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Nadal usa sabedoria
Por José Nilton Dalcim
13 de junho de 2018 às 18:38

Com apenas uma semana de prazo para descansar e tentar a adaptação para a grama, disputar o torneio de Queen’s não parecia mesmo a atitude mais saudável para Rafael Nadal. O número 1 do mundo mais uma vez agiu com sabedoria – como no caso das desistências de Indian Wells e Miami – e anunciou nesta quarta-feira que não fará loucuras.

Embora não tenha sido explícito, é bem provável que a desistência tenha relação com o problema no punho esquerdo que o espanhol demonstrou na final de Roland Garros – e que já vinha enfaixado duas partidas antes. A frase usada por Rafa no comunicado foi sintomática: “Preciso escutar o que meu corpo está falando”.

E jogar na grama é um autêntico desafio ao corpo, principalmente nos tempos de hoje. O piso exige antes de tudo que se jogue mais abaixado, o que é terrível para joelhos problemáticos. Depois, o quique irregular e por vezes imprevisto da bola afetam demais punho e cotovelo, já que é muito comum o contato se dar fora do ponto ideal das cordas da raquete. Imagine então a quantidade de vibração que o braço aguenta nas devoluções de um saque a 200 km por hora.

Para os tenistas que batem mais vezes na bola, como Nadal, Novak Djokovic ou Dominic Thiem, a chance de dores nas articulações são bem maiores ao fim do dia. Quem tenta encurtar pontos e preferencialmente ir à rede, corre menor risco.

Enferrujado
A retomada do número 1 para Roger Federer agora independe de Nadal. A curto prazo, o suíço precisa ao menos da final em Stuttgart para tirar os 100 pontos de desvantagem (ficaria 50 à frente) ou do título (150). Rafa está fora de Queen’s e sem chance de marcar pontos, mas isso ainda obriga o suíço a defender o troféu de Halle na semana seguinte, já que o vice soma 200 a menos.

E Federer quase repete o desastre de 2017 em Stuttgart, quando parou diante de Tommy Haas. Desta vez, Mischa Zverev foi uma ameaça real, num jogo um tanto estranho. Como se esperava, o canhoto alemão não deu qualquer ritmo ao suíço, mas Federer teve quatro break-points em games distintos antes de ser quebrado e perder pela primeira vez em seis jogos um set para Mischa.

Aí quase deixou escapar também o primeiro serviço do segundo set. Por fim, a devolução evoluiu, saltou a 4/2, mas não sustentou a vantagem. Altos e baixos tremendos. O terceiro set foi um pouco mais tranquilo, ainda que tenha evitado um break-point quando tinha 4/2.

Federer reconheceu que não mexeu bem as pernas no primeiro set e que ficar três meses afastado do circuito beira o exagero. “É mais tempo do que as férias de fim de ano”, observou. Para sua sorte, Denis Shapovalov saiu inesperadamente do caminho e o próximo adversário será o desconhecido indiano Prajnesh Gunneswaran ou o canhoto Guido Pella.

Mais desistências
Rafa foi seguido por Maria Sharapova. A campeã de Wimbledon de 2004 anunciou desistência do torneio preparatório de Birmingham, alegando necessidade de descanso após as quartas de final de Roland Garros.

Bem mais curiosa foi a atitude de Stan Wawrinka, que abriu mão de disputar Bastad e Gstaad, os ATPs de saibro que acontecem depois de Wimbledon. Agora 263º do ranking, diz estar seguindo orientação médica, ou seja, aquela preocupação com o impacto do saibro sobre a estabilidade do joelho. Stan por enquanto manteve inscrição para Queen’s e Wimbledon, apesar de nunca ter obtido sucesso na grama.

Backhands simples na semi
Por José Nilton Dalcim
5 de junho de 2018 às 19:16

O tênis é um esporte incrível mesmo. Quantas reviravoltas numa única partida, que tensão. Como esses malucos conseguem jogar com qualidade diante de tamanha pressão?

Novak Djokovic poderia ter vencido por 3 sets a 1, e de maneira até tranquila. Depois de um começo instável e pedidos médicos, teve dois set-points para fazer 7/5, que possivelmente seria seguido pelo fácil placar de 6/1 do terceiro set e o domínio com 5/3 e 30-0 do quarto.

Nada disso. Marco Cecchinato bateu muito na bola, mexeu-se incrivelmente bem, sacou firme nas horas necessárias e teve um sangue frio que não combina com seu 72º lugar do ranking. Salvou aqueles set-points, virou o primeiro tiebreak em que perdia por 3-4 e saque de Nole através de jogadas notáveis. Tinha então 2 sets a 0. Impensável.

