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Zebras galopam em Wimbledon
Por José Nilton Dalcim
5 de julho de 2018 às 20:00

A máxima de que cada dia é um dia no tênis não poderia ser mais perfeita, e dura, para Marin Cilic. De uma atuação firme e tranquila na quarta-feira para o desastre absoluto na quinta, o atual vice de Wimbledon – e também da Austrália, e campeão de Queen’s… – disse um melancólico adeus ainda na segunda rodada diante do especialista em saibro Guido Pella.

Na verdade, a parada provocada pela chuva na véspera já havia surtido seu primeiro efeito ontem mesmo. Nos 10 minutos em que ainda tentaram jogar na retomada, Pella quebrou o saque de Cilic e se manteve vivo naquele terceiro set. Hoje era outro. Jogou solto, bateu na bola e usou muito bem seu saque de canhoto. Um gentleman, Cilic não culpou a chuva, a quadra, o adversário. Disse que não voltou no mesmo ritmo e que a vida continua.

A queda da campeã Garbine Muguruza não foi menos surpreendente. Apesar do primeiro set estranho, em que saiu perdendo de 2/4, a espanhola reagiu e ainda saiu com quebra na outra série. Parecia tudo nos eixos. Qual nada. Perderia cinco de seus sete games de serviços seguintes, mostrando enorme irregularidade e por vezes insegurança com o jogo de rede.

O mais incrível é que Alison van Uytvanck não vencia dois jogos consecutivos desde fevereiro e sequer tem treinador. “Estava muito nervosa quando saquei para fechar o jogo”. Ela acredita agora que poderá ir longe. Muito longe.

Muguruza ao menos não precisa ficar tão triste. Nos 50 anos de tênis profissional em Wimbledon, apenas cinco vezes a campeã conseguiu defender seu título.

Nadal e Djokovic: sob controle
Foram duas vitórias em sets diretos, mas desta vez Rafa Nadal precisou se esforçar mais. O saque não funcionou tão bem, perdeu dois games de serviço e levou um susto no primeiro set. Como sempre, achou alternativas táticas – desta vez, o saque no corpo e o uso mais constante de slices – e jogará contra o garoto Alex de Minaur no sábado. A vitória bastará para manter a liderança do ranking.

Novak Djokovic teve tarefa bem mais simples diante do canhoto Horacio Zeballos, que não soube como tirar a bola da cintura do sérvio. A consequência foi uma surra. A preocupação: Nole pediu assistência para uma dor no joelho, que ele garante não ser nada grave. Tomara. Agora, vai encarar Kyle Edmund, que acabou de vencê-lo no saibro veloz de Madri e terá um estádio inteiro a empurrá-lo.

O britânico no entanto tem minúscula intimidade com a grama, já colocou toda a responsabilidade no sérvio e mostrou sua maior preocupação para o sábado: que não seja junto com a partida da Inglaterra na Copa.

Os Aussies estão chegando
Dos oito australianos que chegaram à segunda rodada, cinco avançaram. Claro que todo mundo pensa logo em Nick Kyrgios, mas há quem coloque Ash Barty, campeã juvenil de 2011, entre as candidatas ao título, entre elas Kim Cliijsters.

Os outros são Alex de Minaur, Daria Gavrilova e Matt Ebden. Kyrgios acredita piamente que De Minaur exigirá bastante de Nadal. “Não sei se Rafa vai gostar de receber tanta bola de volta. Claro que é uma tarefa difícil, mas Alex pode causar desconforto”.

Cenas do quarto dia
– Cena curiosa no jogo de Kyrgios. O árbitro James Keothavong desceu da cadeira e demonstrou para o australiano como ele estava cometendo foot-fault.
– A campeã defensora não perdia tão cedo em Wimbledon desde a queda de Steffi Graf em 1994.
– O saque de 150 milhas por hora de Monfils – 241,3 km/h, que seria novo recorde do torneio – foi anulado. Houve erro na medição.
– Pior ainda foi a nota que saiu no New York Times, afirmando que Raonic havia sacado a 250 milhas por hora!
– Del Potro encerrou sua vitória quase impecável sobre Feli López com apenas 5 erros não forçados no total dos três sets, admirável para um jogador que arrisca muito. Ele quer cautela: “A primeira meta é chegar na segunda semana”. Só falta tirar Paire.
– Depois de eliminar Dimitrov, Wawrinka caiu para o quali Fabbiano, tendo desperdiçado quatro set-points tanto no primeiro como no terceiro sets. Conclusão: começará o segundo semestre quase fora do top 200.

