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Nadal se dá mais uma chance
Por José Nilton Dalcim
24 de janeiro de 2019 às 10:15

Jamais duvide de Rafael Nadal. Dois anos, contusões e muitas dúvidas depois, ai está ele novamente atrás do bicampeonato do Australian Open, algo que já escapou três vezes de maneira um tanto cruel. Mais admirável ainda, o espanhol aperfeiçoou de novo seu tênis, dando-lhe agressividade raramente vista.

Nadal se preparou para este piso veloz e bola diferente, que parece dificultar o uso acentuado do spin. Mudou o saque para ganhar velocidade depois do quique, mas principalmente tem usado com maestria a variação de direção e efeito. Lá da base, é uma máquina de bater na bola, e desta vez busca golpes na subida para ataques fulminantes dos dois lados. Se houver chance, estará na rede para um voleio definitivo e desconcertante.

Não por acaso, Stefanos Tsitsipas foi atropelado nas semifinais desta quinta-feira. Nadal não pareceu ter qualquer dúvida de como se impor ao grego, mas mostrou qualidade técnica, visão tática e precisão num nível assustador. Cuidou sempre do saque, o que permitiu tomar conta do ponto logo na segunda bola, e arriscou no serviço do grego, que só se segurou na base do saque muito arriscado e de alguns voleios espetaculares.

Sem perder set até aqui, terá no domingo sua quarta chance de se tornar o primeiro profissional a somar ao menos dois troféus em cada Grand Slam e, mais ainda, chegar ao 18º título desse quilate e assim vislumbrar a chance real de igualar o recordista Roger Federer ainda em 2019.

Fica é claro a expectativa sobre quem será seu adversário. Se der a lógica e Novak Djokovic superar Lucas Pouille nesta sexta-feira, o desafio de Nadal ganhará também ingrediente emocional. O espanhol não derrota Nole fora do saibro desde a final do US Open de 2013, curiosamente outro momento de sua notável carreira em que incorporou armas diferenciadas para a quadra dura.

Djokovic jamais enfrentou Pouille. A distância de currículos é astronômica. Só em Slam, sérvio venceu quase três vezes mais em Melbourne (66) do que o francês na soma dos quatro (26). Na quadra dura então são 547 vitórias no circuito diante de 71. Para complicar, Pouille se desgastou 5 horas a mais na campanha. Nole aliás venceu todas suas nove semifinais de Slam desde o US Open de 2014.

Osaka e Kvitova, por título e nº 1
Não pode haver final mais interessante para um Grand Slam do que aquela que vale também o número 1. E, melhor ainda, um posto que será inédito tanto para Naomi Osaka, de 21 anos, como para a ‘veterana’ Petra Kvitova, de 28. Para completar o quadro de imprevisibilidade, será o primeiro duelo entre elas.

Sem jamais abrir mão de seu estilo ofensivo, Osaka teve altos e baixos em Melbourne, mas confirma a expectativa de que tem jogo de sobra para dominar o tênis, um feito que a nova geração do masculino nem sonha ainda. Seu estilo casa muito bem com a quadra dura e daí não é surpresa que tenha chance de ser a primeira desde Jennifer Capriati, em 2001, a vencer seus dois primeiros Slam na sequência (US Open e Austrália).

Fato curioso e notável, Osaka não perde uma partida depois de vencer o primeiro set desde outubro de 2016, numa sequência de 58 jogos. No duelo contra Karolina Pliskova, ficou acuada no começo do terceiro set, salvou break-points mas jamais deixou de agredir. Terminou com 56 a 20 nos winners, sendo 15 aces.

Será portanto muito interessante ver como lidará diante da experiência da canhota Kvitova, que continua sem perder set na campanha em Melbourne e busca seu terceiro Grand Slam e o primeiro fora de Wimbledon. Num dia de calor absurdo em Melbourne, que superou os 40 graus, metade do duelo contra Danielle Collins aconteceu sob teto. Estranhamente, foi quando o percentual de primeiro saque da norte-americana despencou para 38%.

Não tenho favorita, nem preferência. Me basta saber que são duas tenistas que desenvolvem um tênis moderno, de risco, com diferentes recursos. Só falta mesmo uma final de tirar o fôlego para o Australian Open se tornar o torneio feminino de mais alto padrão dos últimos 20 anos.

A Austrália das duplas
Sem sucesso nas simples, o tênis australiano colocou ao menos um nome em cada final de duplas, o que merece comemoração. John Peers tentará o título ao lado do excepcional finlandês Henri Kontinen, Samantha Stosur volta a uma decisão em casa depois de 13 anos tendo a chinesa Shuai Zhang a seu lado. E (infelizmente) o dueto de Astra Sharma e John Patrick Smith, que entrou como convidado,  mostrou muita qualidade ao superar Bruno Soares e Nicole Melichar.

Presente para Djoko, façanha de Pliskova
Por José Nilton Dalcim
23 de janeiro de 2019 às 13:44

Infelizmente, o prognóstico se confirmou. Com 18 sets disputados, duas viradas de 0-2 e uma maratona de cinco horas no jogo anterior, o frágil físico de Kei Nishikori não aguentou mais do que 52 minutos e 12 games diante do tênis robusto de Novak Djokovic.

Na verdade, o japonês se arrastou em quadra desde o terceiro game. Sempre inteligente, Nole chegou a recuar dois passos atrás da linha para entrar em todos os pontos e voltar o máximo de bolas para o outro lado. Não precisava muito mais do que uma troca de direção.

