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Djokovic pode mais. Muito mais.
Por José Nilton Dalcim
9 de setembro de 2018 às 23:08

O destino tem preferências curiosas. Quis que Novak Djokovic igualasse os 14 Grand Slam de Pete Sampras com a mesma idade e no mesmo torneio que o mágico norte-americano do saque-voleio. Mas enquanto Pete fez um adeus silencioso e nunca mais encarou o circuito profissional, Nole volta a praticar um tênis de primeiríssima qualidade e de grande vigor físico, deixando a clara impressão de que há muito a ganhar.

Naquele setembro de 2002, Sampras ampliava seu recorde absoluto de troféus de Slam e dava a sensação de que talvez fosse uma marca eterna. Apenas 16 anos depois, está superado com folga por Roger Federer e Rafael Nadal, assiste ao empate de Djokovic e parece uma história distante. O esporte é ao mesmo tempo incrível e cruel.

Com dois títulos e uma quartas de Slam em menos de quatro meses, três troféus de peso e uma final nos últimos cinco torneios, o sérvio dá uma espetacular volta por cima e rouba a cena do tênis masculino, ao mesmo tempo em que vê seus principais adversários cheios de incertezas. Claro que a distância de três Slam para Rafa e de seis para Federer demanda longevidade porque talvez sejam necessárias mais duas ou três temporadas até atingir metas tão ousadas. Dependerá essencialmente de foco e Djoko já afirmou que divide sua vida hoje com outras prioridades.

O tricampeonato no US Open veio com o drama do mal estar climático das primeiras rodadas. Assim que conseguiu se concentrar apenas no tênis, passou pelo cinco adversários seguintes sem perder sets, ampliando freguesias sobre Richard Gasquet, Kei Nishikori e Juan Martin del Potro. A exibição na final deste domingo, à exceção de um ou outro momento em que o saque perdeu precisão, mostrou solidez, apuro tático e opções técnicas, como fica evidente nos 28 pontos que obteve nas 37 subidas à rede.

Esta é a quarta temporada que Djokovic marca dobradinhas. Ele venceu seguidamente Wimbledon e US Open em 2011, 2015 e 2018, tendo faturado Austrália e Roland Garros em 2016. Vale observar que em todos os casos foram pisos distintos, marca de sua versatilidade. Apenas em uma dessas três ocasiões ele não terminou a temporada como líder, superado por Andy Murray no último jogo do ano de 2016. Daí é bom o Touro Miúra colocar os chifres de molho, porque os atuais 1.035 pontos de vantagem no ranking da temporada (eu disse ranking da temporada!) não são tão grandes assim quando temos Xangai, Paris e Londres a completar o calendário.

Quanto a Delpo, duas coisas não ficaram claras para mim: por que decidiu trocar bolas contra Djokovic em todo primeiro set, repetindo tática que havia feito contra Nadal? Era óbvio que levaria desvantagem de pernas ao longo do tempo. Depois, as frases enigmáticas que declarou na véspera que deram a entender a existência de problemas pessoais. Daí talvez as lágrimas ao final de uma partida que nem teve tanta emoção assim. No fundo, escapou de uma derrota muito mais elástica para um adversário superior em tudo.

O nosso campeão
NSeptember 9, 2018 - 2018 US Open Junior Boy's Singles Champion Thiago Seyboth Wild.um de seus piores momentos de toda a era profissional, o tênis brasileiro recebeu um presente dos céus: Thiago Wild, que nasceu sobre o saibro de Marechal Cândido Rondon, conquistou o US Open juvenil com a mistura ideal de competência e garra. Deixou pelo caminho nada menos que o líder do ranking, o taiwanês Chun Tseng, que era o bicho-papão da temporada, com títulos em Roland Garros e Wimbledon e vice na Austrália.

A lista de gente importante a que Wild se igualou neste domingo é impressionante: Andy Roddick, Andy Murray, Jennifer Capriati, Lindsay Davenport e Vika Azarenka também venceram o US Open juvenil antes do estrelado. Aliás, no ano passado quem ergueu foi Felix Auger-Aliassime, um inegável talento.

Como sempre me preocupo em dizer, há um abismo enorme entre o circuito juvenil e o mundo profissional, então recomendo cautela com a cobrança e expectativa em cima de Wild, porque já vimos o triste roteiro que se seguiu à conquista de Tiago Fernandes no Australian Open de 2010, que culminou na sua retirada das quadras. Tal qual Wild, o alagoano era muito promissor, tinha estrutura por trás. E ótima cabeça. Nem assim resistiu. Quando se aperta demais o parafuso, há o perigo de ele espanar.

Mas quero voltar com mais calma e espaço para falar de Wild no próximo post. Por enquanto, parabéns a ele e sua equipe por nos dar a melhor notícia da temporada.

