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Espelho, espelho meu
Por José Nilton Dalcim
22 de janeiro de 2018 às 13:31

Hyeon Chung cresceu e ainda treina pensando em atingir o mesmo nível de Novak Djokovic. Ainda que tenha menor potência nos golpes, usa um tênis sólido na base com enorme elasticidade para alcançar bolas incríveis e executar contra-ataques mágicos. Num dia em que muita coisa deu errado, Nole experimentou do próprio veneno, levou inúmeras bolas desconcertantes e se rendeu à aplicação ferrenha do sul-coreano de 21 anos e mesmos 1,88m. Foi como duelar contra um espelho.

O cotovelo voltou a incomodar Djokovic e o levou a cometer duplas faltas ingratas, tanto no tenebroso início de partida como no tiebreak tão importante do primeiro set. Guerreiro, Nole ainda lutou com todas suas forças, mesclando táticas, e foi graças a isso que vimos as melhores qualidades de Chung. Mesmo deixando escapar vantagens e vacilando em momentos cruciais, o sul-coreano cobriu a quadra ao melhor estilo Djokovic, fez escolhas incrivelmente acertadas em pontos de pressão e exigência física. Escondeu emoção o quanto pôde, mas não aguentou e imitou o ídolo ao pedir aplauso à torcida após mais um de seus lances geniais da noite.

Vindo de um país de pouca tradição no tênis, Chung treinou três anos na Flórida e foi eleito o novato do ano em 2015. Mas seu tênis carecia de peso nos golpes. Para piorar, sofreu uma contusão abdominal que atrapalhou todo seu segundo semestre de 2016 e no ano passado precisou jogar challengers antes de enfim entrar para o top 50. Sofreu mais duas contusões (tornozelo e outra vez abdômen) mas mostrou estar recuperado ao conquistar o Next Gen, em novembro.

Para manter seu histórico de grandes surpresas, o Australian Open deste ano também coloca luz sobre Tennys Sandgren, norte-americano de 26 anos e 97º do ranking que só tem três títulos de challengers na carreira e ousou eliminar Stan Wawrinka e Dominic Thiem num misto de jogo agressivo, ótimo físico e sangue frio. Com 1,88m, se movimenta bem e usa tudo da quadra dura. Há duas semanas, deu muito trabalho a Chung na segunda rodada de Auckland e assim se projeta um duelo bem interessante nas quartas de final.

Importante salientar que o curioso nome de Sandgren não tem nada a ver com o esporte, nem com Tennessee, onde nasceu, mas sim quase uma enorme coincidência: é o nome de seu avô, que era sueco de nascimento e jamais pegou uma raquete na mão.

Enquanto isso, Federer aproveitou para treinar à luz do dia. Não que o húngaro Marton Fucsovics seja um tenista ruim. Até fez ótimos ralis no segundo set, mas sequer conseguiu um break-point ao longo da partida em que o suíço foi sempre para cima. Divertiu-se acima de tudo, como no lance em que defendeu três smashes. Ele se torna assim o tenista de mais idade a ir às quartas da Austrália em 41 anos e de um Slam, em quase 27.

Agora, vem Tomas Berdych, que atropelou também Fabio Fognini e assim merece todo o respeito pelo desempenho que teve até agora em Melbourne. Há um ano atrás, levou uma aula tão desconcertante do suíço que saiu da quadra atordoado, porém o tcheco parece melhor de pernas, está menos apressado e se aventura mais à rede. Não vence Federer desde Dubai de 2013.

O complemento do quadro de quartas de final femininas é muito promissor. Campeã de 2016, Angelique Kerber é definitivamente outra desde o início desta temporada, com a confiança restaurada. Precisou de toda paciência para achar soluções e barrar o estilo cheio de efeitos malucos de Su-Wei Hsieh, algo que provavelmente não teria acontecido nos últimos meses. Seu desafio agora será ainda maior, diante de uma inspirada Madison Keys, que disparou nada menos que 32 winners nos 17 games em que não tomou conhecimento de Caroline Garcia. Mais tarde, Keys confessou que precisou de tempo para digerir a péssima atuação na final do US Open.

A outra luta por vaga na semi tem todos os ingredientes: os estilos antagônicos de Simona Halep e Karolina Pliskova, o sonho de um título de Slam e a briga direta pelo número 1 (que ainda inclui Carol Wozniacki e Elina Svitolina). A romena fez um jogo sem sustos contra Naomi Osaka e a tcheca precisou virar contra Barbora Strycova em duelo que terminou na madrugada local e trouxe para a quadra a rivalidade pessoal das compatriotas.

