, Caroline Garcia e nesta noite Madison Keys, num jogo em que salvou 10 break-points sempre com coragem. É a versão Tsitsipas de Cincinnati.

Do outro lado da chave, Petra Kvitova não foi bem em seus últimos três torneios e me pareceu um tanto cansada antes de concluir a excelente vitória sobre Elise Mertens, num jogo de muita qualidade técnica, variação tática e empenho. Sua adversária será Kiki Bertens, que também mostrou muitos recursos e tirou com autoridade Elina Svitolina. Promessa de outro excelente duelo.

Os cabeças do US Open
O ranking da próxima segunda-feira é muito importante porque mostrará os cabeças de chave do US Open. Vamos ao quadro, praticamente definido:
– Nadal, Federer e Delpo serão os 3 principais cabeças. Zverev só perde o 4 se Cilic for campeão.
– Anderson, Cilic, Djokovic e Dimitrov vêm a seguir, a menos que Goffin seja campeão e rebaixe o búlgaro.
– Na faixa de 9 a 16, boa situação para Thiem, Goffin, Isner e Carreño, à frente de Schwartzman, Fognini, Tsitsipas e Edmund.
– Entre 17 e 24, que enfrentam os cabeças 9 a 12 na terceira fase, aparecem Pouille, Sock, Bautista, Coric, Nishikori, Cecchinato, Chung e Dzumhur. Acho que perigosos aqui só Coric e Nishikori.
– O último grupo, que vai cruzar com os cabeças 1 a 8 na terceira rodada, conta com Raonic, Gasquet, Khachanov, Shapovalov, Mannarino, Kyrgios, Verdasco e Krajinovic. Se for campeão, Stan entra nesta faixa, que gente bem perigosa, como Raonic, Shapovalov e Kyrgios.
– No feminino, Halep, Wozniacki, Stephens, Kerber, Kvitova, Garcia,  Svitolina e Pliskova serão as oito primeiras. Se ficar com o título ou se Wozniacki desistir de Nova York, Kvitova sobe para 4.
– Muguruza cai para 12, Venus está em 15, Sharapova entra como 21, Serena de 25. Azarenka, Konta e Bencic soltas na chave.