Delpo desafia de novo o Big 3
Por José Nilton Dalcim
7 de setembro de 2018 às 23:38

Pela segunda vez em sua complicadíssima trajetória no tênis profissional, Juan Martin del Potro decide um Grand Slam com uma meta muito difícil: barrar o Big 3 do tênis. A campanha de 2009 incluiu inesperadas vitórias sobre Rafael Nadal e Roger Federer. Caso queira repeti-la nove anos depois e quatro cirurgias depois, terá de repetir a façanha e superar Nadal e Novak Djokovic.

Pena que a batalha contra Rafa tenha tido apenas um set de verdade. O argentino tomou a liderança da partida entre a frustração de deixar escapar o saque no 5/4 e a postura dignamente ofensiva do tiebreak. Rafa ia atrás de todas as bolas, mas o fatídico joelho direito reclamou e ele capengou no segundo set até abandonar a quadra, repetindo cena do Australian Open de janeiro, então por culpa do quadril.

Em que pese a situação tão chata, é magnífico ver Delpo de novo lá no topo do tênis. Um eventual título no domingo o deixará até mesmo em condições de brigar pela liderança do ranking lá no finzinho da temporada, algo que imagino não ter cruzado sua cabeça ao longo do calvário. É sempre importante considerar que ele só começou a bater novamente o backhand com maior potência e constância há poucos meses, e ainda assim o golpe não é nem sombra do que foi.

Vencer Djokovic será mais uma daquelas tarefas impossíveis que Delpo se desafia a cumprir. O sérvio joga melhor a cada rodada, cheio de confiança e sem o fantasma da umidade a assombrá-lo. Dominou à perfeição Kei Nishikori do primeiro ao último game, com enorme volume de jogo, variações táticas e eficiência física. Não dá para chegar a sua quarta final nos últimos cinco torneios mais confiante. Desde a queda preocupante em Barcelona e Madri, ele venceu 33 de 37 partidas.

Os duelos entre Nole e Delpo começaram justamente em Nova York, lá na terceira rodada de 2007, quando ambos ainda estavam longe do estrelato, e já teve 18 capítulos. A superioridade de Nole é patente pelas 14 vitórias e por duas de suas derrotas terem acontecido ironicamente por abandono.

Jamais perdeu para o argentino em quatro jogos de Grand Slam, e dois no US Open. Depois daquela incrível partida de Del Potro nos Jogos do Rio, venceu três vezes. Fato curioso é que eles só se cruzaram uma vez em decisão de título, em Xangai de 2013, novamente com triunfo de Djokovic.

Nole joga por seu 14º troféu de Grand Slam, o que igualaria Pete Sampras, e pela chance concreta de vislumbrar novamente o número 1, já que o título o deixaria somente 1.035 pontos atrás de Nadal no ranking da temporada. Na classificação tradicional de 52 semanas, o título do US Open também vale o terceiro posto para Delpo ou Djokovic.

O tênis brasileiro ficou com o vice nas duplas, num dia ruim de Marcelo Melo e do polonês Lukasz Kubot e iluminado para o dueto de Mike Bryan e Jack Sock, que ganham seu segundo Slam consecutivo. Esse Mike é um monstro, capaz até mesmo de elevar a baixa estima de Sock e sua tenebrosa fase em simples.

Temos ainda Thiago Wild na semifinal juvenil. Sem imagens, difícil analisar o quanto o paranaense anda jogando na quadra dura, mas os placares e os adversários indicam que ele está muito bem adaptado. Nunca precisamos tanto de esperança.

Serena busca história diante de fã Naomi
Por José Nilton Dalcim
6 de setembro de 2018 às 23:35

Dezenove anos depois de erguer seu primeiro troféu de Grand Slam e 18 dias antes de completar o 37º aniversário, Serena Williams está pronta para fazer mais história. Sua coleção de seis títulos no US Open, interrompida em 2014, tem tudo para ser ampliada na tarde de sábado, quando enfrentará uma surpreendente Naomi Osaka, japonesa que não tinha 2 anos quando Serena – sua ídolo de infância – ganhar o primeiro US Open, em 1999.

O aspecto mais incrível, como a própria Williams destacou na entrevista em quadra, é que nesta mesma época do ano passado ela corria risco de vida após complicações no parto de Olympia. Mas, tal qual aconteceu em 2010, quando viu a ameaça de uma embolia pulmonar, Serena deu outra vez a volta por cima. “Não importa mais o que acontece na quadra, eu já me sinta vencedora”, afirmou sem esconder a emoção.

Mas ela ainda não saciou sua fome por façanhas. Perdeu apenas um set na campanha em Nova York e faz a segunda final de Slam seguida depois de mãe. O aguardado 24º Slam escapou em Wimbledon diante de Angelique Kerber, mas parece muito mais perto diante da pouca experiência de Osaka, que jamais havia sequer feito quartas em um torneio desse porte.

Serena entrou em quadra nervosa diante de Anastasija Sevastova e demorou para fazer funcionar a tática de pressionar na rede. Subiu 14 vezes em cada set e venceu 24 vezes entre smashes cravados, swing-volleys agressivos e voleios cuidadosos. Foi uma lavada de winners (30 a 10). A letã não se achou na partida depois dos dois primeiros games.