A terça-feira
– Nadal e Cilic se enfrentam pela sétima vez. O croata só venceu uma, em 2009, e desde então só levou um de 12 sets. Espanhol tenta 27ª semi de Slam, que será a quinta melhor marca. Das 6 derrotas que Rafa sofreu nas quartas de um Slam, 4 foram em Melbourne.
– Dimitrov ganhou os dois duelos contra Edmund, porém sempre jogos duros e na quadra dura. De longe, o AusOpen é o melhor Slam do búlgaro. Edmund pode ser sexto britânico numa semi de Slam desde 1968 e a vitória o levará ao top 30.
– Svitolina pega Mertens, 36ª e uma surpresa no torneio. Ucraniana ganhou único duelo. Nenhuma delas perdeu jogo em 2018, vindo de títulos em Brisbane e Hobart.
– Wozniacki tem 5-2 nos duelos diretos com Súarez, mas a espanhola ganhou o mais recente, em Madri. Espanhola tem sexta chance de enfim fazer semi de Slam e chegou ao torneio com longa série de derrotas. Carol foi quartas em Melbourne seis anos atrás.
– Marcelo Melo e polonês Lukasz Kubot jogam quartas com amplo favoritismo sobre McLachlan e Struff. Mineiro busca segunda semi de duplas na Austrália.

Hora de decisões
Por José Nilton Dalcim
21 de outubro de 2017 às 23:48

A primeira grande semana da reta final de temporada começa neste domingo, e lá do outro lado do mundo. Cingapura reúne as oito mais bem pontuadas da temporada para definir não apenas a campeã das campeãs, mas também a liderança do ranking.

Apesar de que matematicamente sete das oito participantes possam sair do torneio com o número 1, a realidade é que a disputa está praticamente centrada entre a atual líder Simona Halep e a ex-ponteira Garbiñe Muguruza.

Todas as outras teriam de chegar no mínimo à final ou ser campeãs invictas, mas ao mesmo tempo torcer para que Halep e Muguruza não vençam jogos da fase preliminar ou até mesmo que sequer entrem em quadra! Sim, porque a WTA dá 125 pontos apenas pela participação da tenista em cada um dos três jogos classificatórios.

A distribuição dos grupos no sorteio foi curiosa. Muguruza ficou com as jogadoras mais agressivas – Karolina Pliskova, Venus Williams e Jelena Ostapenko – e Halep, numa chave um pouco mais conservadora, com Carol Wozniacki, Elina Svitolina e Caroline Garcia, ainda que Svitolina goste de bater na bola mais do que as outras. Assim, há um equilíbrio saudável e dificilmente alguém poderá se queixar da velocidade do piso antes da semifinal.

O setor masculino também vive uma fase de definições. Roger Federer confirmou presença na Basileia, pegou uma boa chave e terá de ganhar os 500 pontos se ainda sonha com a luta contra Rafa Nadal pelo número 1. E não me venham dizer que ele não está interessado. Se a quadra não estiver tão lenta, não deve ter tanta dificuldade contra Tiafoe, Johnson ou Mannarino, nem mesmo Sock ou Goffin. O lado inferior tem Delpo e Cilic.

Del Potro aliás está numa incrível corrida por fora para retornar ao top 10 e quem sabe até ir a Londres. Se repetir o título em Estocolmo neste domingo, estará em 14º na temporada e a 470 pontos de Pablo Carreño. Como o argentino entrou em Paris, há uma chance. O Finals  agradeceria.

Viena reúne outra legião dos que ainda sonham com as duas vagas restantes. Além de Carreño, é uma cartada decisiva para Querrey e Anderson. Não vamos no entanto esquecer que Paris dá 1.000 pontos ao campeão e 600 ao vice, com uma possibilidade nada desprezível de não ter Nadal nem Federer. Isso daria esperança até a Tsonga, Bautista e Isner.

Delpo salva o US Open
Por José Nilton Dalcim
5 de setembro de 2017 às 00:43

Enfim, um grande jogo na chave masculina desde US Open. Melhor ainda, dessas partidas que vão ficar na memória do tênis. Juan Martin del Potro arrumou forças quase sobrenaturais para sair de uma apatia completa e dois sets abaixo e virar um jogo naturalmente perdido para Dominic Thiem. Tudo debaixo de uma incrível festa de sua fanática torcida. Espetáculo.

