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Federer dá aula de saque
Por José Nilton Dalcim
4 de julho de 2018 às 19:47

Longe de ter um dos saques mais potentes do circuito, Roger Federer deu uma verdadeira lição de como aproveitar bem os games de serviço sobre a grama, piso sobre o qual é cada vez mais o maior mestre do tênis profissional.

Vamos aos números, que falam por si só. No primeiro set, com 78% de acerto do primeiro serviço, o suíço perdeu três pontos com ele e quatro quando precisou do segundo saque. Num único momento, 0-15 no segundo game, ficou atrás do placar.

A outra série assombrou: ganhou todos os 20 pontos de serviço, sendo 14 com o primeiro, ou seja fechou tudo de zero, mesmo tendo caído no percentual de acerto (70%). Repetiu a dose nos dois primeiros serviços do terceiro set – foram 35 pontos seguidos com o saque – e só então perdeu dois únicos lances, ambos com o segundo serviço.

O que se deve prestar atenção é a capacidade de variação de direção, efeito e até mesmo força que Federer imprime no único golpe do tênis que não depende do seu adversário. Seja um saque aberto cheio de slice, seja um cravado no centro da quadra, a fluidez do movimento dificulta demais a leitura. Lukas Lacko ficou totalmente perdido, e olha que o eslovaco não jogou mal lá da base.

Federer fez 16 aces, mas não é necessariamente assim que ele ganha os pontos. O saque aberto ou em cima do corpo são essenciais para permitir uma segunda bola de ataque. Isso até fez com que suas subidas à rede fossem econômicas: 21, com 17 pontos obtidos.

Seu adversário de sexta-feira será o alemão Jan-Lennard Struff, que lhe deu trabalho nos três sets disputados na Austrália deste ano e nos dois que jogaram na grama de Halle em 2016, já que tem bom equilíbrio entre serviço e devolução.

A rodada inacabada teve também como destaque os três bons tiebreaks feitos por Milos Raonic e a firmeza de Sam Querrey, dois nomes conhecidos da grama.

Serena impõe respeito
É inegável que Serena Williams está cima do peso e com deslocamento prejudicado, mas como impõe respeito com seu jogo tão bem encaixado para a grama. Saque colocado, devoluções agressivas, cobertura de quadra atrás de qualquer bola mais lenta ou mais curta que lhe permita um swing-volley.

Serena tem um curioso quadro pela frente, recheado de tenistas habilidosas porém com sérios problemas de controle emocional: Kiki Mladenovic, Madison Keys, Ekaterina Makarova e Lucie Safarova. Isso se viu claramente na queda de Carol Wozniacki em jogo no melhor molde Copa do Mundo. A cabeça 2 reagiu de 1/5 no terceiro set vendo Makarova desperdiçar incríveis match-points com saque a favor, até que a canhota russa fechou o jogo no papel de devolvedora.

Karolina Pliskova dominou uma nervosa Vika Azarenka e, apesar do possível cruzamento com Venus Williams nas oitavas, parece o nome mais indicado do setor.

Cenas do terceiro dia
– Wozniacki pediu ajuda ao árbitro contra a invasão de formigas voadoras durante seu jogo. “Quero me concentrar no tênis e não comer insetos”, queixou-se, pedindo um spray repelente.
– Struff levou nada menos que 61 aces antes de vencer Ivo Karlovic num longo quinto set.
– Andre Agassi é presença ilustre no Club deste ano. Ele conta que tem visto jogos no meio do público, muitas vezes escondido com um chapéu e não tem sido incomodado. E admite que ainda pensa em ser treinador.
– Mesmo com estilo perfeito para a grama, Pliskova nunca havia atingido sequer a terceira rodada em Wimbledon nas cinco tentativas anteriores. E ganhou elogio: Martina Navratilova a colocou na lista das favoritas.
– Federer chega a 26 sets vencidos na sequência em Wimbledon e fica a oito de seu recorde pessoal no torneio.
– O duelo entre a 181 do ranking contra a 135 foi o de mais baixo ranking já disputado na Central. Mas uma delas era a heptacampeã. Ah, Serena está invicta há 16 jogos em Wimbledon, frutos do bi em 2015 e 2016.

Chave deixa Wimbledon interessante
Por José Nilton Dalcim
29 de junho de 2018 às 17:38

Não houve desta vez um claro prejudicado, nem um evidente beneficiado no sorteio da chave masculina e isso é uma ótima notícia. Porque deixa Wimbledon bem interessante antes mesmo de sua largada, na segunda-feira. Roger Federer talvez tenha uma sequência mais exigente, porém o outro lado ficou com três campeões de Wimbledon e quatro de Grand Slam além de quatro nomes fortes da nova geração.

Federer tem dois croatas problemáticos em seu caminho, principalmente depois que Borna Coric jogou tão bem em Halle e lhe tirou o título numa grama que é claramente mais veloz que a de Wimbledon. O suíço começa diante do jogo certinho mas sem riscos de Dusan Lajovic e provavelmente terá de se adaptar depois à agressividade de Lukas Lacko, que tem estilo um tanto parecido com Leo Mayer, o terceiro possível adversário do octacampeão. É bom lembrar que Mayer acabou de vencer Kevin Anderson em Queen’s.

