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Federer está pronto para o saibro
Por José Nilton Dalcim
31 de março de 2019 às 22:10

Roger Federer não para de surpreender. Vindo de um amargo vice em Indian Wells, que poderia muito bem justificar sua ausência em Miami, ele modificou radicalmente seu plano tradicional de jogo. Levou um susto logo no primeiro set que disputou no novo complexo do Dolphins, mas daí em diante cresceu a cada rodada.

Qualquer tenista mais intuitivo sente enorme dificuldade em ser aplicado na parte tática, tarefa que exige exaustiva repetição, quase uma monotonia. Ainda mais em pisos lentos. Federer claramente se submeteu a essa mudança de postura conforme avançou em Miami. Plantou-se na base sem pressa, trabalhou pontos, cortou de forma drástica os erros não forçados. Ganhou sets com menos de 40% de primeiro serviço em quadra, em pelo menos dois jogos anotou mais winners de backhand do que de forehand.

Tivesse ele se focado tanto em manter devoluções profundas, encarar de forma mais conservadora os break-points e mexer tão bem as pernas, muito provavelmente não teria escapado o troféu de Indian Wells. Seus números na final diante de John Isner foram notáveis: 17 winners, 7 erros, 4 quebras, só 1 ponto de saque perdido no primeiro set e 32 de 35 no total da partida.

Único na temporada a ganhar dois títulos até agora, Federer é o tenista que mais pontuou desde janeiro, com três finais consecutivas e 18 vitórias em 20 possíveis. Ei, mas ele não tem 37 anos?

O próximo desafio é o retorno ao saibro. Na entrevista oficial, uma curiosidade: ele afirmou que terá quatro semanas para se readaptar ao piso, temendo ter até se esquecido de como deslizar. Mas Madri está a seis semanas. Teria ele errado nas contas ou pode estar considerando se testar em Barcelona ou quem sabe Munique ou Estoril?

De qualquer forma, se mantiver o padrão deste Miami e a determinação tática e técnica mostradas numa campanha exemplar, Federer está pronto para não fazer feio no saibro.

Não se pode ignorar a postura digna e profissional de Isner. Um jogador que não tem como seu forte a mobilidade, disputou pelo menos os três últimos games sem condições físicas e terminou a missão num verdadeiro sacrifício, sacando a 160 km/h, tudo culpa de uma forte dor no pé esquerdo que aparentemente veio do nada. Ele foi gigante.

No sábado, Ash Barty se tornou a segunda grande surpresa consecutiva da temporada feminina. Embora muito mais conhecida e premiada do que Bianca Andreescu, campeã de Indian Wells duas semanas antes, sua performance em Miami foi o ápice da curta e conturbada carreira, brindando a australiana com um posto no top 10 do ranking.

Apesar do backhand de duas mãos, é impossível não lembrar de Justine Henin ao ver a notável variação de golpes de Barty. Slices, deixadinhas, voleios perfeitos, alegre mistura de força e jeito. Tem ainda um primeiro saque de respeito, que é a base do seu jogo, mas se mexe muito bem na parte defensiva.

Barty é a 14ª diferente tenista a ganhar um torneio na temporada 2019, justificando a expectativa de que não havia um amplo domínio e o ranking teria frequentes mexidas. A temporada de saibro, que já começa nesta segunda-feira para as meninas, vai ser muito interessante.

A velha guarda impõe respeito
Por José Nilton Dalcim
29 de março de 2019 às 23:18

Nos dois duelos entre nova e velha gerações que marcaram as semifinais de Miami, prevaleceu a experiência. Roger Federer, que tem a idade somada dos garotos canadenses, fez outra exibição magnífica, com destaque para seu apuro tático, e John Isner mostrou frieza e confiança num jogo em que poderia ter perdido em dois sets.

A expectativa de um confronto de alta qualidade entre Federer e o canhoto Denis Shapovalov precisou aguardar a metade do segundo set, quando então eles dividiram jogadas espetaculares. O canadense começou tenso, não conseguiu sair do ataque incessante sobre seu backhand e isso se refletiu na instabilidade do serviço.

