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Delpo desafia de novo o Big 3
Por José Nilton Dalcim
7 de setembro de 2018 às 23:38

Pela segunda vez em sua complicadíssima trajetória no tênis profissional, Juan Martin del Potro decide um Grand Slam com uma meta muito difícil: barrar o Big 3 do tênis. A campanha de 2009 incluiu inesperadas vitórias sobre Rafael Nadal e Roger Federer. Caso queira repeti-la nove anos depois e quatro cirurgias depois, terá de repetir a façanha e superar Nadal e Novak Djokovic.

Pena que a batalha contra Rafa tenha tido apenas um set de verdade. O argentino tomou a liderança da partida entre a frustração de deixar escapar o saque no 5/4 e a postura dignamente ofensiva do tiebreak. Rafa ia atrás de todas as bolas, mas o fatídico joelho direito reclamou e ele capengou no segundo set até abandonar a quadra, repetindo cena do Australian Open de janeiro, então por culpa do quadril.

Em que pese a situação tão chata, é magnífico ver Delpo de novo lá no topo do tênis. Um eventual título no domingo o deixará até mesmo em condições de brigar pela liderança do ranking lá no finzinho da temporada, algo que imagino não ter cruzado sua cabeça ao longo do calvário. É sempre importante considerar que ele só começou a bater novamente o backhand com maior potência e constância há poucos meses, e ainda assim o golpe não é nem sombra do que foi.

Vencer Djokovic será mais uma daquelas tarefas impossíveis que Delpo se desafia a cumprir. O sérvio joga melhor a cada rodada, cheio de confiança e sem o fantasma da umidade a assombrá-lo. Dominou à perfeição Kei Nishikori do primeiro ao último game, com enorme volume de jogo, variações táticas e eficiência física. Não dá para chegar a sua quarta final nos últimos cinco torneios mais confiante. Desde a queda preocupante em Barcelona e Madri, ele venceu 33 de 37 partidas.

Os duelos entre Nole e Delpo começaram justamente em Nova York, lá na terceira rodada de 2007, quando ambos ainda estavam longe do estrelato, e já teve 18 capítulos. A superioridade de Nole é patente pelas 14 vitórias e por duas de suas derrotas terem acontecido ironicamente por abandono.

Jamais perdeu para o argentino em quatro jogos de Grand Slam, e dois no US Open. Depois daquela incrível partida de Del Potro nos Jogos do Rio, venceu três vezes. Fato curioso é que eles só se cruzaram uma vez em decisão de título, em Xangai de 2013, novamente com triunfo de Djokovic.

Nole joga por seu 14º troféu de Grand Slam, o que igualaria Pete Sampras, e pela chance concreta de vislumbrar novamente o número 1, já que o título o deixaria somente 1.035 pontos atrás de Nadal no ranking da temporada. Na classificação tradicional de 52 semanas, o título do US Open também vale o terceiro posto para Delpo ou Djokovic.

O tênis brasileiro ficou com o vice nas duplas, num dia ruim de Marcelo Melo e do polonês Lukasz Kubot e iluminado para o dueto de Mike Bryan e Jack Sock, que ganham seu segundo Slam consecutivo. Esse Mike é um monstro, capaz até mesmo de elevar a baixa estima de Sock e sua tenebrosa fase em simples.

Temos ainda Thiago Wild na semifinal juvenil. Sem imagens, difícil analisar o quanto o paranaense anda jogando na quadra dura, mas os placares e os adversários indicam que ele está muito bem adaptado. Nunca precisamos tanto de esperança.

Serena busca história diante de fã Naomi
Por José Nilton Dalcim
6 de setembro de 2018 às 23:35

Dezenove anos depois de erguer seu primeiro troféu de Grand Slam e 18 dias antes de completar o 37º aniversário, Serena Williams está pronta para fazer mais história. Sua coleção de seis títulos no US Open, interrompida em 2014, tem tudo para ser ampliada na tarde de sábado, quando enfrentará uma surpreendente Naomi Osaka, japonesa que não tinha 2 anos quando Serena – sua ídolo de infância – ganhar o primeiro US Open, em 1999.

O aspecto mais incrível, como a própria Williams destacou na entrevista em quadra, é que nesta mesma época do ano passado ela corria risco de vida após complicações no parto de Olympia. Mas, tal qual aconteceu em 2010, quando viu a ameaça de uma embolia pulmonar, Serena deu outra vez a volta por cima. “Não importa mais o que acontece na quadra, eu já me sinta vencedora”, afirmou sem esconder a emoção.

Mas ela ainda não saciou sua fome por façanhas. Perdeu apenas um set na campanha em Nova York e faz a segunda final de Slam seguida depois de mãe. O aguardado 24º Slam escapou em Wimbledon diante de Angelique Kerber, mas parece muito mais perto diante da pouca experiência de Osaka, que jamais havia sequer feito quartas em um torneio desse porte.