Se a lógica prevalecer, Coric será seu adversário de oitavas. Acho bem mais difícil o garoto croata ‘aprontar’ em melhor de cinco sets, mas certamente jogará com grande confiança e pouco a perder. O caminho de Federer poderá cruzar então com um especialista de grama, seja Anderson-Philipp Kohlschreiber ou Sam Querrey-Richard Gasquet. Acho Anderson e Querrey bem perigosos, porque são grandes sacadores, espertos voleadores e possuem jogo pesado de base.

Marin Cilic precisa ser considerado favorito no seu quadrante, ainda que Milas Raonic esteja na trajetória das oitavas, Grigor Dimitrov ou John Isner nas quartas. Não se sabe a real condição física do canadense, Dimitrov vive um momento de incrível instabilidade e Isner é eterna incógnita nos Slam. No meio deles aparece Stefanos Tsitsipas, que ganhou condição de cabeça de última hora. Difícil dizer o quanto o jovem grego pode render num Slam, mas pegou um setor bem favorável a surpresas.

O outro lado da chave ficou com os outros três campeões de Wimbledon em atividade, mas Andy Murray é quase um ‘zebrão’. Se passar por Benoit Paire, teria Denis Shapovalov e depois Juan Martin del Potro. Tem ar de missão impossível. Esse setor aliás é onde está Rafa Nadal. O espanhol se livrou de especialistas na grama nas rodadas iniciais, tendo Dudi Sela, Pospisil-Kukushkin e quem sabe Marco Cecchinato antes de chegar a Diego Schwartzman ou Fabio Fognini. Já dá para aguardar com admissível ansiedade o duelo entre Nadal e Delpo nas quartas.

E por que não sonhar com o reencontro entre Nadal e Novak Djokovic em Wimbledon, onde só se enfrentaram duas vezes, em 2007 e 2011? O sérvio jogou bem em Queen’s, ainda que um tanto conservador, porém a grama mais lenta do Club permite muito bem tentar se virar lá da base quase o tempo inteiro. Mas Nole precisa tomar cuidado com Tennys Sandgren na estreia e especialmente Kyle Edmund numa eventual terceira partida. Vejo menor risco contra Dominic Thiem ou Fernando Verdasco. As quartas por fim viriam diante de Alexander Zverev ou Nick Kyrgios, dois ótimos tenistas sobre a grama porém pouco confiáveis num estágio tão avançado de um Slam.

Feminino
Simona Halep, que progride ano após ano na grama londrina, viu um sorteio cruel. Já nas oitavas, pode ter a local Johanna Konta; depois a bicampeã Petra Kvitova ou quem sabe Maria Sharapova. Se não bastasse, Garbiñe Muguruza ainda ficou do seu lado da chave. A atual vencedora também tem perigos à frente, como Angelique Kerber.

Com tudo isso, o lado inferior da chave ficou um tanto sem graça. A rigor, Caroline Wozniacki tem caminho livre, ainda que possa cruzar com o saque de Coco Vandeweghe. Seria interessante mesmo se a amiga Serena Williams embalasse e chegasse até as quartas. A heptacampeã tem como maiores rivais Elina Svitolina e Madison Keys, e só mesmo sua falta de ritmo e de confiança podem atrapalhar. A outra vaga da semi vislumbra briga entre Karolina Pliskova e Sloane Stephens, mas não dá para tirar Venus Williams das cotadas.

Sortudos
Wimbledon nem começou e já entraram cinco ‘lucky-losers’: Hurkacz, Mmoh, Polansky, Sonego, Tomic. Destaques para Tomic, que fez quartas em 2011 e um dia foi top 20, e para Polansky, que conseguiu a proeza de ser ‘lucky’ nos três Slam da temporada. Vale lembrar que Roland Garros teve o recorde de oito ‘LL’ neste ano.

Grandes jogos
A primeira rodada de Wimbledon marca jogos bem interessantes: Monfils-Gasquet, Dimitrov-Wawrinka, Thiem-Baghdatis, Murray-Paire, Medvedev-Coric, Kerber-Zvonareva, Bencic-Garcia, Giorgi-Sevastova.

Questão de cabeça
Por José Nilton Dalcim
1 de junho de 2018 às 14:23

Atualizado à 20h01

Partidas em melhor de cinco sets e ainda mais em cima do saibro exigem não apenas um físico apurado e paciência para achar o jeito de ganhar os pontos, mas também grande capacidade de aguentar a pressão, engolir a frustração e entender que sempre existe um jeito de virar a mesa. Assim o fizeram nesta sexta-feira, ainda que em diferentes graus, Novak Djokovic e Alexander Zverev.

