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Como uma criança
Por José Nilton Dalcim
28 de janeiro de 2018 às 22:39

Roger Federer deu mais uma lição de amor e dedicação àquilo que escolheu fazer na vida. Multimilionário e maior campeão da história do tênis, caminha para os 37 anos com fome de bola. Esbanja saúde, força, elasticidade, determinação, coragem. Vibra nos pontos importantes, não se conforma com seus erros, usa os mais variados recursos, e pouca gente tem ou teve um arsenal como ele. Talvez ninguém.

Ao ver a emoção incontrolada e lágrimas escapando após a conquista de seu 20º Grand Slam em mais uma batalha de cinco sets que jamais abalou seu físico invejável, fica ao menos a sensação de que Federer é afinal humano. Ainda que ele ainda me pareça não pertencer a esta Terra.

Marin Cilic, com certa razão, reclamou do fechamento do teto pouco antes da partida. Nem tanto pelas condições, que ficam sempre um pouco mais velozes, mas devido à diferença de temperatura entre os 30 graus externos e os 23 da arena. De fato, a temperatura mexe acima de tudo com o encordoamento das raquetes e foi visível o croata trocar equipamento ainda no meio do primeiro set em busca do ajuste.

Federer, diga-se, também ficou surpreso com a decisão dos organizadores e afirma que não foi avisado com antecedência, mas que procurou se adaptar o mais rápido possível à situação, que obviamente lhe agrada muito. Ainda durante o jogo, os promotores soltaram um comunicado para explicar a decisão, mas com certeza isso teve muito a ver com o mal estar sentido por Simona Halep na véspera, quando a final começou com 32 graus, três a menos do que na decisão deste domingo.

O fato é que Cilic teve um começo ruim e viu Federer desfilar em quadra. Demorou até para ganhar game. Depois, pareceu se acalmar e passou a utilizar melhor o primeiro serviço. Achou o tempo do backhand e por fim começou a soltar paralelas que pareciam tão essenciais. O segundo set viu muitos break-points evitados e um set-point salvo por Federer, que depois fez 3-2 e saque no tiebreak. O croata fez então uma devolução incrível e virou.

Mas o jogo ainda parecia muito na mão do suíço. O slice cruzado enlouquecia Cilic. Mesmo com primeiro saque muito irregular, Federer passou a ir mais à rede e aí fez 6/3 e 3/1, sinal claro que o troféu estava perto. Que nada. Jogou um game ruim e viu o croata viver seu melhor momento na partida, vencendo cinco games consecutivos. A chave de tudo foram os dois break-points que o croata deixou escapar no início do quinto set. Federer estava um tanto encurralado com as bolas profundas. Reagiu na hora certa e iniciou a arrancada derradeira para o título. O 96º. Contagem regressiva para a marca centenária. Wimbledon? Quem sabe. Esse homem tem o irritante hábito de reescrever a história.

Há uma certa expectativa agora para saber se Federer ousará pedir um convite para jogar o ATP 500 de Dubai, onde até o vice lhe daria os 300 pontos necessários para recuperar o número 1 do ranking (ou o título, para não depender de Rafa). Ainda que a liderança não seja sua maior ambição do momento, é uma chance e tanto para simplesmente ignorar. Ou então resta ficar à espera que Rafa Nadal não vá a Acapulco ou perca rapidamente lá.

Por falar em ponta, Cilic deixou escapar na entrevista de despedida que sonha com isso. Pode não ser muito realista, mas gostei de ver ambição nos seus olhos.

Gigantes
Por José Nilton Dalcim
27 de janeiro de 2018 às 19:18

Carol Wozniacki e Simona Halep mostraram neste sábado em Melbourne porque o tênis é um esporte tão admirável. Esqueceram o nervosismo e se concentraram em jogar o melhor que lhes cabia em busca de um sonho. Deram um espetáculo de quase três horas, onde cada uma dividiu chances e lances de tirar o fôlego. Lutaram por cada ponto como se espera de dignas campeãs.

Infelizmente, apenas uma poderia sair com o troféu tão desejado e Wozniacki, que era quase uma carta fora do baralho nos últimos seis anos, enfim encerrou um longo pesadelo de cobranças e desconfianças. Contratou técnicos renomados, jamais se acomodou com seu destino. Quando virou aquele jogo perdido de segunda rodada, perdendo de 1/5 no terceiro set e encarando match-point, ganhou a motivação que faltava para o grande salto.

Só há exemplos positivos a se tirar desta histórica final feminina da Austrália.

De um lado, Carol e sua resiliência. Criou coragem para assumir uma postura menos defensiva, deixou de ser uma passadora de bola maratonista para buscar um jogo mais moderno, que lhe rendesse pontos mais rápidos no saque ou nos golpes de base. Procurou um novo destino e mostrou que tanto esforço vale mesmo a pena.

Do outro, Halep colocou todo o coração em quadra. Machucada desde a estreia, teria uma desculpa pronta para uma eliminação precoce. Decidiu lutar. Fez partidas duríssimas, salvou match-points. Chegou à decisão com clara desvantagem física e adotou outra postura tática. Partiu para o risco, ousadia que lhe faltou nas duas chances de Roland Garros, e não se entregou até a última bola.

