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Vale a pena persistir
Por José Nilton Dalcim
1 de abril de 2018 às 20:56

John Isner está longe de ser um dos meus tenistas favoritos, muito em função do estilo um tanto cansativo que impõe nas partidas, baseado quase o tempo inteiro no primeiro saque. Mas sua campanha em Miami e a notável virada que obteve em cima de Sascha Zverev na final deste domingo nos força a muitos elogios. Principalmente quando lembramos que Crandon Park não tem um piso sintético veloz e portanto obriga até mesmo os grandes sacadores a mostrar a mínima competência no fundo de quadra.

Um número particularmente me chama a atenção no duelo diante de Zverev: eliminados os aces (18 a 10), o norte-americano marcou 26 winners contra 12 em golpes da base ou nos raros voleios. O todo-poderoso backhand do alemão, de longe seu melhor golpe, produziu uma única bola vencedora em 33 games disputados, enquanto o sempre frágil backhand do gigante de 2,08m obteve sete.

O fato evidente é que Isner procurou mais o jogo e isso não tem nada a ver com seu bombástico serviço. Era o norte-americano quem arriscava uma bola mais difícil, buscava paralelas, tentava a rede. Zverev fez uma exibição para lá de pragmática, à espera de erros, sem criatividade nem ousadia. Ignorou inúmeras chances de buscar a paralela com o backhand, preferia voltar a bola na cruzada. Mereceu perder.

Na entrevista oficial, Isner destacou a parte mental do tênis. Incrível como ele chegou a Miami desacreditado, com duas vitórias na temporada, e não se entregou. Quem sabe, o título de duplas em Indian Wells tenha feito a diferença, porque o vimos bem mais confiante nas vitórias sobre Marin Cilic, Juan Martin del Potro e Zverev, ou seja, três dos seis melhores do ranking atual e reconhecidos talentos sobre a quadra dura. Também superou o recorde negativo que tinha contra Hyeon Chung e diante de Sascha. Estava tudo contra ele, porém nada o deteve.

Isner pode não ser o tenista mais vistoso do circuito, mas em Miami ele deu uma bela lição ao circuito de como vale a pena ser persistente.

Algo semelhante cabe a Sloane Stephens, porque ainda aos 25 anos a sua passagem pelo circuito tem sido de desafios constantes. Todo mundo sabe de como superou longa parada por problema no pé antes de conquistar o US Open no ano passado. Sua temporada também era apática até Miami, com atuações ruins e derrotas bobas.

A final de sábado contra Jelena Ostapenko foi sofrível. Jogo nervoso demais, as duas deixando claro a fraqueza dos serviços, a pressa em se livrar da bola. Stephens ao menos se soltou ao ganhar o primeiro set e a partir daí produziu um tênis mais digno. Ostapenko ainda precisa dosar seus impulsos e cortar os erros. Parece sempre excessivamente acelerada e vem aí a defesa de Roland Garros, enorme peso nos ombros.

Façanhas
– A 25 dias de completar 33 anos, Isner se tornou o tenista de maior idade a conquistar seu primeiro Masters 1000.
– No geral, ele é o terceiro mais idoso campeão desse nível, atrás somente de Andre Agassi e Roger Federer.
– Isner também obteve um triunfo raro, que é ganhar simples e duplas de Masters num mesmo ano, algo que não acontecia desde Rafa Nadal, em 2012. O espanhol tem o feito máximo de ganhar simples e duplas no mesmo Masters (Monte Carlo, em 2008).
– Com os títulos de Delpo em Indian Wells e de Isner em Miami, é a primeira vez desde 2003 que dois jogadores não europeus faturam Masters consecutivos, repetindo Lleyton Hewitt e Andre Agassi.

Miami vale muito para Zverev e Isner
Por José Nilton Dalcim
31 de março de 2018 às 01:05

Doze anos separam os finalistas do Masters 1000 de Miami no próximo domingo. Alexander Zverev e John Isner reagiram a um começo fraco de temporada e aproveitaram as brechas. Por mais estranho que pareça, será o veterano Isner quem irá atrás do resultado mais expressivo do currículo.

Aos 20 anos, Zverev confirma ser o principal nome da novíssima geração e encerra um período de resultados fracos e pouca motivação, que se arrastava desde o US Open. Nesse intervalo, separou-se e bateu boca com o ex-técnico Juan Carlos Ferrero, acusado de conduta pouco profissional.

Está já é a 10ª final de sua curta carreira, em busca do sétimo título e do terceiro Masters. Gente muito mais importante, como Lleyton Hewitt, Guillermo Coria, Sergi Bruguera, Goran Ivanisevic, Patrick Rafter ou Jo-Wilfried Tsonga, só têm dois Masters na conta corrente. Outros, como Stan Wawrinka, Marin Cilic, Tomas Berdych e Robin Soderling, ganharam apenas um.

Zverev curiosamente quase caiu na estreia de Miami para Daniil Medvedev, sofreu depois contra o veterano David Ferrer e só então pareceu ganhar confiança, atropelando na sequência Nick Kyrgios, Borna Coric e agora Pablo Carreño. Nota-se que enfrentou todo tipo de adversário e achou soluções. Destaque principal para a firmeza no primeiro saque em momentos delicados e a volta de um forehand bem mais agressivo.