Apesar de não tido falhas graves em qualquer fundamento, já que jogou bem no fundo de quadra e fez espertas subidas à rede, o destaque real para Djokovic esteve em sua postura emocional. Ah, mas ele destruiu raquete ao final do segundo set! Sim, de fato não suportou a frustração de tantas chances de abrir 2 a 0.

Mas manteve o equilíbrio mental no importantíssimo terceiro set, quando caiu de intensidade e viu Bautista bem mais dentro da quadra dominando o tempo todo, a sacar com 5/3. Nole segurou as pontas ali, não repetiu os erros passionais do primeiro tiebreak e então disparou no placar, tendo apenas um pequeno deslize ao se apressar demais por conta do risco de chuva no finalzinho.

Fernando Verdasco, canhoto de muitos recursos e experiência, é a próxima barreira, mas Nole sabe que é mais consistente. O espanhol jogou bem contra Grigor Dimitrov. O búlgaro desperdiçou muitas chances no primeiro set e aí desabou, provavelmente por conta do físico desgastado da batalha de quarta-feira. A melhor receita para Djokovic contra Verdasco é jogar na frente do placar, o que deverá gerar ansiedade sobre Verdasco.

Bem mais preocupante foi a atuação de Zverev. Tudo vinha bem até abrir 6/2 e 3/1. Aí Damir Dzumhur começou a abusar das deixadas e outra vez o alemão pirou com isso. A confiança minguou e de repente o bósnio de 1,75m tinha 2 sets a 1, 4/2 e mais tarde 6/5 e saque para ganhar a partida. Ao longo dessa trajetória, lances bizarros de um Zverev tenso e indeciso, voleios medíocres, salvando-se com o backhand e com o fato de Dzumhur não acreditar em si mesmo.

O quinto set foi outro show de horrores. O cabeça 2 não se soltou nem mesmo com 4/2 e pouco mais tarde precisou salvar match-point. Claro que se deve dar a Zverev o crédito de não se entregar, lutar contra todos seus fantasmas, arriscando sob enorme pressão. Enfim, chegou às oitavas de Paris e de seu segundo Slam. Após 10 sets incrivelmente nervosos seguidos, como estará para a segunda semana?

E mais
– Dominic Thiem foi surpreendido pelo bom tênis do italiano Matteo Berretini, mas reagiu bem depois de perder o segundo set. Terá agora interessante duelo com Kei Nishikori, que atropelou Gilles Simon. O japonês ganhou os dois confrontos diante de Thiem, o mais recente há dois anos em Roma. Talvez o melhor jogo das oitavas.

– E a primeira grande surpresa pintou na chave feminina: a romena Mihaela Buzarnescu jogou muito e tirou Elina Svitolina. Vai enfrentar Madison Keys com chances reais de ir ainda mais longe, já que está no quadrante de Barbora Strycova e Yulia Putintseva. Note-se que a romena é 33º do ranking, tem 30 anos e joga seu primeiro Roland Garros.

– O setor debaixo está bem mais complicado. Carol Wozniacki esmagou Pauline Parmentier e precisa tomar cuidado com Daria Kasatkina, para quem perdeu duas vezes nesta temporada. A dinamarquesa adoraria se o saibro continuasse mais lento, como aconteceu nesta sexta-feira de umidade alta em Paris.

O sábado
– Se Nadal ganhar os dois primeiros sets contra Gasquet, chegará a 33 consecutivos e quebrará sua marca de 2007-09. O recorde absoluto é de Borg, com 41 entre 1979-81. Rafa, que tem 15-0 sobre Gasquet, ganhou do francês em Roland Garros uma única vez, há 13 anos.
– Del Potro tenta chegar às oitavas de Paris pela primeira vez desde 2012. O canhoto Ramos já esteve nas quartas, em 2016.
– Cilic pode se tornar o croata com maior número de oitavas em Slam (com 20) se vencer Johnson pela quarta vez seguida.
– Anderson e Mischa são dois dos 13 jogadores com 30 anos ou mais que atingiram a 3ª rodada.
– Os dois duelos anteriores entre Isner e Herbert também foram em Slam e o norte-americano venceu ambos, incluindo Roland Garros-2014
– Coric ganhou os dois jogos sobre Schwartzman, ambos com facilidade e um no saibro. Nenhum deles chegou até hoje nas oitavas de Paris. O croata, nem em Slam.
– O currículo muito superior na carreira e no saibro dão favoritismo no inédito duelo que Fognini faz diante de Edmund.
– Apenas nove lucky-losers chegaram nas oitavas de um Slam em toda Era Profissional, feito que pode ser alcançado por Zopp, 30 anos e 136º do ranking, diante de Marterer.
– Halep tem 6-1 contra Petkovic, sendo 3-1 no saibro. Já Muguruza-Stosur fazem duelo de finalistas em Paris e Garcia tem histórico apertado de 3-2 sobre Begu.
– Sharapova e Serena estão a uma vitória do reencontro em Slam. A russa tem jogo imprevisível diante de Pliskova (um único duelo vencido por Sharapova em 2015) e a americana já venceu duas vezes Goerges, mas hoje a alemã é 11ª do ranking.