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O imponderável entra em quadra
Por José Nilton Dalcim
6 de junho de 2018 às 18:31

A previsão de tempo ruim nesta segunda semana de reta final em Roland Garros se confirmou e assim Rafael Nadal-Diego Schwartzman e Juan Martin del Potro-Marin Cilic terão duelos em dois atos. O prejuízo só não será tão grande para os vencedores porque as partidas estão consideravelmente no mesmo estágio. De qualquer forma, quem passar terá de voltar à quadra na sexta-feira à tarde. Então jogar três ou até quatro sets nesta quinta-feira precisa ser evitado a qualquer custo.

A chuva já interferiu no duelo de Nadal e Schwartzman. A umidade deixou as condições mais lentas e isso ajudou muito o argentino a cobrir bem a quadra durante todo o primeiro set. Ele entrou decidido a arriscar e cumpriu à risca: 20 winners contra apenas quatro de um espanhol exageradamente passivo. Claro que isso também custou a El Peque muitos erros e o saque, pouco efetivo, não conseguia confirmar as quebras.

Foi totalmente fora do padrão ver Nadal perder tantos serviços: cinco nos sete primeiros, com 12 break-points oferecidos e média de 55% de acerto do primeiro saque. Não resta dúvida que a primeira parada pela chuva se tornou providencial. Rafa conseguiu refazer seu plano tático e retornou com golpes bem mais profundos. Schwartzman tinha então 3/2 e saque, recuperou de um 30-40 e aí cometeu um erro absurdo de voleio que gerou a quebra e a reação animada de Nadal. Aí, com 5/3 e 30-15, pronto para empatar tudo, São Pedro jogou contra o espanhol.

Delpo e Cilic haviam jogado bem menos, mas ainda assim já eram 73 minutos de um primeiro set sem quebras. Cilic salvou seis break-points antes de ir ao tiebreak – três deles quando voltaram à quadra após a primeira parada – e aí abriu 5-3 antes de ceder o empate. Por seus estilos bem menos pacientes, os dois grandalhões tendem a um desgaste menor. O croata já somava 11 aces e 22 winners (diante de apenas 5), mas também errou muito mais (23 a 12). Cada um venceu apenas quatro pontos contra o primeiro serviço adversário. Duvido que esse ritmo mude na retomada de quinta-feira.

Resumo da ópera: mais uma vez, Roland Garros mostra esse aspecto tão diferenciado do torneio parisiense, em que o clima pode mudar drasticamente de uma hora para outra, trazendo componentes novos e inesperados. Exige portanto adaptação. Como brincava um amigo, jornalista precisa estar preparado para o imponderável. Tenistas, também.

Claro que a interrupção vai causar o velho burburinho sobre a necessidade da quadra coberta em Roland Garros. Se o teto já existisse, as rodadas de quartas de final em diante estariam garantidas, e isso faz diferença.

E a coisa pode piorar, porque a previsão é que chova 50% na sexta e 80% no sábado e domingo. Aliás, 80% na segunda-feira também. Como as obras ainda estão muito incipientes, expectativa de cobrirem a Chatrier está em 2020.

Vale número 1
Não existe nada mais saboroso do que um duelo importante de Grand Slam que valha também a liderança do ranking. O ingrediente está garantido para o encontro entre a atual número 1 Simona Halep e a campeã de 2016 Garbiñe Muguruza. É o típico ‘jogo grande’. Muito grande.

A espanhola recuperou-se totalmente em Roland Garros, já que vinha de apenas duas vitórias em três torneios no saibro europeu. Sequer perdeu sets até agora em Paris e atropelou impiedosamente Maria Sharapova. E soltou uma frase curiosa: “A liderança tem pouca importância neste momento”. Ela tem um dos reinados mais curtos da história do ranking, com apenas quatro semanas.

Embora goste muito de Muguruza, torço para que Halep enfim conquiste seu Grand Slam. Vai para sua terceira semi em Paris com confiança, depois de virar com estilo em cima da canhota Angelique Kerber. Vice em 2014 e 2017, a romena soube trabalhar melhor seu primeiro serviço e com isso correu menores riscos. Talvez seja boa estratégia diante de Muguruza, para quem perdeu três de quatro duelos mas venceu o único sobre o saibro, há três anos.

A outra vaga na final é norte-americana, entre Sloane Stephens e Madison Keys, que nunca foram tão longe em Roland Garros. Impossível negar que Stephens tem o favoritismo. Além do ranking superior e de 2-0 nos confrontos, parece ter sangue mais frio, como provou na duríssima vitória sobre Camila Giorgi lá na terceira rodada.