É bem provável, e seria muito justo, que Halep tenha o mesmo destino de Wozniacki e, em algum momento, realize o sonho e levante seu troféu de Grand Slam. O tênis feminino saiu muito valorizado destas duas semanas de intensas batalhas e extrema vontade de vencer.

Tomara que a final de sábado motive Roger Federer e Marin Cilic a jogar com semelhante entrega. Claro que há uma diferença sintomática: existe um grande favorito, inclusive do público. Desde Wimbledon de 2003, quando explodiu para o tênis, o suíço jogou 56 torneios de Grand Slam e somou nesse trajeto 19 títulos, 30 finais e 43 semis. É o currículo mais invejável da história do tênis e provavelmente jamais se repetirá.

Ainda assim, não existe jogo vencido na véspera e Cilic precisa acreditar nas suas chances, como fez na semi do US Open de 2014. Isso passa por um grande aproveitamento de primeiro saque, forçar devoluções, pegar bola na subida para não dar espaço ao adversário e arriscar paralelas dos dois lados. Um arsenal exigente, é claro, mas o croata tem experiência suficiente para isso.

Bolha inoportuna
Por José Nilton Dalcim
26 de janeiro de 2018 às 09:03

Toda a expectativa por um duelo de gerações e estilos na segunda semifinal do Australian Open foi por terra em apenas 64 minutos por culpa de uma bolha. Limitado no trabalho de pés que são seu ganha-pão, Heyon Chung sequer completou dois sets e colocou Roger Federer na condição mágica de ampliar a marca mais valiosa de qualquer currículo do tênis e atingir domingo seu 20º troféu no 200º Grand Slam realizado da Era Aberta, o que pode lhe dar impensáveis 10% de aproveitamento.

A se lamentar talvez apenas o fato de que Chung poderia ter completado o segundo set antes de dizer adeus, já que ele chegou a ter 15-30 e o placar era de 30-30 no nono game, quando ele inesperadamente decidiu desistir da partida. Mas a rigor havia muito pouco o que fazer. A bolha claramente tirava o ponto crucial de seu jogo que são a mobilidade e a cobertura total da quadra, o que era ainda mais importante diante de um adversário tão agressivo e de bolas geralmente muito profundas.

No pouco que tivemos de jogo para valer, vimos um Chung muito frágil com o saque na mão e com irritante teimosia em dirigir a bola para o forehand de Federer, ainda que muitas delas com acentuado topspin cruzado, que chegava a tirar totalmente o suíço de quadra. O atual campeão mostrou desde o início que o plano tático óbvio era atacar já na devolução. Acertou apenas 32% do primeiro saque no set inicial e por isso chegou a oferecer um break-point no segundo game, mas ganhou 62% dos pontos com o segundo serviço mesmo diante dos ralis.

Chung ainda lutou muito no game final desse set e saltou quatro set-points antes de enfim se render e pedir atendimento para a bolha, que já estava enfaixada mas provavelmente causava incômodo e dor. Ainda teve um serviço bem jogado antes de nova quebra, manteve outro depois e daí um tanto inesperado o abandono antes mesmo de completar o segundo set.

De qualquer forma, o coreano de apenas 21 anos e agora top 30 do ranking deixa Melbourne como o grande destaque deste início de temporada, com vitórias de peso sobre Alexander Zverev e Novak Djokovic e a sensação de que seu tênis ainda tem muito a lapidar, principalmente a partir do saque, o que afinal é sempre uma ótima notícia.

Aos 36 anos e 175 dias, Federer reencontrará Marin Cilic em sua 30ª final de Grand Slam, na busca pelo terceiro troféu sem perder sets e o 96º geral da carreira. De suas incríveis 1.138 vitórias, nada menos que 710 vieram sobre a quadra dura, 331 em Slam e 93 no Australian Open. É agora o maior finalista do torneio na Era Profissional e o terceiro de maior idade. Se mantiver o favoritismo, repetirá Rod Laver e Ken Rosewall com quatro conquistas em Slam após os 30 anos.

Claro que Federer tem de ser considerado favorito para a decisão das 6h30 de domingo já que lidera o placar de duelos por 8 a 1. O croata no entanto merece todo o cuidado, já que possui boas armas na base, um saque sempre chato de se lidar e experiência de um título e uma final de Slam. Conhece muito bem todo o arsenal do suíço – treinaram juntos na pré-temporada – e vai explorar ao máximo o backhand de Federer, ainda que o slice venenoso seja um tormento. Tomara que desta vez a bolha, sempre ela, não atrapalhe o espetáculo, como aconteceu sete meses atrás, em Wimbledon.

O sábado em Melbourne terá a tão esperada final entre as duas melhores do mundo da atualidade, que lutam contra seus fantasmas em busca do primeiro troféu de Grand Slam e a liderança do ranking. Carol Wozniacki carrega o favoritismo, não apenas pelos 4 a 2 dos duelos anteriores, incluindo os três mais recentes e dois de 2017, mas também porque parece fisicamente mais inteira do que Simona Halep. A romena não derrota o tênis paciente e agora mais agressivo da dinamarquesa desde fevereiro de 2015. As duas já salvaram match-points em Melbourne no mais autêntico estilo guerreiro. Imperdível.

Daqui a pouco, entra no ar o Desafio Australian Open para quem quiser votar nos dois campeões.