Chave deixa Wimbledon interessante
Por José Nilton Dalcim
29 de junho de 2018 às 17:38

Não houve desta vez um claro prejudicado, nem um evidente beneficiado no sorteio da chave masculina e isso é uma ótima notícia. Porque deixa Wimbledon bem interessante antes mesmo de sua largada, na segunda-feira. Roger Federer talvez tenha uma sequência mais exigente, porém o outro lado ficou com três campeões de Wimbledon e quatro de Grand Slam além de quatro nomes fortes da nova geração.

Federer tem dois croatas problemáticos em seu caminho, principalmente depois que Borna Coric jogou tão bem em Halle e lhe tirou o título numa grama que é claramente mais veloz que a de Wimbledon. O suíço começa diante do jogo certinho mas sem riscos de Dusan Lajovic e provavelmente terá de se adaptar depois à agressividade de Lukas Lacko, que tem estilo um tanto parecido com Leo Mayer, o terceiro possível adversário do octacampeão. É bom lembrar que Mayer acabou de vencer Kevin Anderson em Queen’s.

Se a lógica prevalecer, Coric será seu adversário de oitavas. Acho bem mais difícil o garoto croata ‘aprontar’ em melhor de cinco sets, mas certamente jogará com grande confiança e pouco a perder. O caminho de Federer poderá cruzar então com um especialista de grama, seja Anderson-Philipp Kohlschreiber ou Sam Querrey-Richard Gasquet. Acho Anderson e Querrey bem perigosos, porque são grandes sacadores, espertos voleadores e possuem jogo pesado de base.

Marin Cilic precisa ser considerado favorito no seu quadrante, ainda que Milas Raonic esteja na trajetória das oitavas, Grigor Dimitrov ou John Isner nas quartas. Não se sabe a real condição física do canadense, Dimitrov vive um momento de incrível instabilidade e Isner é eterna incógnita nos Slam. No meio deles aparece Stefanos Tsitsipas, que ganhou condição de cabeça de última hora. Difícil dizer o quanto o jovem grego pode render num Slam, mas pegou um setor bem favorável a surpresas.

O outro lado da chave ficou com os outros três campeões de Wimbledon em atividade, mas Andy Murray é quase um ‘zebrão’. Se passar por Benoit Paire, teria Denis Shapovalov e depois Juan Martin del Potro. Tem ar de missão impossível. Esse setor aliás é onde está Rafa Nadal. O espanhol se livrou de especialistas na grama nas rodadas iniciais, tendo Dudi Sela, Pospisil-Kukushkin e quem sabe Marco Cecchinato antes de chegar a Diego Schwartzman ou Fabio Fognini. Já dá para aguardar com admissível ansiedade o duelo entre Nadal e Delpo nas quartas.

E por que não sonhar com o reencontro entre Nadal e Novak Djokovic em Wimbledon, onde só se enfrentaram duas vezes, em 2007 e 2011? O sérvio jogou bem em Queen’s, ainda que um tanto conservador, porém a grama mais lenta do Club permite muito bem tentar se virar lá da base quase o tempo inteiro. Mas Nole precisa tomar cuidado com Tennys Sandgren na estreia e especialmente Kyle Edmund numa eventual terceira partida. Vejo menor risco contra Dominic Thiem ou Fernando Verdasco. As quartas por fim viriam diante de Alexander Zverev ou Nick Kyrgios, dois ótimos tenistas sobre a grama porém pouco confiáveis num estágio tão avançado de um Slam.

Feminino
Simona Halep, que progride ano após ano na grama londrina, viu um sorteio cruel. Já nas oitavas, pode ter a local Johanna Konta; depois a bicampeã Petra Kvitova ou quem sabe Maria Sharapova. Se não bastasse, Garbiñe Muguruza ainda ficou do seu lado da chave. A atual vencedora também tem perigos à frente, como Angelique Kerber.

Com tudo isso, o lado inferior da chave ficou um tanto sem graça. A rigor, Caroline Wozniacki tem caminho livre, ainda que possa cruzar com o saque de Coco Vandeweghe. Seria interessante mesmo se a amiga Serena Williams embalasse e chegasse até as quartas. A heptacampeã tem como maiores rivais Elina Svitolina e Madison Keys, e só mesmo sua falta de ritmo e de confiança podem atrapalhar. A outra vaga da semi vislumbra briga entre Karolina Pliskova e Sloane Stephens, mas não dá para tirar Venus Williams das cotadas.

Sortudos
Wimbledon nem começou e já entraram cinco ‘lucky-losers’: Hurkacz, Mmoh, Polansky, Sonego, Tomic. Destaques para Tomic, que fez quartas em 2011 e um dia foi top 20, e para Polansky, que conseguiu a proeza de ser ‘lucky’ nos três Slam da temporada. Vale lembrar que Roland Garros teve o recorde de oito ‘LL’ neste ano.