A chegada de Isner em sua quarta final de nível Masters não deixa de ser inesperada. Além de Miami não ser uma quadra dura realmente veloz, ele só havia vencido duas partidas desde janeiro antes de Crandon Park. Tal qual Del Potro há duas semanas, pode também conquistar um título inédito, que ao mesmo tempo seria seu mais significativo troféu, aos 32 anos. Ele no entanto leva para a quadra o retrospecto bem negativo de três derrotas para Zverev.

Depois de eliminado, Delpo deixou claro que fará um calendário curto no saibro europeu. Ele nem sequer deu uma data para voltar à quadra, mas certamente isso não acontecerá antes do piso mais veloz de Madri ou mais provavelmente somente em Roma. Será portanto uma preparação curta para Roland Garros. Duas coisas importantes: o argentino tem muito pouco a defender nesse período – seria portanto uma boa chance de colar mais nos lideres – mas só fez até hoje um grande resultado, que foi a semi de Paris em 2009.

A final feminina deste sábado também não estava nos prognósticos. Sloane Stephens pode enfim ganhar um título de peso depois de uma amarga sequência de resultados fracos desde a conquista do US Open. Ela admitiu não ter feito uma boa pré-temporada e que assim a demora para engrenar novamente não chegou a ser uma surpresa.

Jelena Ostapenko por sua vez busca levantar o primeiro importante troféu sobre a quadra dura. Se conseguir, irá ainda por cima chegar ao quarto lugar do ranking, algo muito motivador para quem tem toda a temporada de saibro pela frente. As duas nunca se enfrentaram, mas Stephens merece o favoritismo natural por estar em casa e no seu habitat natural.

Desafio em Miami
Por José Nilton Dalcim
28 de março de 2018 às 00:09

O funil vai apertando e as quartas de final masculinas mostram que os grandalhões ainda conseguem se dar bem no piso sintético lento de Miami. Mas não me parece que sacar à máxima força seja o suficiente para quem quiser levantar o troféu no domingo. É preciso dosar, mostrar consistência na base. E daí Juan Martin del Potro e Alexander Zverev, não por acaso os de melhor currículo entre os oito restantes, despontam como os maiores candidatos ao título.

Um jogador extremamente sólido e versátil para seus 2,03m, Kevin Anderson fincou mesmo o pé entre os top 10. No atual momento do tênis masculino, me parece bem justo, já que está longe de ser um tenista totalmente dependente do primeiro saque. Reencontra Pablo Carreño, outro que tem mostrado jogo variado sobre a quadra dura, com 4 a 0 nos duelos diretos, incluindo as recentes viradas no US Open e em Indian Wells.

Quem passar, terá pela frente a novíssima geração. Zverev de repente parece ter feito as pazes consigo mesmo e, depois de mostrar mais cabeça e golpes contra David Ferrer, dominou outra vez Nick Kyrgios, com destaque para um forehand novamente eficaz. Já Borna Coric continua em grande momento. Foi um tanto passivo diante de Denis Shapovalov, mas os 31 winners contra 10 que levou foram compensados pelos 21 erros frente a 47 do canhoto canadense. Coric ganhou os dois duelos contra Zverev, o mais recente no US Open.

A parte inferior da chave reúne três grandes sacadores contra o valente Hyeon Chung. Será interessante ver o tira-teima entre Del Potro e Milos Raonic, que estão 2 a 2 nos confrontos diretos. Sou mais Delpo, principalmente porque ele se poupou muito bem nesta terça-feira e é superior a Milos quase em tudo. Dias atrás, em Indian Wells, foi um passeio.

Por fim, Chung terá de repetir a performance de Auckland, dois meses atrás, quando teve paciência para aguentar os pesados serviços de Isner e cuidou muito bem do próprio saque. Como o jogo será à tarde, mais chances de o norte-americano disparar seus foguetes e pressionar.

Vika reage
A chave feminina, que perdeu suas três principais cabeças antes mesmo das quartas, verá Vika Azarenka buscar vaga na final contra Sloane Stephens. A bielorrussa faz campanha notável, quando lembramos o pouco que tem jogado, eliminando Keys, Sevastova, Radwanska e Karolina Pliskova. Aos poucos, pega ritmo e confiança. Se mantiver o padrão, deveremos ter uma bela pancadaria diante de Stephens.

As outras semifinalistas saem nesta quarta e trazem Elena Svitolina contra Jelena Ostapenko e o duelo entre a veteraníssima Venus Williams contra a ex-universitária Danielle Collins, que deu um incrível salto dos ITFs aos Premier em questão de semanas.

Ranking
– Fala-se com certa razão da má fase do tênis norte-americano, mas segunda-feira os EUA terão três entre os 16 primeiros do ranking. E com boa chance de Isner voltar ao top 10, caso chegue nas semifinais.
– Chung e Coric já garantiram seu recorde pessoal. O coreano tem tudo para entrar no top 20 e o croata já é 28º. Tiafoe também avançará para inédito 58º e Stefanos Tsitsipas, ao 69º.
– Zverev e Delpo lutam diretamente pelo quinto posto e podem tirar Grigor Dimitrov do quarto lugar caso atinjam a decisão de domingo.
– No feminino, Sloane Stephens enfim atinge o top 10 na carreira. Azarenka por seu lado volta à lista das 100 primeiras e um eventual título a colocará no 39º.