É bem verdade que perdeu a intensidade, deixou de ser agressivo e de repente Djokovic estava na sua jugular, pronto para levar ao quinto set. Talvez Cecchinato não saiba direito como escapou do 30-0 (na verdade, Djoko é quem jogou de forma precipitada) mas assim que a janela se abriu ele voltou com tudo.

O tiebreak foi épico. De 0-3 para 4-3, de novo Djokovic perdeu dois saques decisivos. Aí vieram pontos de grudar na cadeira e perder o fôlego. O 5-5 de dezenas de trocas, bolas beliscando a linha nos match-points, a inexplicável falha do sérvio ao ter set-point com forehand no meio da quadra. Ele tirou o olho da bola, desviou no piso ou o barulho da torcida atrapalhou? Sabe-se lá. O jogo terminou logo depois porque Nole não suportou a pressão e errou.

Cecchinato fará contra Dominic Thiem a primeira semifinal de Paris entre backhands de uma mão desde 1992, com Petr Korda e Henri Leconte. O italiano entrará como ‘zebra’ outra vez. E das grandes. Thiem nem precisou de todo seu empenho para superar o previsivelmente desgastado Alexander Zverev, que merece aplauso por ter ido até o fim com evidente falta de condições de ser competitivo. O austríaco não poderia sonhar com chance maior de enfim chegar à primeira final de Grand Slam, completamente confiante e descansado.

Revivendo o US Open
Serena Williams se foi, mas o tênis norte-americano já tem uma finalista: Sloane Stephens ou Madison Keys, que irão reviver na quinta-feira a decisão do US Open. Gostei de ver Keys paciente, usando mais spin e lutando muito para superar a ‘formiguinha’ Yulia Putintseva, bem diferente do passeio de Stephens em cima de uma descalibrada Daria Kasatkina.

Stephens ganhou os dois duelos sobre a amiga Keys, que jogou muito mal em Flushing Meadows e jura que desta vez o nervosismo não irá pesar. Com o retorno de Madison ao top 10, agora o tênis americano tem três nomes na faixa de elite do tênis feminino, já que Stephens só deixará escapar o sexto posto se Angelique Kerber for campeã (a outra é Venus, em nono).

A quarta-feira
– Nadal só perdeu um set em cinco duelos contra Schwartzman e venceu há poucas semanas em Madri, por 6/3 e 6/4.
– Se atingir a 11º semi, Rafa igualará os feitos de Federer e Connors, que também fizeram pelo menos 11 num mesmo Slam.
– Schwartzman tenta se tornar o 10º argentino a atingir a penúltima rodada de um Slam em todos os tempos.
– Cilic não vence Delpo desde 2011, nunca ganhou no saibro, leva 2-10 no histórico e perdeu as sete últimas. Muita desvantagem.
– Roland Garros é único Slam onde Cilic jamais fez semi. Vencedor do duelo será número 4 do ranking na segunda-feira.
– Halep tem de vencer Kerber para manter provisoriamente o número 1, que está com Wozniacki. Romena tem 5-4 no placar direto, porém a alemã venceu o único no saibro, em 2016.
– Muguruza e Sharapova fazem confronto de campeãs de Paris. A russa ganhou todos os três enfrentamentos, porém eles aconteceram antes de 2015 e portanto muita coisa rolou desde então.

Hermanos gigantes
Por José Nilton Dalcim
4 de junho de 2018 às 18:33

Dois dos 12 melhores tenistas do ranking, Juan Martin del Potro e Diego Schwartzman atingiram nesta segunda-feira as quartas de final de Roland Garros por caminhos bem opostos. Se Delpo ganhou o duelo de saques e devoluções diante de John Isner, num jogo bem menos apropriado ao saibro do que a uma quadra rápida, Diego conseguiu uma virada impressionante sobre outro grandalhão do circuito, Kevin Anderson.

As chances de os dois argentinos darem mais um passo é igualmente distinta. Delpo tem um histórico muito favorável diante de Marin Cilic, embora a maior parte do placar de 10 a 2 tenha sido construída até 2013. Ainda assim, o argentino ganhou os dois duelos mais recentes, incluindo a inesquecível virada na decisão da Copa Davis de 2016.

Há muito tempo Del Potro deixou de ser um típico jogador de saibro, mas ainda o vejo bem mais adaptado ao piso do que Cilic. Basta ver a dificuldade que o croata teve para superar o contundido Fabio Fognini. Não menos interessante é o fato de que a partida de quarta-feira entre os campeões de US Open valerá também o quarto lugar do ranking.

