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Sem susto, mas sem brilho
Por José Nilton Dalcim
31 de agosto de 2018 às 01:21

Com vitórias quase formais, Roger Federer e Novak Djokovic continuam na rota de colisão que, acredita-se, ocorrerá exatamente dentro de seis dias, nas quartas de final do US Open.

Para chegar lá no entanto o suíço terá de mostrar muito mais do que em suas duas primeiras exibições. Não que tenha jogado mal, já que sequer perdeu sets, porém não se viu a precisão habitual. A rigor, o bom foi vê-lo mais adepto dos voleios.

Seu problema imediato se chama Nick Kyrgios. O australiano entrou em outra polêmica na virada espetacular que conseguiu em cima de Pierre Herbert, que liderava por 6/4 e 4/1. Uma teórica reprimenda do árbitro Mohamed Lahyani, incomodado com a falta de empenho de Kyrgios, teria mexido com seus brios. O australiano nega, mas até o amigo Andy Murray ironizou a situação nas mídias sociais.

Kyrgios tem inegavelmente alto poder de fogo, adora grandes jogos e mais ainda enfrentar Federer. Em três duelos, o suíço ganhou dois mas oito dos nove sets foram tiebreaks e cada um venceu quatro. Equilibradíssimo. Quem avançar, dificilmente não estará nas quartas já que o adversário seguinte sai do inesperado duelo entre o também australiano John Millman e o cazaque Mikhail Kukushkin.

Djokovic por sua vez voltou a perder um set, deixando-se levar por um momento de desconcentração e um tiebreak muito bem disputado por Tennys Sandgren, porém o sérvio recobrou sem sustos o domínio. Reconheceu depois que falou mais do que deveria. Não há motivos para duvidar que a ‘freguesia’ sobre Richard Gasquet prosseguirá (são 12 a 1, com única derrota há 11 anos). É bem provável que Nole terá na verdade dois franceses no caminho, caso Lucas Pouille supere João Sousa.

Os outros dois quadrantes estão interessantes. Marin Cilic teve apresentação impressionante e cruzará com o garoto Alex de Minaur, que joga em cima da linha e não tem medo de cara feia.
Se vencer, deve ter David Goffin, um páreo ainda mais duro, já que o belga ganhou dois de três duelos na quadra dura. Enquanto isso, Alexander Zverev já crava sua maior campanha no US Open sem perder set. Fará confronto alemão contra o sempre perigoso Philipp Kohlschreiber, de olho em quem passar de Kei Nishikori e Diego Schwartzman. Sou mais o japonês.

A chave feminina perdeu mais um grande nome: Carol Wozniacki seguiu os passos de Simona Halep e Garbiñe Muguruza, mas a sucessão de problemas físicos da dinamarquesa nas semanas anteriores já indicava que ela encontraria dificuldades. O caminho então se abriu para Kiki Bertens e favorece ainda mais a presença de Petra Kvitova na semifinal. A canhota no entanto precisa tomar cuidado com a embalada Aryna Sabalenka já nesta terceira rodada.

O outro quadrante está totalmente indefinido e vê dois duelos distintos: um é de força e gritaria entre Maria Sharapova e Jelena Ostapenko, o outro de correria e apuro tático entre Angelique Kerber e Dominika Cibulkova. A atual vice Madison Keys assiste a tudo.

O inferno é aqui
Por José Nilton Dalcim
29 de agosto de 2018 às 01:02

O primeiro dia foi um sufoco, o segundo pareceu o inferno mas tudo ainda pode piorar nesta quarta-feira no US Open, quando a previsão indica temperatura de até 35 graus, o que somada à umidade perversa eleva a sensação térmica em até 10 graus. Por isso, há uma diferença clara entre jogar de dia ou de noite, ainda que Roger Federer e Maria Sharapova tenham entrado em quadra com 31 graus e 34 de sensação na rodada noturna desta terça-feira.

