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Djokovic dá molho a Indian Wells
Por José Nilton Dalcim
6 de março de 2018 às 23:30

A jogada tem certa dose de ousadia, mas a inesperada volta de Novak Djokovic ao circuito não poderia vir em melhor hora para salvar o sempre gostoso Masters de Indian Wells de dias enfadonhos. Cinco vezes campeão no deserto californiano, não há como desrespeitar seu nome na chave.

O retorno, cerca de 45 dias depois da queda chorosa na Austrália, ratifica o que se imaginava: a cirurgia feita logo depois para remover um fragmento no punho direito – ele seria o motivo para o cotovelo ainda apresentar dor – foi mesmo pequena. Djoko já havia assinalado nas mídias sociais que a volta ‘estava perto’. Treinou em Las Vegas ao lado de Andre Agassi e enfim anunciou nesta terça-feira que está em condições de competir. Grande notícia.

Nole, claro, poderia ter tido mais sorte na formação da chave. Kei Nishikori na segunda partida, Juan Martin del Potro nas oitavas e Marin Cilic nas quartas é um quadro dos mais exigentes. Certamente, torcerá por alguma zebra, como David Ferrer diante de Delpo ou John Isner diante de Cilic, porém a chance de isso acontecer é diminuta.

Mas, se conseguir tamanha façanha em seu retorno, a vaga na final fica bem provável, já que o terceiro quadrante é uma tristeza, reunindo Jack Sock, Sam Querrey, Milos Raonic e até Alexander Zverev em fase desanimadora. Lucas Pouille pode aproveitar, mas não seria um adversário tão temido assim para o sérvio.

Com necessidade de vencer quatro partidas para atingir a semifinal e manter a liderança do ranking, Roger Federer não tem do que reclamar. Estreia já na segunda rodada contra Ryan Harrison ou Federico Delbonis, deve então cruzar com o ascendente Filip Krajinovic e então duelar com Fabio Fognini ou Adrian Mannarino. Não é uma caminhada preocupante.

As eventuais quartas também não tiram o sono, seja os veteranos Tomas Berdych ou Pablo Cuevas ou os novatos Dominic Thiem ou Heyon Chung. No meio desse quadrante está Denis Shapovalov, mas ele teria de fazer muito estrago num piso não tão veloz para ter a honra de desafiar o pentacampeão.

O outro quadrante da parte superior é bem indefinido. Na teoria, favorece Grigor Dimitrov, mas o búlgaro não anda confiável com suas costas e tem Andrey Rublev já na segunda partida. Se ganhar confiança, vira forte candidato à semi, ainda que Kevin Anderson esteja em melhor momento. Nick Kyrgios é completo mistério.

A chave feminina também reserva duas voltas de peso: Serena Williams e Vika Azarenka. Não se sabe o que esperar das duas mamães. Serena fez exibição em Nova York na segunda à noite e mostrou péssima mobilidade. Talvez nem consiga chegar ao duelo com a irmã Venus na terceira rodada.

Azarenka por sua vez conseguirá competir porque o torneio acontece na Califórnia, de onde a justiça a impede de sair por conta da batalha pela custódia do filho. Não menos curioso é o fato de Maria Sharapova também não será cabeça no torneio, mas obviamente está em ritmo de competição muito superior a Serena e Vika.

Indian Wells promete emoções e choradeira.

Ah, e Bia Haddad é o nome brasileiro no torneio. Enfrentará logo de cara Monica Puig, que não anda aquelas coisas – está 24 posições atrás da brasileira , mas é uma tenista que gosta da quadra dura. Não há grande nomes no caminho da canhota paulista, ainda que Anastasija Sevastova e Julia Goerges sejam barreiras difíceis.

Rumo ao 46º
Por José Nilton Dalcim
20 de janeiro de 2018 às 13:25

Metade do caminho para o esperado reencontro entre Roger Federer e Novak Djokovic está cumprido. Enquanto o suíço ainda não brilhou na sua defesa do título, embora não tenha sequer perdido sets, o recuperado sérvio mostra evolução evidente a cada partida no Melbourne Park. Ainda faltam, é verdade, duas rodadas para o 46º duelo entre eles e existe adversário nada desprezível na trajetória de cada um. Ótimo.

Com um tênis muito sólido no fundo de quadra e espertas 24 subidas à rede, que lhe renderam 18 pontos, Djokovic teve uma exibição muito animadora diante do canhoto Albert Ramos em que tudo funcionou a contento, incluindo o saque. O contra-ataque, as trocas de direção e a firmeza nas paralelas lembraram os grandes momentos de Nole.

O sérvio minimizou as consequências do pedido médico após o terceiro game do segundo set e afirmou que se tratava apenas de relaxar os músculos, fruto da longa inatividade de seis meses. “Estou sendo muito cauteloso”, afirmou ele, que efetivamente não pareceu limitado por dor ou desconforto depois do atendimento.

Apesar da vitória em três sets em que jamais correu qualquer risco diante de Richard Gasquet, é verdade que Federer exagerou nos erros, principalmente de backhand (14, contra 11 de forehand). O percentual de acerto de saque flutuou e terminou em 65%, com 80% de eficiência.

O próprio Federer admitiu que poderia ter resolvido mais facilmente a partida, em que afinal anotou 12 aces e mais 30 winners. Ele encara agora o pouco conhecido Marton Fucsovics, húngaro que é 80º do mundo e com pouco currículo, mas o suíço conta já ter treinado com o rapaz e conhece suas qualidades no jogo de base.

