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Uma breve história do saibro
Por José Nilton Dalcim
17 de abril de 2018 às 20:17

Não deixa de ser irônico que as quadras de terra batida tenham sido ideia de dois campeões de Wimbledon, os irmãos Renshaw. Todo mundo sabe que o tênis como conhecemos hoje se formatou durante a disputa do primeiro torneio de Wimbledon, quando se padronizaram quadras, rede, regras e contagem. Pouquíssima coisa mudou desde 1877.

Segundo os próprios franceses, os Renshaw costumavam passar férias na Riviera e construíram quadras de grama em Cannes, mas o clima muito mais quente desgastava rapidamente o piso. Em 1880, eles tentaram uma solução: sobre a terra, colocaram um pó que vinha da moagem de panelas de barro defeituosas que eram feitas em Vallauris. O sucesso foi tão grande que 104 quadras foram construídas em cerca de dois anos somente em Cannes, porém aos poucos o pó de tijolo substituiu o de Vallauris, que não tinha escala suficiente para a demanda.

As vantagens eram enormes. Ao contrário da grama, não era preciso regar, cortar nem usar fertilizantes. Em 1909, uma empresa britânica achou uma forma de secar mais rapidamente o piso de terra quando molhado – algo que então chegava a demorar dois dias -, usando areia misturada com o tijolo, e com isso o piso se espalhou mais rapidamente por Espanha e Itália. O pó na França vinha das pedreiras de Saint-Maximin, no Oise, que até hoje fornecessem a matéria prima para as quadras de Roland Garros.

A técnica chegou aos Estados Unidos até que, em 1928, o engenheiro H. A. Robinson criou um sistema próprio que garantia um piso que secava com muita rapidez com o uso de pó de basalto, uma rocha vulcânica, e a esse novo piso se deu o nome de Har-tru (Har são as iniciais do nome do engenheiro e tru uma corruptela de ‘true’, verdadeiro, pela cor ser mais próxima da grama).

Muito se investiu na tecnologia para se aperfeiçoar as quadras de terra, que já na metade dos anos 50 consumiam 85% menos água para irrigação e assim reduziu-se o tempo de manutenção em até 40%. Por fim, surgiu a quadra de argila sintética, onde a base é um tapete emborrachado ou uma laje microporosa. A dificuldade é o alto custo.

Há também diferença no uso de argila, o que não ocorre na França e na Itália, onde se opta pelo calcário. Daí o tom por vezes bem mais escuro de algumas superfícies.

Fato curioso, apenas 13% de todas as quadras de tênis na França hoje são de saibro, em contraste com os 83% dos anos 1960. Ao mesmo tempo, países de pouca tradição, como Inglaterra, Austrália e Estados Unidos, têm optado por iniciar a formação de seus tenistas sobre a terra para fortalecer a biomecânica dos golpes de base.

Monte Carlo
Rodada interessante nesta terça-feira, com ênfase para o grande duelo entre Dominic Thiem e Andrey Rublev. O russo, que continua sendo um dos destaques da temporada, teve saque para fechar a partida e vacilou. Aliás, também aconteceu com Pablo Cuevas, que deixou escapar vitória em dois sets contra Fernando Verdasco.

Surpresa mesmo foi a queda de Lucas Pouille para o saque-voleio de Mischa Zverev, numa partida um tanto estranha. O francês abriu 4/2 no terceiro set e permitiu a virada. Grigor Dimitrov mostrou sua dificuldade em se adaptar ao saibro, Fabio Fognini teve intensos altos e baixos, Alexander Zverev errou demais. Não me agradaram.

Desempenho animador de David Goffin diante do jovem Stefanos Tsitsipas. Dois sets bem disputados, ainda que com falhas do belga principalmente com o saque. Mas ele pode embalar.

A rodada de quarta tem como pontos altos a estreia de Nadal contra Aljaz Bedene, o promissor duelo de Djokovic com Coric, Schwartzman encarando Gasquet e Verdasco podendo dar sufoco em Cilic.

Quem pode ameaçar Nadal no saibro?
Por José Nilton Dalcim
11 de abril de 2018 às 20:20

Que Rafael Nadal é o candidato natural e óbvio a todos os títulos que disputar no saibro europeu, todo mundo sabe. A grande dúvida para a segunda fase desta temporada é se existe alguém capaz de fazer frente a ele, já que a terra batida de hoje conta com tão poucos especialistas.

Em 2017, vimos David Goffin desafiar o espanhol no saibro lento de Monte Carlo, num jogo polêmico. Dominic Thiem foi surrado em Barcelona, deu mais trabalho em Madri, ganhou enfim em Roma mas depois levou aula em Paris. Mas ambos são enorme dúvida desta vez. Goffin não se recuperou da bolada que deu em seu próprio olho em Roterdã e, na única partida desde então, foi um fiasco. Thiem torceu o tornozelo em Indian Wells e não jogou mais.

Alexander Zverev é o atual campeão de Roma em cima de Novak Djokovic, uma campanha inesperada mas que só teve mesmo um outro autêntico saibrista, Fabio Fognini, no caminho. Dias atrás, na Copa Davis, mostrou sua instabilidade: atropelou David Ferrer e perdeu feio de Nadal. O que resta? Djokovic, claro, e quem sabe Wawrinka. Ambos são excepcionais jogadores sobre a terra, porém vivem momentos de pouca inspiração, físico duvidoso e consequentemente confiança lá embaixo.

A composição das chaves parece ingrediente fundamental e pode premiar tenistas ainda menos cotados, como Ferrer, Fognini, Lucas Pouille e Pablo Carreño. Admiro particularmente o arsenal de Pouille, a quem ainda falta acreditar um pouco mais em si mesmo para tentar algo grande.

