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Os campeões mandam
Por José Nilton Dalcim
16 de maio de 2018 às 19:28

Três dos únicos quatro campeões que Roma viu desde 2005, Rafael Nadal, Novak Djokovic e Alexander Zverev garantiram com folga a vaga nas oitavas de final do segundo mais importante torneio sobre o saibro europeu de todos os tempos. A quinta-feira de 16 jogos no Fóro Itálico promete ser eletrizante.

Nadal não fez mais que um treino, chegou ao 100º ‘pneu’ da carreira e reencontrará o também canhoto Denis Shapovalov, que ousou vencê-lo ano passado em Montréal. Com um tênis bem conservador, Djokovic se preocupou acertadamente mais com o resultado do que com o estilo e pode dar outro passo rumo ao duelo com Rafa, já que enfrentará o freguês Albert Ramos, canhoto que perdeu todos os 13 sets disputados contra o sérvio em cinco duelos. Zverev mostrou fácil adaptação às condições mais lentas de Roma e deve usar isso contra Kyle Edmund.

Fabio Fognini venceu o jogo mais disputado e técnico do dia diante de Dominic Thiem. Um espetáculo disputado palmo a palmo, com direito a lances de tirar o fôlego e cenas raivosas dos dois lados. Vindo de más campanhas, o italiano tem o público fanático a seu lado contra Peter Gojowczyk. Estou curioso para ver o que acontecerá se ele encarar Rafa nas quartas.

Também vibrante foi a virada de Kei Nishikori em cima de Grigor Dimitrov, saindo de 2/4 no terceiro set. Se passar por Philipp Kohlschreiber, pode cruzar outra vez com Djokovic, para quem perdeu dias trás em Madri. Por fim, Juan Martin del Potro dominou a juventude de Stefanos Tsitsipas e desafia David Goffin, estilos bem antagônicos. Quem passar, deve ter Zverev. O Masters romano está excelente.

A chave feminina tem um pouco de tudo, incluindo três norte-americanas (Venus, Keys e Stephens) ainda vivas. Rodada a rodada, Simona Halep e Carol Wozniacki lutam pela liderança do ranking e ambas têm jogos duros, contra Keys e Sevastova, respectivamente. A surpresa é a presença da grega Maria Sakkari nas oitavas, que tem uma disputa particular com Maria Sharapova para ver quem consegue ainda ser cabeça em Paris.

Aliás, as campeãs também estão mandando até agora em Roma: Elina Svitolina continua firme na defesa do título e Sharapova está atrás do tetra. Nenhuma outra entre todas as inscritas ergueu troféu no Fóro.

Um pouco de história
Nascido Internazioli d’Itália e transformado no Aberto da Itália quando surgiu a Era Profissional, o torneio de Roma já foi considerado o ‘quinto Grand Slam’ do circuito e é tradicionalmente o segundo mais importante do saibro europeu.

Até que o atual evento de Miami surgisse no calendário, o torneio italiano era o único do circuito a imitar os Slam e ter chaves masculina e feminina, ainda que disputadas em semanas consecutivas e não simultâneas. A tradição também pesa: surgiu em 1930, apenas cinco anos depois de Roland Garros, e está sediado no espetacular Fóro Itálico há nada menos que 83 anos.

O tênis italiano já foi uma potência sobre o saibro, mas perdeu paulatinamente seu lugar na história. Nicola Pietrangeli ganhou Roma pela primeira vez em 1957 e brilhou por uma década. Foi substituído por Adriano Panatta, maior profissional da casa na história, que fez uma mágica temporada em 1976: ganhou Roma em cima de Guillermo Vilas e logo depois faturou Roland Garros com a honra de ter sido o único a derrotar Bjorn Borg no saibro parisiense. O feminino conseguiu sucesso maior dentro de casa, com os títulos de Rafaella Reggi, em 1985, e de Sara Errani, em 2014.