Mesmo com saque abaixo do ideal – 40% no primeiro set e 49% no total da partida -, Federer foi soberano e outra vez anotou um número ínfimo de erros não forçados: 8 diante de 29. A rigor, só permitiu um 15-40 a Shapovalov, num crucial segundo game do segundo set. O tempo todo se mostrou paciente, aplicadíssimo na ideia de atacar o backhand. Foi oportuno junto à rede e moveu-se muito bem tanto na defesa como no ataque. Flutuou pela quadra como se fosse ele quem tivesse 19 anos. Que show.

Apesar de Isner ter cravado 72% do primeiro saque e somado 20 aces, Felix Auger-Aliassime teve uma enorme chance de causar outra maciça surpresa em Miami. Muito firme na base e aproveitando as raras oportunidades de contragolpear, quebrou duas vezes o serviço do norte-americano – o que por si só já é um feito – e sacou para fechar os dois sets, com 5/4 e depois com 5/3. Veio então o fantasma que mais o atormenta: a dupla falta. Pareceu duvidar um pouco, e isso foi o bastante para Isner agarrar a oportunidade e ganhar os dois tiebreaks. A partida teve apenas sete lances com pelo menos 9 trocas de bola, o que deixa clara a falta de ritmo que Isner impõe.

Shapovalov sai como novo e mais jovem integrante do top 20 do ranking masculino, Felix avança para o 33º e se torna o único tenista de 18 anos entre os 180 primeiros classificados. No ranking da temporada, ou seja desde janeiro, Aliassime é 12º, dois postos à frente do amigo. Se não ganharem mais um único jogo em 2019, ainda deverão terminar entre os 70 mais bem pontuados.

Saques e tiebreaks
Federer ganhou cinco dos sete duelos contra Isner, mas eles não se cruzam desde a vitória do americano nas oitavas de Paris de 2015. E é inegável que o gigante evoluiu muito desde então. Ainda que o saque seja a pedra fundamental, ele voleia melhor, é mais paciente no fundo e até o backhand ficou menos frágil. Todo mundo olha obviamente para o bombástico primeiro serviço, mas ele tem um dos melhores segundos saques que já vi.

Desses encontros entre os dois, apenas um não viu tiebreak e, no geral, cada tenista venceu quatro desempates. Por isso mesmo, o tiebreak desta vez poderá ter influência menor a favor do norte-americano. Entre tenistas que disputaram aos menos 300 na carreira, Federer é disparado o mais eficiente (65%), enquanto Isner é o décimo (60%). Numericamente, o suíço é quem mais venceu tiebreaks na Era Profissional (439), seguido por Isner (agora 411). Em Miami, o suíço não jogou um sequer, Isner foi a nove e levou todos.

Os finalistas também estão entre os cinco tenistas em toda a Era Profissional com melhor aproveitamento nos games de serviço: Isner é o segundo, com 91,7% (atrás de Ivo Karlovic) e Federer está em quinto, com 88,8% (perde para Milos Raonic e Andy Roddick).

O maior título
O sábado verá a maior conquista da carreira, seja para a ex-número 1 do mundo Karolina Pliskova ou para a ascendente Ashleigh Barty. Pode ser outro jogo em que a experiência seja decisiva. Aos 27 anos, a tcheca fará a 24ª final em busca do 13º troféu, enquanto a australiana é três anos mais jovem e soma apenas três títulos.

O histórico entre eles está empatado por 2 a 2, se considerado o torneio menor disputado em 2012 na grama de Nottingham. Desde que Barty voltou ao circuito, em maio de 2016, perdeu dois dos três, mas os placares sempre foram muito apertados, com quatro tiebreaks em sete parciais totais.

Será antes de tudo uma guerra de estilos. Pliskova depende muito do primeiro saque para sair mandando nos pontos, tem um forehand instável e um segundo saque atacável. Barty mexe melhor a bola com efeitos variados e isso parece essencial para tirar a tcheca de cima da linha e fazê-la bater em movimento. Se conseguir, terá uma chance real.

Faltou pouco para Melo
Uma bela partida de duplas marcou a queda de Marcelo Melo e seu parceiro polonês Lukasz Kubot nas semifinais de Miami, diante dos atuais campeões Bob e Mike Bryan. Houve chance para todos, mas é muito doloroso perder uma oportunidade dessas com dupla falta no match-point.