Schwartzman superou um adversário 35 centímetros mais alto, que teve o jogo nas mãos duas vezes, com 5/3 no terceiro set e 5/4 no outro. É bem verdade que Anderson falhou mentalmente, porém El Peque jamais desistiu e fez um brilhante quinto set para atingir as quartas de um Slam pela segunda vez. Está grudado no tão sonhado top 10. Porém, para atingir a façanha, terá de obter algo inimaginável, ou seja, ganhar as duas próximas rodadas.

Sim, porque a ‘mala suerte’ dos hermanos é estar no caminho de Rafa Nadal. É fácil recordar o esforço hercúleo que Diego fez no recente duelo de Madri contra o número 1, não conseguindo mais do que uma quebra de serviço e sete games. Aguentar essa pressão por três, quatro ou cinco sets parece não estar ao alcance de Schwartzman, por mais guerreiro que seja.

Nadal fez outra grande exibição em Roland Garros. Talvez a demora na adaptação a um adversário canhoto de golpes pesados explique seu começo instável, em que Maximilian Marterer teve uma bola de meio de quadra para ir a 3/1. Assim que calibrou seu forehand, o espanhol mostrou aquele volume assombroso.

É bem verdade que a intensidade caiu por uns instantes no terceiro set e o valente alemão voltou a lhe tirar o serviço e aí sim fazer 3/1. Rafa reagiu e Marterer mostrou não apenas competência técnica mas também controle emocional para empurrar a decisão ao tiebreak, onde por fim o canhoto espanhol colocou ordem na casa, fechando a vitória com 39 winners, 17 pontos junto à rede e quatro aces. Versatilidade a toda prova.

Um dia depois de festejar os 32 anos, Rafa também comemorou a 900ª vitória de primeira linha, a 234ª de Grand Slam (que o desgruda de Jimmy Connors) e a 12º presença nas quartas de Roland Garros. De quebra, já soma 37 sets consecutivos em Paris e está a quatro da marca incrível de Bjorn Borg, que pode cair após 37 anos. Motivações não faltam a Rafa, dia após dia. Pobre ‘hermanos’.

Frustração no feminino
Como foi estranho e desalentador o complemento da quarta rodada da chave feminina. Nos quatro duelos previstos, foram disputados 35 games e, somando-se tudo, houve apenas 2h26 de bola rolando, menos do que duraram os compromissos de Rafa ou de Delpo.

Garbiñe Muguruza jogou apenas 13 pontos antes de ver Lesia Tsurenko abandonar, Simona Halep e Angelique Kerber arrasaram Elise Mertens e Caroline Garcia. Até mesmo o complemento do jogo suspenso de domingo foi muito rápido, já que Daria Kasatkina acabou com o sonho de Carol Wozniacki em apenas mais três games.

Mas claro que a decepção absoluta foi a desistência de Serena Williams. Nem foi para a quadra, vitimada por dor muscular no peito e sem condições de sacar. Aliás, isso já havia ficado claro na dupla que disputou na véspera. Provavelmente, não teria feito diferença, mas jogar essa partida no domingo foi uma mancada.

Sem entrar em quadra, Maria Sharapova não pôde encerrar o jejum contra Serena, mas ganhou um dia de descanso para tentar o não menos difícil desafio de encarar Muguruza nas quartas de final.

Segundo levantamento de Felipe Priante, os oito jogos de quarta rodada feminina tiveram média de 59 minutos e apenas um passou de 90.

A terça-feira
– Zverev e Thiem são os tenistas com maior número de vitórias na temporada (34 a 33). O duelo direto indica 4-2 para Thiem, porém Zverev o venceu semanas atrás em Madri.
– Alemão somou 11 horas de quadra em seus 3 últimos jogos, Thiem não teve nenhuma partida mais longa do que 2h40.
– Se mantiver o favoritismo sobre Cecchinato, a quem nunca enfrentou, Djokovic somará 32 semis de Slam e se isolará no segundo lugar no quesito.
– Número 73 do ranking, italiano pode ser jogador de mais baixo ranking na penúltima rodada de Paris desde Medvedev, em 1999. Em caso de vitória, Cecchinato entrará no top 30.
– Kasatkina tem 1-1 frente Stephens, mas venceu em março em Indian Wells. Se for adiante, russa terá grande chance de enfim chegar ao top 10, a menos que Sharapova seja campeã.
– Keys enfrentou uma vez Putintseva, com vitória em 2016. Aos 23 anos mas sem títulos de WTA, russa joga como cazaque mas mora em Miami. Tenta pela segunda vez uma semi no saibro de Paris.