Serena entrou em quadra nervosa diante de Anastasija Sevastova e demorou para fazer funcionar a tática de pressionar na rede. Subiu 14 vezes em cada set e venceu 24 vezes entre smashes cravados, swing-volleys agressivos e voleios cuidadosos. Foi uma lavada de winners (30 a 10). A letã não se achou na partida depois dos dois primeiros games.

A japonesa de 1,80m fez uma semifinal admirável e mostrou que domina os nervos. Depois de Madison Keys fazer 2/1, Osaka venceu oito games seguidos, salvando no caminho incríveis 12 break-points, vários deles com saque precioso ou golpes corajosos. A explicação para tanta determinação? “Eu só pensava: quero jogar com a Serena. Eu amo Serena”. Demais.

Acredito que Williams não irá cometer o grave erro de subestimar Osaka, para quem perdeu logo na primeira rodada de Miami, em março. Claro que eram momentos distintos. A ex-número 1 vinha sem ritmo e muito fora de peso, enquanto a nipônica havia acabado de conquistar espetacularmente Indian Wells.

Tomara que elas entrem soltas em quadra para vermos uma final de muita pancadaria.

Nadal x Del Potro
Repetição da semifinal do ano passado, em que o argentino saiu na frente mas depois perdeu físico e embalo. Espanhol ganhou 11 dos 16 duelos, incluindo os três após a semi olímpica de 2016. Venceu Delpo neste ano em Roland Garros e em Wimbledon.

Argentino depende demais da precisão do saque e da força de seu forehand para colocar o adversário na defensiva, tendo de evitar a todo custo as longas trocas. Seu backhand evoluiu ao longo da temporada, mas ainda não é tão eficiente como antes e vai ser fartamente explorado por Nadal.

De olho no 18º troféu de Slam, o que o deixará a apenas dois do recordista Roger Federer, Rafa busca sua quinta final em Flushing Meadows e o tetra, o que o colocaria junto a John McEnroe e um troféu atrás de Federer, Jimmy Connors e Pete Sampras. Notáveis companhias. Inesperadamente, fez três partidas muito duras neste ano, duas com mais de quatro horas, e esteve num grande aperto diante de Dominic Thiem. Daí é preciso ver sua condição física.

Depois do título histórico em 2009, quando superou sucessivamente Nadal e Federer, o argentino conseguiu três semis de Slam, barrado ou pelo espanhol ou por Novak Djokovic. Faturou títulos em Acapulco e Indian Wells em 2018, mas sentiu o problemático punho antes do Canadá e passou sempre a ser dúvida. A campanha até aqui no US Open ajudou a economizar físico, tendo perdido apenas um set justamente nas quartas diante de John Isner. Ainda assim, recebeu tratamento nas duas pernas.

Impossível tirar o favoritismo de Nadal, provavelmente em quatro sets.

Djokovic x Nishikori
É uma pequena revanche da semifinal de 2014, em que inesperadamente o japonês se deu bem. Mas é difícil considerar esse resultado depois do histórico de 13 vitórias seguidas do sérvio. Basicamente, os dois têm um estilo muito semelhante quando jogam na quadra dura, mas o sérvio mostra superioridade em praticamente tudo, talvez com pequeno equilíbrio nos backhands.

Se mantiver o favoritismo, Djokovic atingirá a 23ª final de Grand Slam e igualará Ivan Lendl e Pete Sampras com oito decisões em Nova York. O próprio Sampras vê seu terceiro lugar absoluto de títulos de Slam ameaçado, podendo ser igualado por Nole no domingo. Na verdade, isso parece apenas uma questão de tempo.

Nishikori mostra neste US Open o melhor tênis desde a parada por lesão no punho direito, que o obrigou a disputar challengers no começo do ano. Ainda é um tenista com receio de ir à rede e não tem um saque tão efetivo, mas possui enorme intimidade com a quadra dura. Fica em cima da linha, pega tudo na subida e assim compensa a falta de potência com muita aceleração das jogadas. Para ter chance nesta semi, terá de arriscar e ser muito oportuno no uso das paralelas.

A lógica manda apostar em Djokovic em quatro sets.

Melo busca terceiro diferente Slam
O mineiro Marcelo Melo tem uma sexta-feira histórica pela frente e pode se tornar o terceiro brasileiro a conquistar três títulos de Grand Slam na carreira, igualando-se a Maria Esther Bueno e Guga Kuerten.

Mais legal ainda, ‘Girafa’ pode ter uma coleção de pisos distintos, já que triunfou no saibro de Paris em 2015, ao lado do croata Ivan Dodig, e na grama de Wimbledon no ano passado, já com o atual parceiro, o polonês Lukasz Kubot. Em Nova York, Estherzinha ganhou sete vezes (quatro em simples e três em duplas) e Bruno Soares, três. No total, o Brasil tem 34 títulos de Grand Slam em toda a história.

