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Puro mérito
Por José Nilton Dalcim
27 de fevereiro de 2018 às 15:19

Frances Tiafoe tem uma história curiosa. Os país fugiram da guerra civil em Serra Leoa e foram para Londres em 1988. Tiafoe Sr. precisou até mudar de nome. Foi como Constant Zubairu que ele chegou a Maryland em 1993 e arrumou emprego para ajudar na construção do centro de treinamento. Mesmo sem nunca ter visto tênis na vida, conseguiu ficar na manutenção das quadras e zelador. Passou a dormir lá com os filhos gêmeos Frances e Franklin, que aos seis anos começaram a dar raquetadas.

“Sinto que estou nas quadras há 35 anos. Estive aqui minha vida toda, acho que só o poste da rede está lá há mais tempo do que eu”, brincou o prodígio Frances quando, aos 15 anos, se tornou o mais jovem campeão do Orange Bowl, mais precoce do que Roger Federer, Bjorn Borg ou John McEnroe.

O fato é que Frances aproveitou cada pequena chance que teve e uma frase em particular chama a atenção: “Nada me foi dado, tive de trabalhar duro, merecer cada coisa conquistada. Estou muito grato por tudo que já alcancei”.

Patrick McEnroe, então diretor de desenvolvimento da USTA, sentenciou em 2014 que Frances seria o próximo número 1 nacional no ranking da ATP, embora a entidade tenha uma parcela de culpa na demora de sua explosão, já que voltou os olhos para seu potencial um tanto tardiamente.

Depois do inesperado título em Delray Beach no domingo, agora com 20 anos, Frances retornou ao 61º lugar do ranking e é apenas o oitavo norte-americano mais bem classificado, distante do top 10 Jack Sock. Mas o arrojado tenista de 1,88m e 77 quilos de puro músculo, criado no saibro e desenvolvido para o piso duro, fã de Juan Martin del Potro, tem armas para ir bem mais longe.

O candidato
A conquista de Diego Schwartzman ajudou muito o Rio Open. A derrota precoce dos brasileiros e o tênis pouco convincente das estrelas Marin Cilic, Dominic Thiem e Gael Monfils ficaram para trás diante do ‘baixinho’ de tantos recursos, que saltou para o top 20. Até o veterano vice Fernando Verdasco agradou, exceto pela final de poucas pernas. É bom ficar de olho em El Peque no saibro europeu.

O Rio Open ainda não desistiu de trocar o saibro pela quadra dura e basta ver Acapulco para entender isso. Uma primeira rodada com Nadal x Feliciano, Nishikori x Shapovalov, Delpo x Mischa, Ferrer x Rublev causa inveja. Sem falar que o torneio ainda tem Chung, Anderson, Sock e perdeu de última hora Cilic e Kyrgios. Ah, Diego e Verdasco duelam logo de cara.

A salvação
Não é de hoje que defendo uma mudança radical na Copa Davis. Escrevi algumas vezes que o sistema mais interessante seria a disputa em duas semanas, num formato de quinto Grand Slam, o que permitiria a presença dos melhores do mundo e divulgação expressiva do evento. Eis que enfim surge o projeto a ser votado em agosto para modificar a competição em 2019.

A saudável proposta é fazer tudo numa única semana, com 18 países competindo pelo título e outros jogando a repescagem de acesso, tudo regado a farta premiação. A sede seria trocada a cada edição, outra proposta excelente. Acho que a Davis achou o caminho da salvação.

Frases de efeito
Algumas passagens muito interessantes na entrevista de Ivan Ljubicic ao site da ATP:
– ‘Procuro falar pouco, assim quando falo o jogador absorve logo’
– ‘Fui jogador de alto nível, então entendo o que acontece lá dentro da quadra’
– ‘Como treinador, você tem de colocar o ego de lado. O chefe é o seu tenista’
– ‘Não importa o quanto é boa a relação técnico-tenista. Se não houver vitórias, os problemas surgirão’.

