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Desastre na Davis exige mudanças
Por José Nilton Dalcim
2 de fevereiro de 2019 às 19:19

Entre tantas frustrações e decepções com o tênis brasileiro, esta derrota para a Bélgica é especialmente dolorosa. Chance de o esporte recuperar um prestígio decadente nos últimos 18 meses, jogávamos em casa, no saibro, contra um adversário muito desfalcado. De coadjuvantes regionais da Copa Davis, estava aberta a fresta para disputarmos a milionária, ainda que polêmica, fase final da competição, em novembro, na magnífica Caja Magica.

Thiago Monteiro e Rogerinho Silva vinham de títulos de challengers no começo de temporada, quebrando jejuns e mostrando um jogo reabilitado, e estava tudo pronto para uma festa em Uberlândia para alavancá-los e inspirar os demais. Deu quase tudo errado. Quem brilhou foi o campeão juvenil de Roland Garros de 2012, Kimmer Coppejans, que nunca embalou como profissional nem mesmo no saibro.

Não gosto do jogo de caça às bruxas e nem acho apropriado ficar se procurando culpados. Já recebi centenas de mensagens inconformadas, condenando a escalação de Marcelo Melo. Tantos outros, defendendo a opção pelo juvenil Thiago Wild. No primeiro caso, é preciso ver se Melo mostrou alguma debilidade durante os treinamentos – e quem esteve lá me garante que não – e, no outro, há uma distância enorme de experiência e ranking entre Rogerinho Silva e a esperança paranaense.

Também é bastante razoável alegar que a escolha do saibro coberto não foi correta, ainda que a altitude de Uberlândia tenha incomodado os belgas. Concordo totalmente que jogar num saibro lento e num calor sufocante seria muito mais recomendável, no entanto há duas coisas a se considerar. A primeira é que a sede tem de ser apontada muito antes da convocação e naquele momento era difícil apostar que David Goffin não viria. Depois, existe a questão financeira e a Prefeitura de Uberlândia ajudou a pagar uma conta pesada que o Grupo Mundial gera num momento em que a Confederação perdeu seu principal patrocinador.

Pelo sim, pelo não, precisamos aproveitar mais um desastroso resultado para buscar uma mudança de mentalidade. Trocar o comando da Davis por nomes como André Sá, Jaime Oncins ou Marcos Daniel é mais do que oportuno. Além de dar uma vida nova ao grupo, são pessoas muito comprometidas com a ideia da ênfase no trabalho de base, que é prioridade zero do tênis brasileiro.

A realidade nua e crua é que tivemos um único jogador tecnicamente diferenciado na última década, mas aquele Thomaz Bellucci desapareceu. Todos os demais, em que pese esforço e seriedade, mal conseguiram se sustentar no top 100. Então não adianta alimentar um sonho de sucesso na Davis se nos faltam matéria prima, versatilidade nos pisos, um líder autêntico e um grupo mais homogêneo.

Assim, ainda que tenhamos agora de jogar em setembro pelo Zonal Americano – a vitória garantirá vaga nesse qualificatório mundial em fevereiro de 2020 -, me parece sensato pensar menos no imediatismo do resultado e sim em semear uma base mais sólida, abrindo espaço para quem estiver se destacando na nova geração. Uma derrota com WIld, Orlando Luz ou João Menezes vai doer muito menos.

A desolação aumenta quando vemos países aqui da América, como Chile e Canadá, tirando lucro da qualidade na sua renovação. O espelho disso foi a classificação de quatro garotos para a final da Davis. E jogando fora de casa. Os chilenos de Nicolas Jarry ganharam o ponto decisivo com Christian Garin em cima da desfalcada Áustria e os canadenses colocaram Denis Shapovalov e Felix Auger-Aliassime em simples e duplas na vitória também no quinto jogo contra a Eslováquia.

Aliás, Estados Unidos, Argentina e Colômbia também estarão em Madri. Das potências americanas, somos os únicos de fora. Que sábado triste.

Cinco cidades se candidatam para Davis no Brasil
Por José Nilton Dalcim
8 de outubro de 2018 às 14:28

Fortaleza, Salvador, Belo Horizonte, Uberlândia e Florianópolis são as cinco cidades que manifestaram desejo de sediar o duelo entre Brasil e Bélgica pela fase classificatória da nova Copa Davis, no primeiro final de semana de fevereiro.