O inesperado adversário de Nole será o coreano Hyeon Chung, de 21 anos, que outra vez se mostrou mais firme e melhor controlado do que Alexander Zverev. O alemão continua sua sina nos Grand Slam, com 14 vitórias e 11 derrotas, e nos quinto sets, com cinco frustrações em oito tentativas. Aliás, seu desempenho no quinto set contra Chung foi bisonho, ainda mais porque ele mesmo admite que não tinha qualquer dificuldade física: 38% de primeiro saque e só um ponto vencido. Aliás, ganhou apenas cinco lances ao longo do doloroso ‘pneu’. Lamentável.

Ainda mais impressionante foi a forma com que Tomas Berdych atropelou Juan Martin del Potro: 52 winners, 20 deles somente no segundo set. Mais interessante ainda, o tcheco se mexeu muito bem e fez bons lances junto à rede. Tem um desafio completamente diferente nas oitavas diante do toque refinado e variado de Fabio Fognini, mas me parece o candidato natural ao duelo contra Federer nas quartas.

O último duelo de oitavas será entre o austríaco Dominic Thiem e o norte-americano Tennys Sandgren, a ‘zebra’ da chave masculina. Thiem fez de longe seu melhor jogo da temporada, firme contra o canhoto Adrian Mannarino. Desta vez suas bolas de risco estavam calibradas, a ponto de ganhar 42% de seus 103 pontos através de winners. Pode enfim fazer quartas de um Slam fora do saibro.

A frustração da rodada coube a Maria Sharapova, completamente dominada por Angelique Kerber. A russa me pareceu perdida na parte tática o tempo todo. O saque oscilou, faltou confiança e as tentativas de ir à rede foram suicidas. Bem menos ansiosa, Kerber virou favorita para ir à semifinal no seu quadrante e, ao se ver a instabilidade de Simona Halep, talvez até mesmo à final. Mas é preciso cuidado com Karolina Pliskova, que continua soltando o braço.

Desumano
Por José Nilton Dalcim
18 de janeiro de 2018 às 11:45

O Australian Open decidiu colocar à prova a resistência e a paciência dos tenistas. Obrigados a entrar em quadra com 39 graus e 10% de umidade, a rodada desta quinta-feira foi quase desumana. Mesmo a fase noturna começou com 34 graus, embora claro protegida do sol. O pior é que gigantesco desgaste tão cedo na chave pode causar estragos irreparáveis lá na frente.

Novak Djokovic admitiu que estava “no limite” de suas condições físicas e mentais no meio de uma tarde infernal. E disparou críticas à organização, afirmando que o tênis virou mais um negócio. “Precisamos ter uma conversa racional sobre as regras e talvez impor coisas importantes”, disparou. Antes do torneio, ele já havia reclamado da premiação dada aos tenistas nos Grand Slam.

Na quadra, o jogo contra Gael Monfils foi sofrível. Os dois jogaram um primeiro set ruim, forrado de erros bobos, e Monfils cansou primeiro diante das condições extremas. “Foi um desafio para nós dois terminar a partida”, enfatizou Nole, que pouco a pouco impôs sua qualidade na precisão das trocas de fundo.

O hexacampeão admitiu que o cotovelo direito não está 100%, o que ficou evidente com as 11 duplas faltas cometidas. No sábado, vai encarar o consistente canhoto Albert Ramos, que não dá bolas de graça como Monfils mas perdeu todos os 10 sets disputados contra Nole.

O ponto mais frágil de Roger Federer foi o aproveitamento de primeiro saque: 56%, apesar dos 17 aces. Não é um índice relevante, mas ele se virou muito bem com o segundo, mesclando efeitos e direções, e com isso perdeu apenas 13 desses pontos. O alemão Jan-Lennard Struff não é ruim num piso tão veloz. Saca firme, vai para cima. Federer inteligentemente usou a devolução com slices muito baixos, porém ainda assim só conseguiu uma quebra em cada set. O suíço perdeu um serviço sem sentido e quase entregou o terceiro set. O próximo adversário é Richard Gasquet, um velho conhecido, que ganhou duas vezes no saibro e perdeu as últimas 11.

O atual campeão ainda pode comemorar a saída precoce de David Goffin, que levou virada do veterano Julien Benneteau, o que deixa Juan Martin del Potro com maior potencial de ser seu adversário de quartas. O argentino saiu morto de quadra e encara Tomas Berdych. Vi os dois jogos do tcheco e fiquei impressionado com o rapaz. Cuidado com ele.

A se lamentar a volta das dores no joelho operado de Stan Wawrinka, totalmente dominado por Tennys Sandgren. Quem parece perdido neste começo de temporada é Sam Querrey, muito abaixo de um padrão top 20. Dominic Thiem venceu num tremendo esforço e corre risco diante do canhoto Adrian Mannarino.

Os problemas físicos também vitimaram Garbiñe Muguruza, ainda que a queda para Su-Wei Hsieh tenha sido mais precoce do que o esperado. Aliás, Johanna Konta, Anastasija Sevastova e Elena Vesnina também se despediram. Excelente atuação de Maria Sharapova e o cruzamento com Angelique Kerber deve ser o ponto alto de toda a terceira rodada feminina. Simona Halep não sentiu a torção e atropelou Eugenie Bouchard.

Bia Haddad não se achou na quadra tão veloz. Karolina Pliskova impôs um ritmo alucinante e o erro da brasileira talvez tenha sido tentar jogar de igual para igual com a tcheca, o que apressou demais os erros e a partida de apenas 44 minutos. Mas, convenhamos, o peso da bola da ex-número 1 é grande para se tentar variações e foram raras as vezes em que Bia conseguiu encaixar uma paralela. O fato é que a canhota paulista ainda está distante do grupo de elite do tênis feminino. Tenhamos paciência.