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O adeus do guerreiro
Por José Nilton Dalcim
28 de agosto de 2018 às 00:39

Mais do que a esperada classificação de Rafael Nadal, a segunda-feira do US Open marcou a última partida de Grand Slam do batalhador David Ferrer. Mesmo antes de ir à quadra em que um dia derrotou Rafa, uma década atrás, o veterano de 36 anos anunciou que esta seria sua derradeira apresentação num Grand Slam e que fará um calendário de despedidas em 2019.

Para um tenista de 1,75m em que potência raramente foi um elemento de destaque, Ferrer conquistou 145 vitórias de nível Grand Slam, com 63 derrotas. Jogador talhado para o saibro, venceu 44 de 60 jogos em Roland Garros, mas também obteve 41 triunfos na Austrália, 32 no US Open e 28 em Wimbledon. Ou seja, atingiu uma considerável versatilidade, razão pela qual se manteve heroicamente quase seis temporadas seguidas entre os top 10.

Para muita gente, merecia ter levado um Slam. A única chance veio na final de Paris de 2013 diante de Nadal e não tirou mais do que oito games. Seu azar foi não ter atingido um nível mais alto sobre o saibro antes de Rafa iniciar seu domínio na superfície em 2005. Quis o destino que seu adeus dos Slam acontecesse justamente contra o amigo, num jogo que foi o espelho de sua carreira: gigantesco esforço de conseguir o impossível ainda por cima com doloroso problema na panturrilha. Lutou além do que dava.

Aliás, a segunda-feira também marcou as despedidas em nível Slam de Gilles Muller e Florian Mayer e na terça espera-se o adeus de Julien Benneteau e Mikhail Youzhny. Mas para provar que vale persistir, Paolo Lorenzi, 36 e fora de seu habitat, ganhou de Kyle Edmund, 23, numa tremenda surpresa.

A rodada teve vários destaques. O vice Kevin Anderson sofreu com dores musculares e foi ao quinto set contra Ryan Harrison, algo nada promissor. Stan Wawrinka de novo tripudiou em cima de um perdido Grigor Dimitrov, Andy Murray mostrou bom poder de reação num dia de extremo desgaste físico em Nova York e Juan Martin del Potro soube se poupar na rodada noturna.

A nova geração foi bem com Stefanos Tsitsipas, Borna Coric, Karen Khachanov e Denis Shapovalov, mas o aguardado duelo dos prodígios canadenses decepcionou primeiro pelo excesso de erros e depois pelo abandono de Felix Aliassime em lágrimas incontidas, devido a batimentos cardíacos acelerados.

Dá para visualizar a terceira rodada com Wawrinka x Raonic, Del Potro x Murray, Anderson x Shapovalov e Coric x Tsitsipas, dignas finais de campeonato.

O feminino viu uma verdadeira hecatombe com a queda de Simona Halep no primeiro jogo da Arthur Ashe. Se é evidente que a romena sentiu o peso de ser cabeça 1 num lugar onde nunca se sentiu tão à vontade, muitos elogios à postura de Kaia Kanepi, que não pensou duas vezes para descer o braço.

Serena Williams por sua vez começou tensa e depois fez um belo segundo set, controlando bem a ansiedade e usando mais recursos, como voleios e deixadinhas. A irmã mais velha fez talvez o melhor jogo do dia contra Sveta Kuznetsova em seu 20º US Open. As duas Williams jamais perderam uma primeira rodada em Flushing Meadows.

Derrotas que vão custar caro: Sam Querrey perderá pelo menos 24 postos, Andrey Rublev cairá 28 e Mischa Zverev, 13. Todos vão deixar o top 60. Já Aga Radwanska já foi parar no 55º.

Quem pode ameaçar Nadal no saibro?
Por José Nilton Dalcim
11 de abril de 2018 às 20:20

Que Rafael Nadal é o candidato natural e óbvio a todos os títulos que disputar no saibro europeu, todo mundo sabe. A grande dúvida para a segunda fase desta temporada é se existe alguém capaz de fazer frente a ele, já que a terra batida de hoje conta com tão poucos especialistas.

Em 2017, vimos David Goffin desafiar o espanhol no saibro lento de Monte Carlo, num jogo polêmico. Dominic Thiem foi surrado em Barcelona, deu mais trabalho em Madri, ganhou enfim em Roma mas depois levou aula em Paris. Mas ambos são enorme dúvida desta vez. Goffin não se recuperou da bolada que deu em seu próprio olho em Roterdã e, na única partida desde então, foi um fiasco. Thiem torceu o tornozelo em Indian Wells e não jogou mais.

Alexander Zverev é o atual campeão de Roma em cima de Novak Djokovic, uma campanha inesperada mas que só teve mesmo um outro autêntico saibrista, Fabio Fognini, no caminho. Dias atrás, na Copa Davis, mostrou sua instabilidade: atropelou David Ferrer e perdeu feio de Nadal. O que resta? Djokovic, claro, e quem sabe Wawrinka. Ambos são excepcionais jogadores sobre a terra, porém vivem momentos de pouca inspiração, físico duvidoso e consequentemente confiança lá embaixo.

A composição das chaves parece ingrediente fundamental e pode premiar tenistas ainda menos cotados, como Ferrer, Fognini, Lucas Pouille e Pablo Carreño. Admiro particularmente o arsenal de Pouille, a quem ainda falta acreditar um pouco mais em si mesmo para tentar algo grande.