Os adversários serão duríssimos: os campeões de Wimbledon e donos da casa Mike Bryan e Jack Sock. Ao lado do irmão Bob, que operou o quadril e está em recuperação, Mike é penta no US Open e ganhou outros 16 Slam, sendo o recordista absoluto do tênis masculino. A final acontece às 13h na Arthur Ashe e vale a sua torcida.

Gigantes
Por José Nilton Dalcim
5 de setembro de 2018 às 03:25

A chave masculina do US Open poderia ter terminado na madrugada desta quarta-feira. Difícil imaginar que alguém consiga produzir um tênis de maior qualidade e emoção do que fizeram Rafael Nadal e Dominic Thiem. Depois de um primeiro set totalmente fora do normal, os dois entraram num duelo com mínimas brechas, em que cada um produziu lances de precisão milimétrica sem economizar braços e pernas. Ao final de 4h48, uma defesa esforçada e um smash torto decidiram o semifinalista.

Alguns pontos merecem destaque. Nadal como sempre procurou um caminho alternativo após levar um ‘pneu’ num primeiro set mágico do adversário. Estava claro que eram necessárias mudanças, e Rafa passou a ir com frequência à rede sempre atrás do backhand de Thiem. Pouco a pouco, o posicionamento lá atrás da linha permitiu que o espanhol entrasse mais e mais nos pontos, o que exigia do austríaco muita coragem para arrancar winners.

E foi assim pelos quatro sets seguintes. A única falha emocional do austríaco – acostumado a ter altos e baixos e se perder na força exagerada – veio quando tinha 5/4 para fechar o terceiro set, o que obviamente era crucial. Mas compensou com uma postura serena e firme no quarto e quinto sets, em que nunca deixou de ser ofensivo, produzindo lances de tirar o fôlego.

Nadal teve um voleio fácil para chegar ao match-point no finalzinho desse quarto set, o que encurtaria muito a batalha, mas seria absurdo condená-lo pela falha diante da intensidade da partida. Note-se que foi 56 vezes à rede e ganhou 36 desses pontos, alguns de grande risco. Embora seja um lugar-comum, deu pena de um deles sair como perdedor.

Repete-se assim a semifinal do ano passado contra Juan Martin del Potro, em que Nadal perdeu o primeiro set mas depois contou com um argentino cada vez mais lento em quadra. Não me surpreenderia se isso se repetisse, porque Delpo já precisou de cuidados na vitória de 3h30 sobre Isner com aparente dores nas duas pernas. Pelo menos, terá descanso até sexta-feira.

Flushing Meadows sempre foi a praia do argentino, que fará sua terceira semifinal ali das seis que possui em nível Grand Slam (duas em Paris e uma em Wimbledon são as outras). Já se vão nove anos desde a conquista incrível e talvez Delpo nunca tenha jogado tão bem desde a primeira parada para cirurgia, até porque tem conseguido bater mais o backhand. Ganhou muita variedade, com slices e voleios, e é dono de um coração gigante. Ou seja, possui os ingredientes para competir com Nadal. A dúvida é o físico.

Serena reage
Parecia que Serena Williams iria ter uma noite de Roger Federer. Rapidamente, Karolina Pliskova abriu vantagem e teve chance de fazer 4/1 e saque. Só então a multicampeã reagiu, calibrou seu excepcional saque e colocou pressão nas devoluções. Dos 22 erros do primeiro set, diminuiu para 8 no segundo, mas manteve os 17 winners em cada parcial.

Nem ela sabia, mas era sua 100ª apresentação no estádio Arthur Ashe dentro seus 105 jogos no US Open. Cravou 14 quartas de final consecutivas de Slam e busca a 12ª presença na semi do US Open em 18 participações. Não levanta um título em casa desde 2014.

Na quinta-feira, a 20 dias de completar 37 anos, terá todo o favoritismo diante da letã Anastasija Sevastova, que aos 28 faz sua primeira semi de Grand Slam tendo já eliminado Elina Svitolina e a atual campeã Sloane Stephens. Foi sua terceira vitória sobre uma top 10 em quatro semanas.

Na condição de 18ª do ranking, Sevastova fez um jogo um tanto nervoso contra Stephens, em que cada uma anotou 28 erros mas a letã ousou um pouquinho mais, com 18 a 13 de winners. É bem verdade que muitas vezes deram enormes balões. Fato interessante: Sevastova é quem mais quebrou serviços no torneio e vai pegar uma grande sacadora em duelo inédito.

Melo faz sua parte
Pela terceira vez nos últimos cinco anos, Marcelo Melo está na semifinal do US Open, repetindo as campanhas de 2013 e 2014 ao lado de Ivan Dodig. Ele e o parceiro Lukasz Kubot tiveram pouco trabalho nesta terça-feira e aguardam agora Bruno Soares e o escocês Jamie Murray, o que pode ser o maior momento do tênis brasileiro na temporada. Estamos precisando.