La Ensaladera em mãos dignas
Por José Nilton Dalcim
27 de novembro de 2017 às 20:46

Apesar de todas as críticas que sofre, muitas delas justas, a Copa Davis continua a ser um grande espetáculo, especialmente nas rodadas finais. Nos últimos oito anos, o torneio por países viveu decisões eletrizantes em estádio hiperlotados, com muitas lágrimas de alegria e frustração. Como esquecer a conquista histórica da Sérvia em 2010, da Suíça em 2014 e das especulares e tensas partidas que deram títulos a britânicos e argentinos nas mais recentes edições?

David Goffin se encarregou de dar o tom de dramacidade que enriqueceu a conquista da favorita França no piso sintético e coberto de Lille, que recebeu uma considerável invasão da torcida belga. Vindo do vice em Londres, Goffin jogou muito nas duas simples e fez seu papel, mas a fragilidade da dupla, ainda que diante de um dueto francês improvisado, se provou novamente crucial.

Algumas coisas valem ser destacadas. Antes de tudo, o merecimento da França como força do tênis internacional. Um país que investe pesado na base, tem um vasto calendário amador e profissional, leva a sério a questão do doping, possui diversidade de pisos e portanto de estilos. O time de Yannick Noah pode jogar na grama, no saibro, quem sabe até no gelo sem perder muito de sua força. Tem duplistas excelentes, grandes sacadores, trocadores de bola. O capitão tem geralmente um delicioso problema: quem escalar.

Em segundo lugar, a geração de Jo-Wilfried Tsonga e Richard Gasquet levanta com justiça um troféu desse porte, já que os dois nunca conseguiram fazê-lo em nível Grand Slam. Pena que Gael Monfils não tenha participado de qualquer rodada em 2017 e assim não pôde também comemorar, distinção que coube a Gilles Simon, Jeremy Chardy e Julien Benneteau.

Por fim, os jogos deste fim de semana reafirmaram o momento de evolução técnica e amadurecimento por que passa Goffin e devem aumentar ainda mais sua confiança para 2018, assim como serviu para colocar à prova os nervos de Lucas Pouille, um jogador de grandes recursos ainda de 23 anos, que pode usar essa experiência para dar o salto que não conseguiu neste ano.

A França encerrou assim um jejum de 16 anos sem conquistar La Ensaladera, após três finais perdidas, e ocupa agora o terceiro lugar entre os países com maior quantidade de triunfos, igualando os 10 dos britânicos. A Bélgica, ainda grupo de um tenista só, amargou o terceiro vice, mas pode se espelhar na resiliência argentina e se manter motivada.

overgripDesafio do Ranking
Seis internautas conseguiram excelente pontuação na brincadeira do Blog que desafiou os internautas a cravar como terminaria o top 10 desta temporada. Todos eles fizeram 110 pontos, o que significa que acertaram nove dos 10 nomes. Um tremendo feito, especialmente porque a ascensão de Jack Sock era mesmo totalmente inesperada.

Como critério de desempate, chequei quem entre esses seis mais acertou em cheio as posições e aí Norbert Goldberg saiu vencedor porque colocou Nadal, Federer, Thiem, Cilic e Goffin em suas exatas colocações. Ele irá receber o kit com 12 unidades do Overgrip Pro Sensation da Wilson. Presentão!

Brasil cruza os dedos
Por José Nilton Dalcim
9 de abril de 2017 às 12:50

Com a vitória deste final de semana no saibro equatoriano, o Brasil tentará retornar à elite da Copa Davis, onde esteve por duas vezes nos últimos quatro anos. Como sempre, jogar em casa será fundamental e a chance de isso acontecer é muito boa: passa dos 56%.

O regulamento da Davis determina que o país-sede de um confronto será sempre aquele que foi visitante no duelo anterior, retroagindo até 1972. Se o duelo for mais antigo ou se nunca aconteceu, um sorteio define o mando.