Segundo Rafael Westrupp, presidente da Confederação Brasileira, as propostas estão sendo avaliadas, mas a definição poderá acontecer somente no final de outubro, já que a Federação Internacional decidiu dar maior flexibilidade aos países mandantes.

Obviamente, Fortaleza e Salvador colocarão os belgas sob o fortíssimo sol de verão nordestino. O clima pode estar um pouco mais ameno em Florianópolis. Esses três locais são ao nível do mar e, com a umidade natural, deixam as condições mais lentas.

As postulantes mineiras, ao contrário, estão a mais de 850 metros do nível médio do mar, bem parecido com São Paulo, e isso dá maior velocidade ao jogo. Uberlândia, que também costuma ser bem quente no verão, tem sediado vários eventos da CBT e me parece uma das mais fortes candidatas.

Curiosamente, no entanto, Westrupp garante que a comissão técnica ainda não bateu o martelo que o piso será o saibro, talvez porque a terra também seja a superfície predileta do número 1 belga David Goffin. Mas se as chances brasileiras residem em vencer o número 2 visitante e a dupla, então nem dá para imaginar outra coisa que não seja o saibro.

A nova Copa Davis realizará em fevereiro a fase classificatória, com 24 países se enfrentando dois a dois, e os vencedores avançam para a milionária fase final de Madri, em novembro, composta por 18 países. Embora a Federação Internacional não tenha frisado, o fato de acontecer na ‘Caja Magica’ faz supor que os duelos serão no saibro coberto.

Esses confrontos classificatórios serão disputados em melhor de três sets e apenas em dois dias, sendo duas simples no sábado e duplas e mais duas simples no domingo. Cada país pode convocar cinco jogadores. O prazo para definir os times continua o mesmo: 10 dias anteriores à competição, o que provavelmente vai adiar a convocação para a primeira semana do Australian Open.

Surpresas antes de Xangai
Dois campeões inesperados nos ATP 500 prévios a Xangai. Daniil Medvedev ganhou Tóquio em cima de Kei Nishikori, que amarga oito vices seguidos desde fevereiro de 2016. O russo de 22 anos tem tudo para terminar o ano no top 20. Notável também a campanha de Nikoloz Basilashvili em Pequim, ainda que tenha se aproveitado de um debilitado Juan Martin del Potro na final.

Isso leva a conclusões importantes: com a ausência de John Isner em Xangai, apenas Nishikori ainda tem chance de brigar por vaga no Finals durante esta semana. O norte-americano vai tentar uma esticada decisiva em Estocolmo, Viena e Paris, mas está no momento 600 pontos atrás de Dominic Thiem e Kevin Anderson. O japonês vem 100 pontos mais distante de Isner. Marin Cilic deve se garantir nesta semana, desde que não perca na estreia.

Xangai assiste à briga tríplice pela vice-liderança do ranking. Roger Federer defende o título e só pode permanecer com os mesmos 6.900 pontos. Novak Djokovic precisa ir à final para assumir o posto sem depender do suíço. E Del Potro corre por fora, mas necessita não apenas do troféu mas também da queda de Djoko até as quartas.

E mais. Se for campeão, Djokovic sairá de Xangai apenas 215 atrás de Nadal no ranking tradicional. Caso dê Federer, o suíço estará a 760 do espanhol. E se for Delpo, 890. Ou seja, com um ATP 500 a disputar antes de Paris, qualquer um dos três pode desafiar o espanhol em Bercy.

Brasil dá sorte e pode sonhar na Davis
Por José Nilton Dalcim
26 de setembro de 2018 às 20:58

Só houve boa notícia para o tênis brasileiro no sorteio para o qualificatório de fevereiro da Copa Davis, que pelo novo regulamento dará vaga a 12 países na fase final de novembro, que vale pelo título geral da centenária competição por países. Se chegar lá e ficar entre os 18 da elite, vai ter um bom dinheiro para todo mundo.