O campeão de 2009 se arrastava em quadra e parecia pronto a abandonar. Nenhum winner até a metade do segundo set. Mas como sempre o coração falou mais alto. Esqueceu do mal estar provocado pela gripe e começou a disparar seu mágico forehand. Thiem ainda teve cabeça para chegar a 5/2 no quarto set e sacar para o jogo em seguida. Falhou, levou um banho no tiebreak.

O austríaco mostrou-se emocionalmente muito frágil para o nível que joga. Foi sendo enrolado por Delpo, perdeu-se no plano tático, sem saber que hora deveria arriscar ou passar a bola para o outro lado. Fez mais winners em quatro dos cinco sets, incluindo os dois últimos.

Delpo talvez tenha salvado este US Open, não apenas porque fez um jogo memorável mas porque parece ser o único adversário com golpe e espírito para encarar Roger Federer e quem sabe Rafael Nadal. Tudo bem, lhe falta físico. Mas duvido que o suíço não dedique enorme cautela com seu poder de fogo nas quartas de final.

Federer assim como Nadal tiveram atuações protocolares. Jogaram com máxima seriedade desde a primeira bola e não deram ânimo a Philipp Kohlschreiber e Alexandr Dolgopolov. O suíço atinge uma marca impressionante: 51 quartas de final em 71 Grand Slam disputados. É o que o faz ser o melhor de todos. Apesar de novamente dar alguma preocupação ao pedir um raríssimo atendimento médico antes do terceiro set – explicou depois que foi ao vestiário porque precisou receber massagem na região do glúteo -, perdeu apenas 13 pontos com o serviço.

Rafa, por seu lado, jogou ainda melhor do que na rodada anterior, sem pressa e com notável clareza tática, sabendo como e quando poderia tirar o pior do adversário. Claro que Dolgopolov viveu seus dias de top 100, com poucos momentos de lucidez. O que importa para o espanhol é chegar ao duelo contra o novato Andrey Rublev com o máximo de sua confiança.

O russo de 19 anos tem feito mais do que aproveitar os buracos da chave. Dominou Grigor Dimitrov e David Goffin com placares idênticos, adversários de estilos muito diferentes. Rublev lembra muito Alexander Zverev. É alto, saca bem e bate pesado dos dois lados. Se não sentir o peso de jogar contra o número 1 do mundo e soltar seus golpes livremente, pode dar algum trabalho. Tido como um potencial top 10 para futuro breve, é hora de curtir a experiência.

A chave feminina colocou mais duas norte-americanas nas quartas. Agora são quatro, uma em cada partida de quartas de final. CoCo Vandeweghe joga no risco, saca muito bem e não tem medo de cara feia. Por isso, é um perigo para a número 1 Karolina Pliskova, que mal fez um treino e ganhou em meros 46 minutos. Tenista de 1,85m e 25 anos, CoCo chega a sua terceira quartas de Slam na temporada, repetindo Wimbledon e Austrália (onde foi à semi). É um currículo respeitável.

A história de Cinderela da vez está com a estoniana Kaia Kanepi, que venceu uma Daria Kasatkina 12 anos mais jovem. O ranking de Kanepi assusta: 418º. Mas é importante lembrar que ela já foi top 15. Desabou por conta de um problema nos dois pés que a tirou do circuito por um ano. O retorno aconteceu apenas dois meses atrás em nível ITF. É a segunda tenista a sair do quali e chegar nas quartas do US Open. Agora, no entanto, encara Madison Keys, que tem feito jogos duros e se saído sempre bem.

Importante observar que o circuito feminino terá obrigatoriamente quatro campeãs diferentes de Grand Slam neste ano, repetindo 2014. Quem levar o US Open se juntará a Serena Williams (Austrália), Jelena Ostapenko (Paris) e Garbiñe Muguruza (Wimbledon).

A rodada desta terça-feira tem Pablo Carreño com favoritismo sobre Diego Schwartzman, que sentiu dores na coxa na batalha da véspera, e Sam Querrey carregando a esperança americana frente Kevin Anderson. Será o 16º duelo entre eles e o terceiro do ano. Querrey ganhou a duras penas em Wimbledon e perdeu feio em Montréal. No feminino, duelos pouco previsíveis de Sloane Stephens frente Anastasija Sevastova e de Venus Williams contra Petra Kvitova, que tem tudo para ser o melhor jogo do dia.

Para o tênis brasileiro, toda a torcida para Bruno Soares, que joga duas vezes de olho nas semifinais. Primeiro com Jamie Murray, na tentativa do bicampeonato, e depois com Timea Babos, na luta por seu terceiro troféu na especialidade em Flushing Meadows. Esse mineiro adora Nova York.