Assim, o Brasil jogará em casa se enfrentar Argentina, Suíça, República Tcheca e Alemanha, com chance ainda se der Japão. Como nunca encaramos os nipônicos, a definição da sede seria em outro sorteio. Esse é obviamente o quadro mais favorável porque, além de poder optar por um saibro lento tão depois do US Open, os adversários dificilmente trarão sua força máxima.

Assim, os suíços parecem uma ótima alternativa. Roger Federer está fora da Davis e Stan Wawrinka só arriscaria vir se perdesse muito cedo no US Open e tivesse um gigantesco espírito nacionalista. Neste ano, contra os EUA, escalaram Marco Chiudinelli e Henri Laaksonen e só ganharam um set. Os tchecos também são interessantes. Não devem ter Tomas Berdych, Radek Stepanek se recupera de cirurgia e o único top 150 é Jiri Vesely.

Como festa, certamente Argentina e Alemanha seriam interessantes. Também acho difícil Juan Martin del Potro vir ao saibro, mas os hermanos têm muitas opções ainda que conheçamos bem Guido Pella, Carlos Berlocq e Leo Mayer. A Alemanha poderia escalar Alexander Zverev e Philipp Kohlschreiber, que seriam grandes atrações por aqui. O Japão é sempre um convidado especial no Brasil, porém acho muito pouco provável que Kei Nishikori venha. Ainda assim, Yoshihito Nishioka e Taro Daniel podem proporcionar jogos duros.

Como visitante, o Brasil teria pouca chance porque Croácia, Canadá, Rússia e mesmo Japão certamente escolheriam pisos bem velozes e poderiam contar com suas estrelas. Mesmo sem qualquer top 20, os russos tem um grupo forte com Karen Khachanov, Daniil Medvedev, Andrey Kuznetsov e até o velho Mikhail Youzhny.

Nos jogos do Equador, Thomaz Bellucci e Thiago Monteiro sentiram a dificuldade de jogar em grande altitude, já que a bola escapa demais. AInda encontraram um piso um tanto irregular. Bellucci deu um susto na sexta-feira, deixando escapar 2 a 0 e uma quebra contra Emilio Gomez, que chegou a ter 3/2 e saque no quinto set. A reação e vitória ajudou Monteiro a jogar mais tranquilo diante de um Roberto Quiroz que tirou tudo da altitude. A dupla, como se esperava, sobrou.

Além do Brasil, classificaram-se para a repescagem Portugal, Holanda e Belarus no Zonal Europeu; Índia, Cazaquistão e Nova Zelândia, no Asiático; e Colômbia na outra vaga do Zonal Americano. Desses todos, apenas Portugal e Colômbia jamais conseguiram chegar ao Grupo Mundial.

Semifinais interessantes
A França receberá a Sérvia e a Bélgica jogará em casa contra a Austrália nas semifinais do Grupo Mundial marcadas para o mesmo período da repescagem, ou seja, 15 a 17 de setembro. Duelos sem dúvida interessantes e com muito pouco favoritismo para qualquer lado.

Mesmo desfalcadíssima, a França atropelou os britânicos no saibro, o que reforça a imensa dependência que o time da Ilha tem em cima de Andy Murray. Com um grupo homogêneo, a Sérvia festejou a volta de Novak Djokovic e passou pela Espanha que não teve Rafa Nadal nem Roberto Bautista. Claro que as chances sérvias na semi dependem do tamanho do desgaste de Nole no US Open. Acredito que Yannick Noah optará por um saibro lento, já que tem mais opções.

Aliás, um saibro ainda mais lento deve ser a aposta da Bélgica em cima da Austrália, única forma de minimizar o fantástico serviço de Nick Kyrgios. Em grande momento, ele foi a sensação na vitória sobre os EUA, sem perder sets mas fazendo dois jogos bem duros, com direito a grandes reações. A cabeça do rapaz parece ter melhorado mesmo. Comandados por David Goffin, os belgas voltam à semi ao superar a Itália, que não pôde contar com Fabio Fognini.

Segundo maior campeão da Davis, a Austrália não disputa um título desde 2003, nos tempos áureos do agora capitão Lleyton Hewitt.