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Thiem volta a ser Thiem
Por José Nilton Dalcim
22 de março de 2019 às 23:28

É absolutamente normal no circuito de hoje um campeão tropeçar imediatamente no torneio seguinte, seja por falta de adrenalina ou pela cobrança natural.

Dominic Thiem no entanto foi além desse direito natural e fez uma partida a seu melhor estilo na noite desta sexta-feira: exagerado na força, falho nas escolhas, frágil na parte mental.  Saiu na frente com quebra, não segurou e fez um game pavoroso para perder o serviço e o primeiro set. Depois teve 3/1 e 4/2, não suportou a pressão e cedeu os dois serviços seguintes.

A parte boa disso tudo é que ele deixou uma vaga nas oitavas de final do Masters de Miami para dois garotos que vêm chamando a atenção: seu algoz Hubert Hurkacz, polonês de 22 anos cheio de bons recursos, e a sensação Felix Auger-Aliassime, de 18, com seu delicioso tênis muito ofensivo. Quem ganhar, aliás, será top 50 do ranking pela primeira vez. Então digamos que o trabalho de Thiem acabou bem feito.

A outra decepção no dia em que os primeiros grandes nomes estrearam em Miami foi Kei Nishikori. Repetiu a receita de Thiem em doses ainda mais dolorosas. Arrasou Dusan Lajovic no primeiro set e aí se perdeu em erros, a ponto de terminar com 20 forehands desperdiçados. O sérvio de 28 anos é brigador, tem um jogo mais na base de toques e vive um bom momento.

Será o adversário de Nick Kyrgios, que exagerou no malabarismo mas tirou o quali Alexander Bublik. Se o australiano tiver o mínimo de juízo, vai aproveitar uma chave muito propícia para ir longe. Quem sabe até as quartas e aí faça o duelo contra Novak Djokovic que escapou em Indian Wells por sua total incompetência.

Por falar no líder do ranking, ele ratificou o favoritismo sobre Bernard Tomic e ampliou o placar para 6-0, mas foi um jogo chato, sonolento. O australiano ficou trocando bolas em peso, evitou arriscar e Nole passou a maior parte do primeiro set nesse ritmo insosso, chegando até a perder o serviço antes de Tomic. Assim que resolveu ser mais ofensivo, o sérvio dominou e atropelou. Afinal, a distância técnica é enorme. Faz agora um duelo curiosamente inédito contra o canhoto argentino Federico Delbonis, a quem sobra potência, mas falta consistência.

A chave feminina completou a segunda rodada também com as estreias finais das cabeças e viu altos e baixos de Naomi Osaka, Angelique Kerber e Serena Williams, todas com sets perdidos mas nenhum risco real de derrota. Destaque para a ótima vitória de Simona Halep e as duas rodadas que a veteraníssima Venus Williams já avançou.

A terceira rodada coloca oito jogos em quadra com uma grande atração: a revanche da final de domingo de Indian Wells entre Kerber e Bianca Andreescu. Ainda que tenha tenros 18 aninhos, é incrível que Bianca tenha que jogar pelo terceiro dia seguido em Miami. Na lentidão do lugar e diante do poder defensivo da alemã, ganhar será mais um feito incrível.

Show de Monfils
Por José Nilton Dalcim
14 de março de 2019 às 09:44

Pouco mais de 24 horas depois de anotar uma vitória irretocável sobre o número 1 do ranking, o alemão Philipp Kohlschreiber deu um melancólico adeus ao Masters 1000 de Indian Wells, varrido da quadra por um renovado Gael Monfils.

É bem verdade que o histórico de 13-2 nos duelos, sendo cinco consecutivos, já mostrava que o francês sabe como enfrentar o jogo versátil do alemão. Mas a atuação de Gael foi além: aplicadíssimo, trabalhou pontos até ir para os winners, foi incrivelmente sólido na base dos dois lados e devolveu com qualidade o tempo todo.

Estamos diante de um Monfils superior até àquele que chegou por duas vezes ao top 10. Ainda que sobre espaço para um ou outro malabarismo, está claro que ele vai à quadra para vencer. Além de ter adotado um tênis mais ofensivo, o que sempre me incomodou muito, o francês está fisicamente inteiro. Parece ter achado um equilíbrio no calendário, com intervalos maiores entre os torneios, o que pode poupar seu problemático joelho.

Evidente que ainda existe o fator emocional e, ainda que ele negue nas coletivas, o namoro com Elena Svitolina precisa ser colocado na balança. Monfils sempre foi chegado numa balada e isso dificilmente combina com um tenista de ponta. Diante de um circuito que dá inédito espaço aos ‘trintões’, não parece tarde ganhar maturidade aos 32 anos.

Seu desafio desta quinta-feira é Dominic Thiem, para quem perdeu todas as quatro vezes, alguns jogos bem apertados mas que sempre penderam para a consistência do austríaco.  Se vencer, Monfils volta ao 16º lugar do ranking. Aí, enfrentará a experiência de Milos Raonic ou a juventude de Miomir Kecmanaovic, que está numa semana dos sonhos: entrou de lucky-loser e só precisou jogar duas partidas inteiras.

Rumo ao reencontro na semi e à famosa ‘final antecipada’, Rafael Nadal e Roger Federer tiveram vitórias protocolares. O espanhol jogou a maior parte do tempo em cima da linha ou dentro da quadra, numa mudança de postura, mas ainda vê seu primeiro saque instável. Já o suíço sufocou Kyle Edmund mas também encontrou alguns problemas com o serviço no segundo set, precisando salvar break-points.

Os dois só jogarão na sexta-feira e têm tarefas aparentemente distintas. Mesmo sem estar num bom início de ano, Karen Khachanov tem poder de fogo para incomodar Nadal, já que é um tenista bem completo. A surpresa polonesa Hubert Hurkacz por sua vez terá a sempre difícil experiência de encarar Federer pela primeira vez. Sua sequência no torneio é admirável: Lucas Pouille, Kei Nishikori e Denis Shapovalov, estilos muito diversos. Merece cuidado.

Dado bem curioso levantado pelo site da ATP, o circuito masculino teve 18 torneios nesta temporada e 18 campeões diferentes. Dos oito que permanecem em Indian Wells, apenas Federer e Monfils já foram vencedores em 2019.