O lance foi até curioso, porque Kubot demorou um século para dar o saque, era evidente seu esforço para soltar a musculatura e aí a bola parou na rede. Paciência. Melo fez lances excelentes e parece enfim totalmente recuperado.

Mais um fã no caminho de Federer
Por José Nilton Dalcim
28 de março de 2019 às 23:57

Kevin Anderson demorou demais para esquentar, levou uma surra durante um set e meio e assim não impediu que Roger Federer avançasse para a semifinal de Miami, a segunda seguida de nível Masters no ano. Melhor ainda: enfrentará às 20h desta sexta-feira um adversário que tem quase metade de seus 37 anos e que não esconde ser um fã.

Nunca se cruzaram oficialmente, mas Denis Shapovalov teve a honra de aquecer o ídolo para as semifinais que o suíço faria diante de Feliciano López no torneio de Toronto de 2014, quando Denis tinha 15 anos. Na noite desta quinta-feira chuvosa, ele conseguiu sua terceira virada no torneio num jogo bastante divertido e diversificado diante do também jovem Frances Tiafoe. Agora, o jogo contra Federer é para valer.

Curiosamente, de suas quatro semifinais de nível ATP da curta carreira, duas vieram em eventos de nível Masters. Primeiro aquela incrível campanha em Montréal, onde tirou até Nadal, e depois no saibro rápido de Madri. Em ambas, não tirou set de outro NextGen, Zverev. Seu poderoso adversário em Miami tem exatamente 200 semis a mais e busca a vitória de número 153.

Desde que venceu seu primeiro Grand Slam, em 2003, Federer perdeu para apenas três canhotos, além de Nadal: o austríaco Jurgen Melzer, o argentino Federico Delbonis e o espanhol Albert Ramos, que foi aliás o último, em outubro de 2015. Desde então, o suíço está invicto há 20 jogos, incluindo cinco contra Rafa. Porém, fato curioso, foi batido em dois jogos importantes nesta temporada para jovens adversários que batem o backhand de uma mão: outro fã confesso, Tsitsipas venceu na Austrália e Dominic Thiem, dias atrás em Indian Wells.

É impossível não dar a Federer todo o favoritismo, ainda mais depois de duas rodadas muito bem trabalhadas na lentidão de Miami. Tal qual fizera diante de Daniil Medvedev, foi paciente para construir pontos contra Anderson e teve novamente um número muito baixo de erros não forçados, que chegaram a 12 (havia sido oito contra o russo). Usou muito bem o slice e, apesar da quebra sofrida quando já tinha vantagem no segundo set, o saque aparece em momentos delicados. Está impecável junto à rede e com a mão certa nas deixadas.

Como Shapovalov irá jogar? Provavelmente, ao melhor estilo Nadal, usando muito spin contra o backhand do adversário quando entrar nos ralis. O canadense consegue gerar incrível potência em todos os golpes de base, tem um saque fulminante, é rápido de pernas e adora os voleios. Claro que terá de se precaver do slice venenoso e tentar chegar à rede antes do adversário. Um jogo de xadrez.

A outra semi terá o garoto Felix Auger-Aliassime diante do atual campeão John Isner. O canadense está num momento mágico, mas raramente joga bem diante de grandes sacadores. Não consegue entrar nos pontos e fica sem ritmo lá da base. Como sempre, quando se enfrenta um adversário com saque bombástico, a primeira regra é não perder o próprio saque, e isso Aliassime tem feito bem. Mas disputar tiebreaks também não é o melhor dos mundos: Isner jogou oito sets e sete tiebreaks em Miami, e ganhou todos.

A rodada feminina foi prejudicada pela chuva. O jogo em que Ashleigh Barty derrotou Anett Kontaveit teve duas longas paralisações e só foi encerrado já à noite. A australiana tem muito mais variações, muda o ritmo a toda hora, arrisca lances diferentes e isso faz seus jogos divertidos de se ver. Fará sua mais importante final neste sábado, já com lugar garantido no top 10. É bom lembrar que, quando retornou ao circuito em maio de 2016, após temporada como jogadora profissional de críquete, Barty sequer tinha ranking.