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Rumo ao 46º
Por José Nilton Dalcim
20 de janeiro de 2018 às 13:25

Metade do caminho para o esperado reencontro entre Roger Federer e Novak Djokovic está cumprido. Enquanto o suíço ainda não brilhou na sua defesa do título, embora não tenha sequer perdido sets, o recuperado sérvio mostra evolução evidente a cada partida no Melbourne Park. Ainda faltam, é verdade, duas rodadas para o 46º duelo entre eles e existe adversário nada desprezível na trajetória de cada um. Ótimo.

Com um tênis muito sólido no fundo de quadra e espertas 24 subidas à rede, que lhe renderam 18 pontos, Djokovic teve uma exibição muito animadora diante do canhoto Albert Ramos em que tudo funcionou a contento, incluindo o saque. O contra-ataque, as trocas de direção e a firmeza nas paralelas lembraram os grandes momentos de Nole.

O sérvio minimizou as consequências do pedido médico após o terceiro game do segundo set e afirmou que se tratava apenas de relaxar os músculos, fruto da longa inatividade de seis meses. “Estou sendo muito cauteloso”, afirmou ele, que efetivamente não pareceu limitado por dor ou desconforto depois do atendimento.

Apesar da vitória em três sets em que jamais correu qualquer risco diante de Richard Gasquet, é verdade que Federer exagerou nos erros, principalmente de backhand (14, contra 11 de forehand). O percentual de acerto de saque flutuou e terminou em 65%, com 80% de eficiência.

O próprio Federer admitiu que poderia ter resolvido mais facilmente a partida, em que afinal anotou 12 aces e mais 30 winners. Ele encara agora o pouco conhecido Marton Fucsovics, húngaro que é 80º do mundo e com pouco currículo, mas o suíço conta já ter treinado com o rapaz e conhece suas qualidades no jogo de base.

O inesperado adversário de Nole será o coreano Hyeon Chung, de 21 anos, que outra vez se mostrou mais firme e melhor controlado do que Alexander Zverev. O alemão continua sua sina nos Grand Slam, com 14 vitórias e 11 derrotas, e nos quinto sets, com cinco frustrações em oito tentativas. Aliás, seu desempenho no quinto set contra Chung foi bisonho, ainda mais porque ele mesmo admite que não tinha qualquer dificuldade física: 38% de primeiro saque e só um ponto vencido. Aliás, ganhou apenas cinco lances ao longo do doloroso ‘pneu’. Lamentável.

Ainda mais impressionante foi a forma com que Tomas Berdych atropelou Juan Martin del Potro: 52 winners, 20 deles somente no segundo set. Mais interessante ainda, o tcheco se mexeu muito bem e fez bons lances junto à rede. Tem um desafio completamente diferente nas oitavas diante do toque refinado e variado de Fabio Fognini, mas me parece o candidato natural ao duelo contra Federer nas quartas.

O último duelo de oitavas será entre o austríaco Dominic Thiem e o norte-americano Tennys Sandgren, a ‘zebra’ da chave masculina. Thiem fez de longe seu melhor jogo da temporada, firme contra o canhoto Adrian Mannarino. Desta vez suas bolas de risco estavam calibradas, a ponto de ganhar 42% de seus 103 pontos através de winners. Pode enfim fazer quartas de um Slam fora do saibro.

A frustração da rodada coube a Maria Sharapova, completamente dominada por Angelique Kerber. A russa me pareceu perdida na parte tática o tempo todo. O saque oscilou, faltou confiança e as tentativas de ir à rede foram suicidas. Bem menos ansiosa, Kerber virou favorita para ir à semifinal no seu quadrante e, ao se ver a instabilidade de Simona Halep, talvez até mesmo à final. Mas é preciso cuidado com Karolina Pliskova, que continua soltando o braço.

Desumano
Por José Nilton Dalcim
18 de janeiro de 2018 às 11:45

O Australian Open decidiu colocar à prova a resistência e a paciência dos tenistas. Obrigados a entrar em quadra com 39 graus e 10% de umidade, a rodada desta quinta-feira foi quase desumana. Mesmo a fase noturna começou com 34 graus, embora claro protegida do sol. O pior é que gigantesco desgaste tão cedo na chave pode causar estragos irreparáveis lá na frente.

Novak Djokovic admitiu que estava “no limite” de suas condições físicas e mentais no meio de uma tarde infernal. E disparou críticas à organização, afirmando que o tênis virou mais um negócio. “Precisamos ter uma conversa racional sobre as regras e talvez impor coisas importantes”, disparou. Antes do torneio, ele já havia reclamado da premiação dada aos tenistas nos Grand Slam.

Na quadra, o jogo contra Gael Monfils foi sofrível. Os dois jogaram um primeiro set ruim, forrado de erros bobos, e Monfils cansou primeiro diante das condições extremas. “Foi um desafio para nós dois terminar a partida”, enfatizou Nole, que pouco a pouco impôs sua qualidade na precisão das trocas de fundo.

O hexacampeão admitiu que o cotovelo direito não está 100%, o que ficou evidente com as 11 duplas faltas cometidas. No sábado, vai encarar o consistente canhoto Albert Ramos, que não dá bolas de graça como Monfils mas perdeu todos os 10 sets disputados contra Nole.