Grandes jogos
A primeira rodada de Wimbledon marca jogos bem interessantes: Monfils-Gasquet, Dimitrov-Wawrinka, Thiem-Baghdatis, Murray-Paire, Medvedev-Coric, Kerber-Zvonareva, Bencic-Garcia, Giorgi-Sevastova.

Tradicional, mas nem tanto
Por José Nilton Dalcim
27 de junho de 2018 às 18:51

Quem disse que Wimbledon não quebra tradições? Pela primeira vez na história do tênis, acontecerá nesta edição a reordenação radical de cabeças de chave do feminino. Como já era esperado, o All England Club elevou a condição de Serena Williams, que ocupa o 183º posto do ranking, e lhe deu gabarito de 25ª cabeça. Dessa forma, a heptacampeã só irá cruzar com alguma das oito primeiras na terceira rodada.

Embora esteja previsto no regulamento dos Grand Slam, raramente se usou a prerrogativa que esses torneios possuem de alterar a ordem do ranking para estabelecer cabeças de chave no feminino. Isso tem acontecido constantemente em Wimbledon para os homens. Desde 2001, eles têm até o ‘ranking da grama’, uma fórmula matemática adotada para verificar quem é bom no piso e jamais formatada para as mulheres. Em 2011, como me lembra Mário Sérgio Cruz, Serena era 25ª do ranking e entrou como cabeça 7, porém ela figurava na faixa das 32 cabeças, algo bem diferente da situação de momento.

Já se fala que o US Open utilizará essa mesma norma em favor de Serena, se necessário até lá. Acho muito justo. É bom lembrar que o ‘ranking protegido’, que é o direito de um tenista impossibilitado de atuar ‘congelar’ a média de seu ranking pós-contusão, só pode ser utilizado para a inscrição em torneios, mas jamais como critério de cabeça de chave.

A lista oficial dos cabeças masculinos ratificou a ascensão de Marin Cilic de 5 para 3, o que faz uma boa diferença, e ajudará especialmente Novak Djokovic, cabeça 12 e portanto livre de cruzar com Federer, Nadal, Cilic ou Zverev antes das quartas. Outro beneficiado é Milos Raonic, que saltou de 32 para 13, mas reside alguma dúvida se o canandense irá mesmo jogar.

O sorteio das chaves está marcado para as 6h (de Brasília) desta sexta-feira.

Semeando o tênis
O conceito de ‘cabeça de chave’ foi criado quando não existia ranking. Assim, indicava antes de tudo a probabilidade de um tenista ganhar o torneio. Por consequência, o cabeça 1 era tido como o maior favorito e é com idêntico conceito que Wimbledon teimou em não seguir necessariamente o ranking internacional, surgido em agosto de 1973.

Curiosamente, no entanto, a iniciativa de criar ‘seeds’ veio com os norte-americanos. O Nacional dos EUA, hoje US Open, adotou ‘cabeças’ em 1922, dois anos antes de Wimbledon. Em 2001, o Slam britânico aumentou a quantidade de cabeças de 16 para 32, seguindo sugestão também do US Open.

Claro que a intenção ao se estabelecer ‘cabeças’ é afastar os principais favoritos entre si na formação da chave, de forma que eles só se cruzem em rodadas mais adiantadas. Os oito primeiros cabeças não farão duelo antes das quartas de final, por exemplo.

Até 2000, um comitê do All England Club decidia quem eram os ‘cabeças’, ou seja, aqueles que tinham as maiores chances de conquista. Um acordo em 2001 criou o ‘ranking da grama’, um sistema matemático que permite ao comitê reordenar os 32 cabeças eleitos pelo ranking da ATP.

O tênis foi o primeiro esporte a inserir o conceito de ‘cabeça’, que se espalhou até mesmo para o futebol, como é o caso da Copa do Mundo em andamento.

E afinal o que é ‘seed’, o termo original em Inglês para os cabeças de chave?

O significado da palavra é ‘semente’, porque os nomes mais destacados seriam ‘plantados’ na chave de forma fixa  – o sorteio da posição dos cabeças é algo bem recente -, seguindo a sugestão de um jardim em que plantas menores ficam à frente e as maiores, atrás. Atualmente, o termo ‘seed’ com seu conceito esportivo integra o Dicionário da Oxford.

Timeline
Para quem gosta de história, vale dar uma olhada nas informações e ilustrações desta linha do tempo de Wimbledon: https://twile.com/timeline/wimbledon