Pouca gente se lembra, mas o tênis muitas vezes muito lento do Fóro Itálico não impediu que dois nomes nada íntimos do saibro erguessem o troféu: Vitas Gerulaitis foi bi, em 1977 e 79, e Pete Sampras faturou ali seu grande troféu sobre a terra em 1994, em curiosa final diante de Boris Becker. Também brilharam seis sul-americanos: Vilas, Jose-Luis Clerc, Andrés Gomez, Alberto Mancini, Marcelo Riós e, claro, Guga Kuerten.

No feminino, Gabi Sabatini chegou ao tetra em seis finais disputadas. E Maria Esther Bueno viria a conquistar justamente em Roma o primeiro grande título de sua fabulosa carreira, ainda em 1958, repetindo o feito mais duas vezes, em 1961 e 1965.

A lista cresce
Por José Nilton Dalcim
10 de maio de 2018 às 19:40

Rafael Nadal continua a reescrever a história do tênis a cada semana que passa sobre o saibro europeu. Diego Schwartzman foi o bom adversário que se esperava e fez o que deu. Tentou bater mais na bola, correu muito para cobrir ângulos, inventou jogadas. Foi premiado por uma quebra de serviço improvável quando o espanhol já dominava totalmente a situação e aí fez bobagens quando encarou a chance de liderar o segundo set.

Mas a diferença de força, movimentação e qualidade técnica eram grandes demais para o pequeno e valente argentino. Como incomodar Nadal com segundo saque a 130 km/h? O espanhol fez talvez seu jogo mais irregular desde que pisou no saibro, lá na Copa Davis, e ainda assim nada de ser ameaçado sequer de perder set.

Nesta sexta-feira, reencontrará Dominic Thiem, curiosamente o último homem a vencê-lo na terra há praticamente um ano, mas que levou uma surra humilhante dias atrás em Monte Carlo. Se a maior velocidade de Madri pode ajudar o pesado primeiro saque de Thiem, ao mesmo tempo lhe dará menor tempo de preparar o backhand, seu calcanhar de Aquiles. Rafa sabe exatamente o que fazer.

Nadal e os recordes no saibro
– 10 títulos em Roland Garros
– 5 títulos seguidos em Roland Garros
– 11 títulos em Monte Carlo
– 11 títulos em Barcelona
–  7 títulos em Roma
–  4 títulos em Madri
– 403 vitórias
– 55 títulos
– 23 títulos de Masters
– 81 vitórias seguidas
– 50 sets consecutivos
– 46 vitórias seguidas em Monte Carlo

As quartas
Kyle Edmund e Dusan Lajovic certamente são as grandes surpresas nas quartas de final de Madri. O britânico, depois de superar Djokovic, mostrou muita confiança em cima de um instável David Goffin. Garantido no top 20, fará duelo da nova geração contra o canhoto Denis Shapovalov, que dominou Milos Raonic. Jogaço à vista entre dois tenistas que batem sem dó.

Lajovic, tal qual Shapovalov, usa backhand simples e mostrou versatilidade na vitória inesperada em cima de Juan Martin del Potro. É bem verdade que o argentino vacilou feio e deixou escapar 4-0 no tiebreak decisivo. O sérvio tem outro gigante pela frente, Kevin Anderson. O sul-africano chega às quartas de um Masters pela 11ª vez, a primeira no saibro, e nunca fez sequer uma semi.

Alexander Zverev se mostra bem mais à vontade num saibro veloz e fez dois bons jogos em Madri. Revive a decisão de Miami de poucas semanas atrás contra John Isner. Seria interessante se Zverev fizesse semi contra Edmund ou Shapovalov, garantindo juventude na decisão de domingo. Mas Isner não pode ser desprezado.

As semis
Também existe novidade, e das boas, nas semifinais do Premiére. Caroline Garcia enfrentará Kiki Bertens, que é de longe a grande sensação da semana, já que tirou sucessivamente Anastasija Sevastova, Carol Wozniacki e Maria Sharapova. A holandesa de 1,82m e 26 anos têm se mantido na faixa das top 20 há 12 meses e foi semi de Roland Garros em 2016. Neste ano, já ganhou Charleston.