O detalhe mais importante foi jogar em casa, o que permitirá muito provavelmente atuarmos sobre o tão amado saibro. A outra coisa boa: a Bélgica é um time forte, finalista de 2017 e que tem estado no Grupo Mundial seguidamente desde 2013. É muito provável que David Goffin venha e isso garante oportunidade de boa promoção e de vermos um tênis de qualidade.

Somando-se isso tudo, a grande notícia mesmo está no fato de que a chance de avançarmos não é nada desprezível. Claro que Goffin deve ganhar seus dois jogos de simples, mas a Bélgica não tem um outro especialista na terra, muito menos duplistas de peso. Ou seja, a oportunidade de marcarmos três pontos é bem alta.

Claro que estamos muito distantes do duelo, mas a lógica diz que hoje a Bélgica teria como segundo jogador de simples Kimmer Coppejans, de 24 anos, ex-97º do ranking mas agora 208º colocado. O atual número 2 é Ruben Bemelmans, porém ele tem pouca intimidade com o saibro.

Coppejans, no entanto, só foi chamado cinco vezes para o time da Davis e jogou efetivamente dois confrontos, com uma vitória de simples (em três jogos) e outra de duplas. É um currículo pequeno. Aliás, em nível ATP, ele só disputou oito partidas até agora com uma única vitória!

A outra opção, mais arriscada, seria o experiente e versátil Steve Darcis, que já foi 38º do mundo e é um ‘casca dura’. Mas o tenista de 34 anos não jogou uma única partida nesta temporada devido a persistente problema no cotovelo e nem se sabe se estará em condições até fevereiro.

A dupla também está muito a favor do Brasil. Os belgas jogaram a última rodada com seus atuais top 100 Sander Gille e Joran Vliegen, mas chegaram a usar bastante Joris de Loore e Bemelmans. Nenhum deles costuma atuar juntos ou soma sequer três vitórias em nível ATP. O favoritismo da eventual parceria de Bruno Soares e Marcelo Melo é gigantesco.

Quanto a local, nem vale muito espetacular, porque a regra que mais vale é a financeira. A cidade que oferecer as melhores regalias à Confederação Brasileira, leva. Pode ser São Paulo ou Belo Horizonte, que têm altitude que agrada Thomaz Bellucci e Thiago Monteiro, ou irmos para o sufoco de um saibro lento à beira mar em Florianópolis ou Salvador, que seria bem útil para a excelente forma física de Rogerinho Silva. Vale lembrar que o quali terá dois dias apenas, com as quatro simples e a dupla em formato melhor de três sets.

Vai haver renovação no time brasileiro? Infelizmente, é bem pouco provável. Por dois motivos um tanto óbvios. Não há ninguém se destacando para valer na nova geração. E em Davis desse nível tão importante, fica difícil arriscar um estreante.

Claro que existe a não desprezada hipótese de Rogerinho manter seu afastamento do time ou Bellucci não se recuperar, o que abriria num primeiro momento as portas para Guilherme Clezar. Temos também uma reta final de temporada com vários challengers na América do Sul e quem sabe algo espetacular aconteça com Orlando Luz ou Thiago Wild. Não custa torcer.

Teste para a Nova Davis
Os outros 11 confrontos que definirão finalistas de novembro têm alguns duelos curiosos: Índia x Itália, Suíça x Rússia, República Tcheca x Holanda, Áustria x Chile, Uzbequistão x Sérvia e China x Japão. Outros fracos, como Colômbia x Suécia. E favoritismo amplo para Austrália x Bósnia e Alemanha frente Hungria. Ainda aguardam adversários Canadá e Cazaquistão.

Será a primeira oportunidade para ver se os melhores do mundo vão mesmo abraçar o novo formato da Davis, porque eles serão importantes para seus países na classificação à final. Sem falar que estamos já em ciclo olímpico e o pessoal precisa cumprir o regulamento se quiser pleitear seu lugar em Tóquio.

Por fim, registre-se o convite bem dado para Argentina e Grã-Bretanha disputarem a final de novembro sem passar pelo quali. Essa história de convidado foi a parte que não gostei do novo regulamento. Deveriam ter deixado mesmo 16 países, com quatro grupos de quatro, com cada campeão de chave indo para a semi. Mais simples e justo.