Os pontos e as defesas
A temporada de saibro que serve de aquecimento para Roland Garros é composta por 12 torneios distribuídos em sete semanas, dos quais três são de nível 1000 e um 500. Os oito 250 estão divididos em quatro blocos, o que significa que um tenista poderá jogar no máximo sete campeonatos antes de chegar a Paris, já que o 500 de Barcelona coincide com um 250.

A grosso modo, portanto, estão em jogo 6.250 pontos em todas as nove semanas sobre a terra e daí se vê o feito espetacular de Rafa no ano passado, tendo somado 4.680, ou seja, 75% do total possível. Muito atrás, aparece Thiem, com menos da metade.

Veja quem mais somou nesta fase e portanto o que cada um tem a defender no saibro:
Rafael Nadal – 4.680 (títulos em Mônaco, Barcelona, Madri e Paris)
Dominic Thiem – 2.070 (final em Barcelona e Madri, semi em Paris)
Stan Wawrinka – 1.640 (campeão em Genebra e final em Paris)
Novak Djokovic – 1.500 (final em Roma, semi em Madri, quartas em Paris)
Alexander Zverev – 1.440 (campeão em Roma)
Andy Murray – 1.090 (semi em Paris)
Marin Cilic – 980 (campeão em Istambul)
Pablo Carreño – 800 (campeão em Estoril)
Lucas Pouille – 730 (campeão em Budapeste)
David Goffin – 720 (semi em Mônaco)

Dos atuais top 10, dois tiveram desempenho fraco no saibro em 2017 e portanto poderiam ter um grande lucro: Juan Martin del Potro, com apenas 270, e Grigor Dimitrov, com 190. Mesmo tendo anunciado um calendário restrito a Madri, Roma e Paris, o argentino se mostra forte concorrente ao terceiro lugar do ranking, já que está apenas 515 pontos atrás de Cilic. Já o búlgaro, inscritos nos três Masters e em Barcelona, está logo à frente de Delpo e ainda mais perto do croata: 350 pontos.

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Paciência, Djokovic
Por José Nilton Dalcim
12 de março de 2018 às 11:16

Por sete ou oito games, Novak Djokovic animou. Diante de um adversário tecnicamente inferior e nervoso, executou quase todo seu conhecido repertório: bolas profundas, saque variado, ataque na paralela e voleios vistosos. Até me surpreendeu. Na hora de fechar o set, faltou determinação e daí em diante o jogo diante de Taro Daniel, mero 109º do mundo, virou uma gangorra, regada a uma infinidade de golpes no meio da rede ou além da linha de dupla. Faltaram pernas no terceiro set.

A rigor, nada de errado nisso tudo. Djoko jogou apenas sua quinta partida desde julho do ano passado e temos de considerar que a campanha no Australian Open esteve o tempo todo associada à dor no cotovelo e a incertezas. É primordial antes de tudo se livrar do medo, e esse é um processo que pode ser mais rápido ou menos veloz conforme cada um.

Como já cansei de dizer aqui, confiança no tênis não vem com jogadas bonitas ou lances mirabolantes, mas com vitórias, qualquer que seja ela. Então Nole precisará de paciência e olhar o retorno pelo lado positivo: a não ser por um momento em que alongou o braço, não houve qualquer sinal de desconforto em relação ao problemático cotovelo. Ele já indicou que vai a Miami também.

Preocupante mesmo é a situação de Alexander Zverev, que parece ter perdido o rumo, joga um tênis com pouca criatividade e, mais grave ainda, parece estar com dificuldade clara de conviver com as frustrações naturais do dia a dia. Não que João Sousa seja sem predicados, mas a sequência de resultados ruins é alarmante.

Levou uma surra de Juan Martin del Potro em Acapulco, não se achou contra Andreas Seppi em Roterdã e perdeu completamente o juízo no quinto set diante de Hyeon Chung em Melbourne, apenas para citar os três exemplos mais gritantes. No meio disso tudo, dispensou o treinador Juan Carlos Ferrero e bateu boca publicamente com ele.

Por falar em Delpo, ele merece especial atenção em Indian Wells. Vem de campanha limpa em Acapulco e tem caminho aberto rumo à semifinal com Marin Cilic. Claro que deve respeitar David Ferrer na próxima rodada, porém me arrisco a dizer que Del Potro está jogando seu melhor tênis desde a campanha olímpica, especialmente porque o backhand está bem mais solto. Do jeito que Zverev e Grigor Dimitrov estão jogando, ele é sério candidato a ocupar o quarto posto do ranking antes mesmo do saibro europeu.

Na chave feminina, confirma-se a expectativa em cima de Amanda Anisimova, aquela norte-americana de pai russo que desfilou nos torneios juvenis brasileiros de 2017. Ainda aos 16 anos, tem tênis de gente grande. Bate de forma simples e eficiente, busca sempre a definição dos pontos e trabalha com o saque para ser agressiva já na segunda bola. A forma com que dominou Petra Kvitova é para poucas. Excelente aposta para futuro a curto prazo.

Nestas duas rodadas iniciais de Indian Wells, me chamaram a atenção duas coisas: a qualidade baixa da arbitragem, com uma quantidade assustadora de marcações mal feitas. Houve uma chamada fora no sábado para uma bola que estava um palmo dentro da quadra. Nunca tinha visto algo tão gritante. E a outra é o jogo horroroso entre Gael Monfils e John Isner, com uma dúzia de lances bonitos e uma soma pavorosa de lances mal executados. O gigantão ganhou dois jogos na temporada até agora e Monfils está cada dia menos comprometido com a carreira.