A outra vaga na final é um duelo de força entre as tchecas Karolina Pliskova e Petra Kvitova, A canhota ganhou Madri em 2015 e faz sua melhor sequência sobre o saibro em anos. É mais tenista do que Pliskova, ao menos no papel.

Vale a pena persistir
Por José Nilton Dalcim
1 de abril de 2018 às 20:56

John Isner está longe de ser um dos meus tenistas favoritos, muito em função do estilo um tanto cansativo que impõe nas partidas, baseado quase o tempo inteiro no primeiro saque. Mas sua campanha em Miami e a notável virada que obteve em cima de Sascha Zverev na final deste domingo nos força a muitos elogios. Principalmente quando lembramos que Crandon Park não tem um piso sintético veloz e portanto obriga até mesmo os grandes sacadores a mostrar a mínima competência no fundo de quadra.

Um número particularmente me chama a atenção no duelo diante de Zverev: eliminados os aces (18 a 10), o norte-americano marcou 26 winners contra 12 em golpes da base ou nos raros voleios. O todo-poderoso backhand do alemão, de longe seu melhor golpe, produziu uma única bola vencedora em 33 games disputados, enquanto o sempre frágil backhand do gigante de 2,08m obteve sete.

O fato evidente é que Isner procurou mais o jogo e isso não tem nada a ver com seu bombástico serviço. Era o norte-americano quem arriscava uma bola mais difícil, buscava paralelas, tentava a rede. Zverev fez uma exibição para lá de pragmática, à espera de erros, sem criatividade nem ousadia. Ignorou inúmeras chances de buscar a paralela com o backhand, preferia voltar a bola na cruzada. Mereceu perder.

Na entrevista oficial, Isner destacou a parte mental do tênis. Incrível como ele chegou a Miami desacreditado, com duas vitórias na temporada, e não se entregou. Quem sabe, o título de duplas em Indian Wells tenha feito a diferença, porque o vimos bem mais confiante nas vitórias sobre Marin Cilic, Juan Martin del Potro e Zverev, ou seja, três dos seis melhores do ranking atual e reconhecidos talentos sobre a quadra dura. Também superou o recorde negativo que tinha contra Hyeon Chung e diante de Sascha. Estava tudo contra ele, porém nada o deteve.

Isner pode não ser o tenista mais vistoso do circuito, mas em Miami ele deu uma bela lição ao circuito de como vale a pena ser persistente.

Algo semelhante cabe a Sloane Stephens, porque ainda aos 25 anos a sua passagem pelo circuito tem sido de desafios constantes. Todo mundo sabe de como superou longa parada por problema no pé antes de conquistar o US Open no ano passado. Sua temporada também era apática até Miami, com atuações ruins e derrotas bobas.

A final de sábado contra Jelena Ostapenko foi sofrível. Jogo nervoso demais, as duas deixando claro a fraqueza dos serviços, a pressa em se livrar da bola. Stephens ao menos se soltou ao ganhar o primeiro set e a partir daí produziu um tênis mais digno. Ostapenko ainda precisa dosar seus impulsos e cortar os erros. Parece sempre excessivamente acelerada e vem aí a defesa de Roland Garros, enorme peso nos ombros.

Façanhas
– A 25 dias de completar 33 anos, Isner se tornou o tenista de maior idade a conquistar seu primeiro Masters 1000.
– No geral, ele é o terceiro mais idoso campeão desse nível, atrás somente de Andre Agassi e Roger Federer.
– Isner também obteve um triunfo raro, que é ganhar simples e duplas de Masters num mesmo ano, algo que não acontecia desde Rafa Nadal, em 2012. O espanhol tem o feito máximo de ganhar simples e duplas no mesmo Masters (Monte Carlo, em 2008).
– Com os títulos de Delpo em Indian Wells e de Isner em Miami, é a primeira vez desde 2003 que dois jogadores não europeus faturam Masters consecutivos, repetindo Lleyton Hewitt e Andre Agassi.