Os pontos e as defesas
A temporada de saibro que serve de aquecimento para Roland Garros é composta por 12 torneios distribuídos em sete semanas, dos quais três são de nível 1000 e um 500. Os oito 250 estão divididos em quatro blocos, o que significa que um tenista poderá jogar no máximo sete campeonatos antes de chegar a Paris, já que o 500 de Barcelona coincide com um 250.

A grosso modo, portanto, estão em jogo 6.250 pontos em todas as nove semanas sobre a terra e daí se vê o feito espetacular de Rafa no ano passado, tendo somado 4.680, ou seja, 75% do total possível. Muito atrás, aparece Thiem, com menos da metade.

Veja quem mais somou nesta fase e portanto o que cada um tem a defender no saibro:
Rafael Nadal – 4.680 (títulos em Mônaco, Barcelona, Madri e Paris)
Dominic Thiem – 2.070 (final em Barcelona e Madri, semi em Paris)
Stan Wawrinka – 1.640 (campeão em Genebra e final em Paris)
Novak Djokovic – 1.500 (final em Roma, semi em Madri, quartas em Paris)
Alexander Zverev – 1.440 (campeão em Roma)
Andy Murray – 1.090 (semi em Paris)
Marin Cilic – 980 (campeão em Istambul)
Pablo Carreño – 800 (campeão em Estoril)
Lucas Pouille – 730 (campeão em Budapeste)
David Goffin – 720 (semi em Mônaco)

Dos atuais top 10, dois tiveram desempenho fraco no saibro em 2017 e portanto poderiam ter um grande lucro: Juan Martin del Potro, com apenas 270, e Grigor Dimitrov, com 190. Mesmo tendo anunciado um calendário restrito a Madri, Roma e Paris, o argentino se mostra forte concorrente ao terceiro lugar do ranking, já que está apenas 515 pontos atrás de Cilic. Já o búlgaro, inscritos nos três Masters e em Barcelona, está logo à frente de Delpo e ainda mais perto do croata: 350 pontos.

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Bom empate, mau empate
Por José Nilton Dalcim
6 de abril de 2018 às 23:17

O tênis brasileiro perdeu boa chance de disparar na frente da Colômbia e ficar bem perto da repescagem para o Grupo Mundial. Thiago Monteiro não encontrou a menor resistência diante de Santiago Giraldo, como era de se esperar, antes que Guilherme Clezar deixasse escapar o domínio sobre o garoto Daniel Galan e levasse uma dolorosa virada em Barranquilla.

Ainda que ex-top 30 e um ídolo da casa, Giraldo não poderia ter sido escalado. Ele só fez quatro jogos nesta temporada, sinalizando para uma aposentadoria, e deu um grande vexame num piso sintético veloz em que estava claramente perdido. Monteiro fez tudo exatamente como tinha de fazer e atropelou o dono da casa.

Clezar já tinha enfrentado Galan, embora há muito tempo atrás, e uma olhadinha na recente vitória que o jovem colombiano obteve sobre Thomaz Bellucci mostraria que ele era perigoso. Bate firme da base, vai para o risco, tem um bom saque. Enquanto o gaúcho o manteve em movimento, deu para segurar. Mas aos poucos Galan ficou confiante e o final do jogo virou um passeio. Monteiro que se cuide. Clezar continua sem vitória na Davis em três tentativas.

O grande perigo agora é Marcelo Melo e Marcelo Demoliner perderem para Juan Sebastian Cabal e Robert Farah. Isso colocaria grande pressão sobre o canhoto cearense. Ainda temos muita chance de levar no quinto jogo, caso Giraldo seja mantido diante de Clezar. Tomara! Vem aí mais um sábado de sofrimento.

Nadal volta firme
Um ou outro erro de forehand, uma ou outra falha no serviço, um ou outro golpe mal escolhido. Tudo absolutamente dentro do normal para um jogo de tênis em melhor de cinco sets. E o que vimos em Valência foi aquele Rafael Nadal tão dominador sobre o saibro, Deu um saboroso empate para a Espanha com a vitória sobre o ‘freguês’ Philipp Kohlschreiber..

O número 1 do ranking perdeu é verdade dois games de serviço, um logo no começo da partida e outro na abertura do terceiro set, mas jamais correu qualquer risco. Ao contrário, colocou sempre pressão sobre Kohlschreiber: foram 18 breaks e 11 quebras, com incrível diferença de 33 winners contra 9. Aliás, observe-se que Rafa ganhou 31% de seus 107 pontos na partida com bolas vencedoras (28 de forehand). O melhor de tudo: movimentou-se com leveza e destreza, nem sinal da contusão no adutor.

Embora é claro o resultado das quartas de final importe acima de tudo, fica uma enorme expectativa para o duelo entre Nadal e Alexander Zverev no domingo, depois que o embalado alemão atropelou David Ferrer com um desempenho magnífico. Vale lembrar que Sascha só treinou três dias no saibro, vindo de longa temporada na quadra dura. E elogios a um forehand preciso e agressivo, como há muito não se via, que marcou 11 de seus 27 winners.

Se a Espanha se mantém favorita para derrubar a Alemanha, a Itália ficou bem perto de fazer 2 a 0 contra a França sobre o saibro, mas Lucas Pouille conseguiu controlar os nervos no quinto set e agora a chance de os visitantes irem à semifinal ficou maior.

O saibro também foi o piso escolhido pela Croácia diante do Cazaquistão. Marin Cilic disparou 10 aces e ganhou fácil, porém Borna Coric se afundou em 45 erros não forçados e permitiu o empate. O vencedor deve pegar os EUA na semifinal, já que a Bélgica não tem David Goffin.