A japonesa de 1,80m fez uma semifinal admirável e mostrou que domina os nervos. Depois de Madison Keys fazer 2/1, Osaka venceu oito games seguidos, salvando no caminho incríveis 12 break-points, vários deles com saque precioso ou golpes corajosos. A explicação para tanta determinação? “Eu só pensava: quero jogar com a Serena. Eu amo Serena”. Demais.

Acredito que Williams não irá cometer o grave erro de subestimar Osaka, para quem perdeu logo na primeira rodada de Miami, em março. Claro que eram momentos distintos. A ex-número 1 vinha sem ritmo e muito fora de peso, enquanto a nipônica havia acabado de conquistar espetacularmente Indian Wells.

Tomara que elas entrem soltas em quadra para vermos uma final de muita pancadaria.

Nadal x Del Potro
Repetição da semifinal do ano passado, em que o argentino saiu na frente mas depois perdeu físico e embalo. Espanhol ganhou 11 dos 16 duelos, incluindo os três após a semi olímpica de 2016. Venceu Delpo neste ano em Roland Garros e em Wimbledon.

Argentino depende demais da precisão do saque e da força de seu forehand para colocar o adversário na defensiva, tendo de evitar a todo custo as longas trocas. Seu backhand evoluiu ao longo da temporada, mas ainda não é tão eficiente como antes e vai ser fartamente explorado por Nadal.

De olho no 18º troféu de Slam, o que o deixará a apenas dois do recordista Roger Federer, Rafa busca sua quinta final em Flushing Meadows e o tetra, o que o colocaria junto a John McEnroe e um troféu atrás de Federer, Jimmy Connors e Pete Sampras. Notáveis companhias. Inesperadamente, fez três partidas muito duras neste ano, duas com mais de quatro horas, e esteve num grande aperto diante de Dominic Thiem. Daí é preciso ver sua condição física.

Depois do título histórico em 2009, quando superou sucessivamente Nadal e Federer, o argentino conseguiu três semis de Slam, barrado ou pelo espanhol ou por Novak Djokovic. Faturou títulos em Acapulco e Indian Wells em 2018, mas sentiu o problemático punho antes do Canadá e passou sempre a ser dúvida. A campanha até aqui no US Open ajudou a economizar físico, tendo perdido apenas um set justamente nas quartas diante de John Isner. Ainda assim, recebeu tratamento nas duas pernas.

Impossível tirar o favoritismo de Nadal, provavelmente em quatro sets.

Djokovic x Nishikori
É uma pequena revanche da semifinal de 2014, em que inesperadamente o japonês se deu bem. Mas é difícil considerar esse resultado depois do histórico de 13 vitórias seguidas do sérvio. Basicamente, os dois têm um estilo muito semelhante quando jogam na quadra dura, mas o sérvio mostra superioridade em praticamente tudo, talvez com pequeno equilíbrio nos backhands.

Se mantiver o favoritismo, Djokovic atingirá a 23ª final de Grand Slam e igualará Ivan Lendl e Pete Sampras com oito decisões em Nova York. O próprio Sampras vê seu terceiro lugar absoluto de títulos de Slam ameaçado, podendo ser igualado por Nole no domingo. Na verdade, isso parece apenas uma questão de tempo.

Nishikori mostra neste US Open o melhor tênis desde a parada por lesão no punho direito, que o obrigou a disputar challengers no começo do ano. Ainda é um tenista com receio de ir à rede e não tem um saque tão efetivo, mas possui enorme intimidade com a quadra dura. Fica em cima da linha, pega tudo na subida e assim compensa a falta de potência com muita aceleração das jogadas. Para ter chance nesta semi, terá de arriscar e ser muito oportuno no uso das paralelas.

A lógica manda apostar em Djokovic em quatro sets.

Melo busca terceiro diferente Slam
O mineiro Marcelo Melo tem uma sexta-feira histórica pela frente e pode se tornar o terceiro brasileiro a conquistar três títulos de Grand Slam na carreira, igualando-se a Maria Esther Bueno e Guga Kuerten.

Mais legal ainda, ‘Girafa’ pode ter uma coleção de pisos distintos, já que triunfou no saibro de Paris em 2015, ao lado do croata Ivan Dodig, e na grama de Wimbledon no ano passado, já com o atual parceiro, o polonês Lukasz Kubot. Em Nova York, Estherzinha ganhou sete vezes (quatro em simples e três em duplas) e Bruno Soares, três. No total, o Brasil tem 34 títulos de Grand Slam em toda a história.

Os adversários serão duríssimos: os campeões de Wimbledon e donos da casa Mike Bryan e Jack Sock. Ao lado do irmão Bob, que operou o quadril e está em recuperação, Mike é penta no US Open e ganhou outros 16 Slam, sendo o recordista absoluto do tênis masculino. A final acontece às 13h na Arthur Ashe e vale a sua torcida.