Novak Djokovic causou grande preocupação, porque a uma determinada altura parecia batido pelo clima sufocante, com tonturas e fraquezas desconcertantes. Tivesse Marton Fucsovics mais quilometragem, dificilmente o sérvio teria sobrevivido ou ao menos evitado um quinto set. O drama no entanto passou e melhor vislumbrar Tennys Sandgren e quem sabe Richard Gasquet. O setor de uma forma geral continua muito promissor a Nole

Federer não escapou de ver sua camisa encharcada, imagem rara, mas isso foi motivação para sua disposição bem ofensiva:,fez 56 winners e exibiu toda sua mão mágica. Não terá tempo de comemoração. Na quinta-feira, reencontra Benoit Paire, que lhe deu um aperto danado na grama de Halle, obrigando o suíço a salvar dois match-points. Claro que os 6 a 0 de histórico credenciam o pentacampeão, e aí provavelmente virá o imprevisível Nick Kyrgios.

Dois jogadores parecem especialmente com sorte. Alexander Zverev, que nunca ganhou duas partidas seguidas no US Open, vai pegar o segundo lucky-loser seguido. A estreia foi tão fácil que até Ivan Lendl sorria no box. O fraco Peter Polansky náo sugeriu qualquer mudança de postura tática ou emocional do jovem alemão, então teremos de esperar um duelo real, que pode já vir com o esperto Philipp Kohlschreiber na terceira rodada e principalmente Kei Nishikori nas oitavas.

Mais sortudo ainda foi Marin Cilic. Outra vez cruzou com Marius Copil, contra quem sofreu muito em Cincinnati, e viu o romeno disparar para 5/1. Só que o calor fez sua parte e daí em diante Copil só ganhou mais dois games até desistir.

Bom destaque cabe ao duelo de segunda rodada entre os garotos Frances Tiafoe e Alex de Minaur, que se juntaram a Zverev, Heyon Chung e Jaume Munar como membros da nova geração a vencer na estreia na parte inferior da chave. Em cima, são 11!

As meninas pareceram sofrer bem menos com o calor e talvez a única a viver desgaste excessivo tenha sido Jelena Ostapenko, que demorou mais do que devia para fechar o jogo contra Andrea Petkovic. Boa reação de Petra Kvitova que tinha segundo set ameaçado por Yanine Wickmayer e enfim uma apresentação bem mais sólida de Carol Wozniacki. Sem muito brilho, Angelique Kerber ganhou dois sets trabalhosos.

Muito bom ver o espírito de luta de Vera Zvonareva e uma exibição confiante de Eugenie Bouchard. E apesar de ser sempre uma estrela na programação, Maria Sharapova mistura sentimentos. Bate pesado e adotou mesmo as deixadinhas, mas o saque está sofrível. Dá a impressão que não treina o golpe há uma semana, comete duplas faltas bisonhas e transforma seus jogos numa loteria. Pena.

Sonho aumenta para Nadal e Djokovic
Por José Nilton Dalcim
11 de julho de 2018 às 20:30

Rafael Nadal fez uma desgastante e espetacular partida, Novak Djokovic mostrou muito de seu melhor jogo com enorme vontade de vencer e ambos não têm mais a ameaçadora companhia do octacampeão Roger Federer, derrotado inesperadamente depois de ganhar os dois primeiros sets. O destino quis que Rafa e Nole se cruzem antecipadamente na semifinal de sexta-feira e só um deles poderá chegar no domingo com a esperança de recuperar o troféu mais valioso do tênis.

Federer outra vez mostrou aquela perda de intensidade gradativa que vimos em Halle, mas ainda assim chegou a um match-point no finalzinho do terceiro set. Kevin Anderson foi frio. Sacou firme, bateu a segunda bola de forehand, seu feijão-com-arroz, e esticou a partida por mais duas horas. Deu-se a chance de ganhar. Salvou todos os seis break-points que encarou ao longo da virada. Manteve média de velocidade do primeiro saque em 202 km/h.