Hermanos gigantes
Por José Nilton Dalcim
4 de junho de 2018 às 18:33

Dois dos 12 melhores tenistas do ranking, Juan Martin del Potro e Diego Schwartzman atingiram nesta segunda-feira as quartas de final de Roland Garros por caminhos bem opostos. Se Delpo ganhou o duelo de saques e devoluções diante de John Isner, num jogo bem menos apropriado ao saibro do que a uma quadra rápida, Diego conseguiu uma virada impressionante sobre outro grandalhão do circuito, Kevin Anderson.

As chances de os dois argentinos darem mais um passo é igualmente distinta. Delpo tem um histórico muito favorável diante de Marin Cilic, embora a maior parte do placar de 10 a 2 tenha sido construída até 2013. Ainda assim, o argentino ganhou os dois duelos mais recentes, incluindo a inesquecível virada na decisão da Copa Davis de 2016.

Há muito tempo Del Potro deixou de ser um típico jogador de saibro, mas ainda o vejo bem mais adaptado ao piso do que Cilic. Basta ver a dificuldade que o croata teve para superar o contundido Fabio Fognini. Não menos interessante é o fato de que a partida de quarta-feira entre os campeões de US Open valerá também o quarto lugar do ranking.

Schwartzman superou um adversário 35 centímetros mais alto, que teve o jogo nas mãos duas vezes, com 5/3 no terceiro set e 5/4 no outro. É bem verdade que Anderson falhou mentalmente, porém El Peque jamais desistiu e fez um brilhante quinto set para atingir as quartas de um Slam pela segunda vez. Está grudado no tão sonhado top 10. Porém, para atingir a façanha, terá de obter algo inimaginável, ou seja, ganhar as duas próximas rodadas.

Sim, porque a ‘mala suerte’ dos hermanos é estar no caminho de Rafa Nadal. É fácil recordar o esforço hercúleo que Diego fez no recente duelo de Madri contra o número 1, não conseguindo mais do que uma quebra de serviço e sete games. Aguentar essa pressão por três, quatro ou cinco sets parece não estar ao alcance de Schwartzman, por mais guerreiro que seja.

Nadal fez outra grande exibição em Roland Garros. Talvez a demora na adaptação a um adversário canhoto de golpes pesados explique seu começo instável, em que Maximilian Marterer teve uma bola de meio de quadra para ir a 3/1. Assim que calibrou seu forehand, o espanhol mostrou aquele volume assombroso.

É bem verdade que a intensidade caiu por uns instantes no terceiro set e o valente alemão voltou a lhe tirar o serviço e aí sim fazer 3/1. Rafa reagiu e Marterer mostrou não apenas competência técnica mas também controle emocional para empurrar a decisão ao tiebreak, onde por fim o canhoto espanhol colocou ordem na casa, fechando a vitória com 39 winners, 17 pontos junto à rede e quatro aces. Versatilidade a toda prova.

Um dia depois de festejar os 32 anos, Rafa também comemorou a 900ª vitória de primeira linha, a 234ª de Grand Slam (que o desgruda de Jimmy Connors) e a 12º presença nas quartas de Roland Garros. De quebra, já soma 37 sets consecutivos em Paris e está a quatro da marca incrível de Bjorn Borg, que pode cair após 37 anos. Motivações não faltam a Rafa, dia após dia. Pobre ‘hermanos’.

Frustração no feminino
Como foi estranho e desalentador o complemento da quarta rodada da chave feminina. Nos quatro duelos previstos, foram disputados 35 games e, somando-se tudo, houve apenas 2h26 de bola rolando, menos do que duraram os compromissos de Rafa ou de Delpo.

Garbiñe Muguruza jogou apenas 13 pontos antes de ver Lesia Tsurenko abandonar, Simona Halep e Angelique Kerber arrasaram Elise Mertens e Caroline Garcia. Até mesmo o complemento do jogo suspenso de domingo foi muito rápido, já que Daria Kasatkina acabou com o sonho de Carol Wozniacki em apenas mais três games.

Mas claro que a decepção absoluta foi a desistência de Serena Williams. Nem foi para a quadra, vitimada por dor muscular no peito e sem condições de sacar. Aliás, isso já havia ficado claro na dupla que disputou na véspera. Provavelmente, não teria feito diferença, mas jogar essa partida no domingo foi uma mancada.

Sem entrar em quadra, Maria Sharapova não pôde encerrar o jejum contra Serena, mas ganhou um dia de descanso para tentar o não menos difícil desafio de encarar Muguruza nas quartas de final.

Segundo levantamento de Felipe Priante, os oito jogos de quarta rodada feminina tiveram média de 59 minutos e apenas um passou de 90.