O ponto mais frágil de Roger Federer foi o aproveitamento de primeiro saque: 56%, apesar dos 17 aces. Não é um índice relevante, mas ele se virou muito bem com o segundo, mesclando efeitos e direções, e com isso perdeu apenas 13 desses pontos. O alemão Jan-Lennard Struff não é ruim num piso tão veloz. Saca firme, vai para cima. Federer inteligentemente usou a devolução com slices muito baixos, porém ainda assim só conseguiu uma quebra em cada set. O suíço perdeu um serviço sem sentido e quase entregou o terceiro set. O próximo adversário é Richard Gasquet, um velho conhecido, que ganhou duas vezes no saibro e perdeu as últimas 11.

O atual campeão ainda pode comemorar a saída precoce de David Goffin, que levou virada do veterano Julien Benneteau, o que deixa Juan Martin del Potro com maior potencial de ser seu adversário de quartas. O argentino saiu morto de quadra e encara Tomas Berdych. Vi os dois jogos do tcheco e fiquei impressionado com o rapaz. Cuidado com ele.

A se lamentar a volta das dores no joelho operado de Stan Wawrinka, totalmente dominado por Tennys Sandgren. Quem parece perdido neste começo de temporada é Sam Querrey, muito abaixo de um padrão top 20. Dominic Thiem venceu num tremendo esforço e corre risco diante do canhoto Adrian Mannarino.

Os problemas físicos também vitimaram Garbiñe Muguruza, ainda que a queda para Su-Wei Hsieh tenha sido mais precoce do que o esperado. Aliás, Johanna Konta, Anastasija Sevastova e Elena Vesnina também se despediram. Excelente atuação de Maria Sharapova e o cruzamento com Angelique Kerber deve ser o ponto alto de toda a terceira rodada feminina. Simona Halep não sentiu a torção e atropelou Eugenie Bouchard.

Bia Haddad não se achou na quadra tão veloz. Karolina Pliskova impôs um ritmo alucinante e o erro da brasileira talvez tenha sido tentar jogar de igual para igual com a tcheca, o que apressou demais os erros e a partida de apenas 44 minutos. Mas, convenhamos, o peso da bola da ex-número 1 é grande para se tentar variações e foram raras as vezes em que Bia conseguiu encaixar uma paralela. O fato é que a canhota paulista ainda está distante do grupo de elite do tênis feminino. Tenhamos paciência.

Bem vindos
Por José Nilton Dalcim
16 de janeiro de 2018 às 10:05

Jogadores de excepcional qualidade e multicampeões de Grand Slam, Novak Djokovic e Stan Wawrinka enfim voltaram a competir. E a vencer. Sem sustos. O que deixa perspectiva animadora para esse concorrido lado inferior da chave do Australian Open, que viu também as estreias de Roger Federer, Alexander Zverev, David Goffin e Juan Martin del Potro.

Afastado desde Wimbledon, o hexacampeão do Australian Open fez o que quis contra Donald Young, campeão juvenil do torneio que raramente justificou as apostas na sua carreira. Djokovic, no entanto, não precisava dar show mas apenas pegar ritmo e confiança. Foi exatamente o que tentou fazer. Terá idêntica oportunidade na segunda rodada diante do megafreguês Gael Monfils e muito provavelmente diante do canhoto Albert Ramos.

Mais surpreendente foi o retorno de Stan Wawrinka. Para quem colocou dúvidas na sua participação até o último minuto, o vencedor de 2014 mostrou um tênis sólido, ainda que Ricardas Berankis não seja lá um adversário tão perigoso. Gostoso ver Stan empenhado, sem preguiça e usando saque-voleio. Chegou a estar atrás 0/4 no quarto set e se animou em buscar o placar. Encara o pouco gabaritado Tennys Sandgren e pode reencontrar o canhoto Fernando Verdasco.

Mesmo tentando se livrar do favoritismo, Roger Federer foi à quadra para iniciar a defesa do título e fez um grande primeiro set. Depois, relaxou e tentou coisas mais ousadas diante de Aljaz Bedene. Ficou bem claro que o saque está afiado e que tentará ser mais agressivo nas devoluções. Raramente saiu de cima da linha. Pega agora o 55º do mundo Jan-Lennard Struff antes de eventual reencontro com Richard Gasquet. Como se esperava, Milos Raonic não se achou e já está fora do seu caminho.

Com a intenção de ser a novidade, Zverev e Goffin tiveram dificuldades parecidas. Me agradou mais a reação do belga, que perdeu o primeiro set mas manteve a frieza. Sacou cada vez melhor e pegou bolas na subida. Ambos enfrentam adversários bem agressivos na segunda rodada. Dominic Thiem não levou sustos e Juan Martin del Potro fechou o dia com exibição firme.

O feminino teve a queda de duas das 16 cabeças em quadras, com destaque para a saída de Petra Kvitova, mas o destaque veio no susto dado pela torção de tornozelo de Simona Halep, que ainda assim venceu em dois sets. A número 1 fará exames para saber se conseguirá seguir no torneio. Que pena. Ótimas atuações de Garbiñe Muguruza, Angelique Kerber e Maria Sharapova.

E Bia Haddad conseguiu controlar os nervos e fazer história. Não jogou seu melhor, fez um começo sofrível de partida mas por fim justificou sua ampla superioridade sobre a australiana Lizette Cabrera como já havia feito em Hobart.

Primeira brasileira a avançar uma rodada em Melbourne desde o vice-campeonato de Maria Esther Bueno em 1965 – claro que poucas se aventuraram por lá nesse longo período, ainda mais quando era grama -, Bia tem pela frente a experiente Karolina Pliskova, tenista que bate pesado mas se mexe mal. Quem sabe, venha um daqueles dias em que número 6 do mundo não esteja a fim de jogar.