O próprio suíço definiu bem a situação. Mostrou-se surpreso com a solidez de Anderson no plano técnico e tático: “Não consegui mais surpreendê-lo depois do primeiro set, e isso é um sentimento ruim”. O arsenal do sul-africano é vasto, porém o notável esteve mesmo na postura serena e determinada que manteve o quinto set vivo, diante do apoio claro do público ao adversário. Num único ponto, forçou três forehands profundos no contrapé do suíço.

Um duelo tão tenso e importante de 4h14 costuma ir para o lado do mais experiente. Anderson não quis saber disso. E não pensem que ele está satisfeito. Já avisou que a comemoração será breve, porque ele tem ainda “um ou dois jogos” a fazer neste Wimbledon.

Seu adversário será o super-sacador John Isner, que perdeu o primeiro set porém viu Milos Raonic ser atendido duas vezes pelo fisioterapeuta e, pouco a pouco, cometer erros sucessivos com a dificuldade de se agachar para os voleios. Um jogo de 32 games em que o maior rali foi de 10 trocas. Aos 33 anos, um a mais que Anderson, o norte-americano faz sua primeira semi de Grand Slam e tem vantagem de 8 vitórias a 3, cinco seguidas, sobre o sul-africano.

O 52º confronto
Duelo que mais se repete na história do tênis profissional, Nadal e Djokovic voltam a se cruzar num Grand Slam após três temporadas. A situação de momento é bem oposta às quartas de Paris de 2015, quando Nole voava em quadra e o espanhol vivia uma de suas piores fases.

Rafa fez uma exibição notável diante de Juan Martin del Potro, 4h47 de qualidade e tensão, para marcar sua primeira grande campanha em Wimbledon em sete anos, período em que amargou terríveis derrotas contra adversários que nem era top 100. É uma resposta e tanto. Claro que ele poderia ter simplificado as coisas caso tivesse aproveitado o set-point no tiebreak do segundo set, que jogou fora com dupla falta.

Delpo ficou animado, chegou a liderar por 2 sets a 1 e, apesar de levar quebras precoces nos dois últimos sets, não largou o osso até o último ponto. Na verdade, desperdiçou chances de ouro para recuperar-se e aumentar o drama. Nadal criou alternativas. Abusou das deixadinhas, subiu 47 vezes à rede, aumentou índice de primeiro saque para 75%. “Às vezes, você joga o seu melhor e ainda não é o suficiente para vencê-lo”, definiu com maestria o argentino.

O líder do ranking deve encarar um energizado Djokovic na sexta-feira. O sérvio está com uma vontade de leão, esbravejando, cobrando-se e buscando motivação o tempo inteiro. Discute com juiz, fala com o público, solta berros, pede ajuda aos céus. Claro que excesso de ansiedade também atrapalha, mas o sérvio tem experiência de sobra para dosar isso. Foi o que fez diante de Kei Nishikori, que deu trabalho quando resolveu arriscar mais no segundo  set.

Talvez tenha pesado sobre Nole o fato de vir de três derrotas seguidas em quartas de Grand Slam. Agora, livre do pequeno pesadelo, nenhum sinal de limitações físicas e cinco jogos pouco exigentes, quem sabe o velho Djokovic de 2014 e 2015 reapareça na Central.

Expectativa
– Serena Williams não perde em Wimbledon desde 2014, já é a atual bicampeã e não disputou o torneio no ano passado. Venceu Julia Goerges, alemã de 29 anos e 14ª do ranking, três vezes mas duas no saibro.
– Goerges pode garantir a primeira final feminina totalmente germânica no torneio desde 1931, caso enfrente Angelique Kerber, ou a primeira entre duas jogadoras que jamais decidiram em Londres desde 1977, se der Jelena Ostapenko.
– Serena x Kerber foi a final de Wimbledon de 2016, que marcou o sétimo troféu da norte-americana e vingou a derrota sofrida seis meses antes na Austrália. Campeã também do US Open daquele ano, Kerber tenta quarta final de Slam.
– Ostapenko tem uma estatística notável até aqui: 21% de seus pontos no torneio foram através de winners, sendo 52% de backhand. Ela e Kerber nunca se enfrentaram.