A terça-feira
– Zverev e Thiem são os tenistas com maior número de vitórias na temporada (34 a 33). O duelo direto indica 4-2 para Thiem, porém Zverev o venceu semanas atrás em Madri.
– Alemão somou 11 horas de quadra em seus 3 últimos jogos, Thiem não teve nenhuma partida mais longa do que 2h40.
– Se mantiver o favoritismo sobre Cecchinato, a quem nunca enfrentou, Djokovic somará 32 semis de Slam e se isolará no segundo lugar no quesito.
– Número 73 do ranking, italiano pode ser jogador de mais baixo ranking na penúltima rodada de Paris desde Medvedev, em 1999. Em caso de vitória, Cecchinato entrará no top 30.
– Kasatkina tem 1-1 frente Stephens, mas venceu em março em Indian Wells. Se for adiante, russa terá grande chance de enfim chegar ao top 10, a menos que Sharapova seja campeã.
– Keys enfrentou uma vez Putintseva, com vitória em 2016. Aos 23 anos mas sem títulos de WTA, russa joga como cazaque mas mora em Miami. Tenta pela segunda vez uma semi no saibro de Paris.

Desumano
Por José Nilton Dalcim
18 de janeiro de 2018 às 11:45

O Australian Open decidiu colocar à prova a resistência e a paciência dos tenistas. Obrigados a entrar em quadra com 39 graus e 10% de umidade, a rodada desta quinta-feira foi quase desumana. Mesmo a fase noturna começou com 34 graus, embora claro protegida do sol. O pior é que gigantesco desgaste tão cedo na chave pode causar estragos irreparáveis lá na frente.

Novak Djokovic admitiu que estava “no limite” de suas condições físicas e mentais no meio de uma tarde infernal. E disparou críticas à organização, afirmando que o tênis virou mais um negócio. “Precisamos ter uma conversa racional sobre as regras e talvez impor coisas importantes”, disparou. Antes do torneio, ele já havia reclamado da premiação dada aos tenistas nos Grand Slam.

Na quadra, o jogo contra Gael Monfils foi sofrível. Os dois jogaram um primeiro set ruim, forrado de erros bobos, e Monfils cansou primeiro diante das condições extremas. “Foi um desafio para nós dois terminar a partida”, enfatizou Nole, que pouco a pouco impôs sua qualidade na precisão das trocas de fundo.

O hexacampeão admitiu que o cotovelo direito não está 100%, o que ficou evidente com as 11 duplas faltas cometidas. No sábado, vai encarar o consistente canhoto Albert Ramos, que não dá bolas de graça como Monfils mas perdeu todos os 10 sets disputados contra Nole.

O ponto mais frágil de Roger Federer foi o aproveitamento de primeiro saque: 56%, apesar dos 17 aces. Não é um índice relevante, mas ele se virou muito bem com o segundo, mesclando efeitos e direções, e com isso perdeu apenas 13 desses pontos. O alemão Jan-Lennard Struff não é ruim num piso tão veloz. Saca firme, vai para cima. Federer inteligentemente usou a devolução com slices muito baixos, porém ainda assim só conseguiu uma quebra em cada set. O suíço perdeu um serviço sem sentido e quase entregou o terceiro set. O próximo adversário é Richard Gasquet, um velho conhecido, que ganhou duas vezes no saibro e perdeu as últimas 11.

O atual campeão ainda pode comemorar a saída precoce de David Goffin, que levou virada do veterano Julien Benneteau, o que deixa Juan Martin del Potro com maior potencial de ser seu adversário de quartas. O argentino saiu morto de quadra e encara Tomas Berdych. Vi os dois jogos do tcheco e fiquei impressionado com o rapaz. Cuidado com ele.

A se lamentar a volta das dores no joelho operado de Stan Wawrinka, totalmente dominado por Tennys Sandgren. Quem parece perdido neste começo de temporada é Sam Querrey, muito abaixo de um padrão top 20. Dominic Thiem venceu num tremendo esforço e corre risco diante do canhoto Adrian Mannarino.

Os problemas físicos também vitimaram Garbiñe Muguruza, ainda que a queda para Su-Wei Hsieh tenha sido mais precoce do que o esperado. Aliás, Johanna Konta, Anastasija Sevastova e Elena Vesnina também se despediram. Excelente atuação de Maria Sharapova e o cruzamento com Angelique Kerber deve ser o ponto alto de toda a terceira rodada feminina. Simona Halep não sentiu a torção e atropelou Eugenie Bouchard.

Bia Haddad não se achou na quadra tão veloz. Karolina Pliskova impôs um ritmo alucinante e o erro da brasileira talvez tenha sido tentar jogar de igual para igual com a tcheca, o que apressou demais os erros e a partida de apenas 44 minutos. Mas, convenhamos, o peso da bola da ex-número 1 é grande para se tentar variações e foram raras as vezes em que Bia conseguiu encaixar uma paralela. O fato é que a canhota paulista ainda está distante do grupo de elite do tênis feminino. Tenhamos paciência.