Lá no fundo, Djokovic não deve ter lamentado tanto assim a falta de competitividade, porque pôde recuperar todo o fôlego eventualmente perdido diante de Daniil Medvedev e entrará com armas afiadas diante de (quem diria) Lucas Pouille, duelo inédito no circuito.

O pupilo de Amélie Mauresmo foi muito feliz nas devoluções diante de Milos Raonic, com 31% de pontos no poderoso saque do canadense, ao mesmo tempo que explorou a conhecida deficiência do adversário como receptor. Raonic, claro, vacilou feio quando teve a chance de fechar o primeiro set e isso encheu Pouille de confiança. Apesar de sua primeira semi de Slam, vale lembrar que o francês já foi top 10 no ano passado.

O grande jogo do dia, outra vez, foi das mulheres. É recomendável no entanto dividir o duelo entre Karolina Pliskova e Serena Williams em três pedaços distintos. Com golpes muito consistentes e excelente movimentação, a tcheca dominou até ter 3/2 e saque no segundo set. Serena vinha errando muito, mas enfim achou o ritmo e anotou uma reação incrível, chegando a 5/1 com match-point. Aconteceu então a leve torção de pé, que talvez tenha tirado a concentração da norte-americana, e Pliskova voltou a jogar um grande tênis para anotar uma virada quase impensável.

Duas coisas essenciais. A primeira é que Serena não usou a torção como desculpa em qualquer momento, enchendo a adversária de elogios. A outra é que a tcheca vem trabalhando muito contra o problema do foco, tendo perdido incríveis chances na carreira, como o 4/2 sobre a mesma Serena no US Open ou o 3/0 em cima de Simona Halep no AusOpen no ano passado.

Sai um finalista
A manhã desta quinta-feira conhecerá o primeiro candidato ao título, e aí podemos ter o experiente Rafael Nadal, que completa 10 anos de sua única conquista em Melbourne, período em que colecionou três vices, ou a grande sensação Stefanos Tsitsipas, candidato a ser tornar o terceiro e também o mais jovem tenista a derrotar Nadal e Roger Federer num mesmo Grand Slam (os outros foram Del Potro e Djokovic).

Impossível não dar favoritismo a Nadal. Não bastassem a diferença gritante de currículo e os 2 a 0 nos confrontos, ele ainda mostrou até aqui em Melbourne um tênis agressivo e eficiente, nenhum problema físico e desgaste muito menor que o do grego (foram 5 horas a menos de quadra). A seu favor também o fato de Stef usar o backhand de uma mão. Mas o grego tem sim armas para incomodar, desde o ótimo saque até o jogo de rede bem tramado, assim como golpes bem sólidos da base. Mais importante, mostrou cabeça no lugar em todos os momentos delicados.

Curiosa estatística da Federação Internacional, Nadal e Tsitsipas estão distantes entre si por 12 anos e 70 dias, o que é a nona maior diferença da Era Profissional para uma semi de Slam. O recorde está também na Austrália, quando Mark Edmondson ganhou de Ken Rosewall em 1976, então 19 anos e 238 dias distantes.

Caso obtenha a façanha, o grego será o mais jovem finalista de um Slam desde Djokovic no US Open de 2007 e do Australian Open desde Carlos Moyá, hoje treinador de Rafa, em 1997. A vitória também valerá o nono lugar do ranking.

A 9ª campeã diferente?
Com a incrível queda de Serena, o tênis feminino tem agora 75% de chance de ver a nona diferente campeã de Slam na sequência, já que Petra Kvitova não vence desde 2014, Pliskova e Danielle Colliins ainda não têm troféus.

Os jogos acontecem na próxima madrugada e são bem interessantes. Kvitova está jogando o melhor tênis entre todas, mas enfrentará a surpreendente Collins, revivendo duelo de dias atrás na estreia de Brisbane em que a canhota venceu após perder o 1º set. Vindo da espetacular e emocionante virada, Pliskova tenta derrubar outra campeã de Slam, a jovem e ousada Naomi Osaka, tendo pequena vantagem de 2 a 1 nos confrontos diretos.

A luta pelo número 1 também segue entre três das quatro postulantes, mas Kvitova e Pliskova precisam do título.

Bruno ainda tenta
A campanha vinha aos trancos e barrancos, e aí um dia pouco inspirado de Jamie Murray determinou a queda para os fortíssimos Henri Kontinen e John Peers nas quartas de final.
Mas Bruno ainda tem boa chance de alcançar mais um troféu em Melbourne, já que disputará a semi de mistas com a confiável parceira Nicole Melichar.

Serena destoa da ‘segunda-feira maluca’
Por José Nilton Dalcim
21 de janeiro de 2019 às 13:22

Novak Djokovic caído duas vezes em quadra, Alexander Zverev e seu duplo vexame, juiz criando polêmica desnecessária no final de uma maratona de 5 horas, uma vaga na semi a ser decidida entre Milos Raonic e Lucas Pouille. Que segunda-feira doida em Melbourne!

Menos, é claro, para o magnífico duelo entre Serena Williams e Simona Halep, jogo digno de final de campeonato. A heptacampeã fez 10 games de massacrante domínio, mas a romena se achou em quadra, forçou o saque como nunca e apostou em paralelas milimétricas que levaram a um terceiro set de tirar o fôlego. Sobraram qualidade, força mental e ousadia dos dois lados, daí o justo sorriso que ambas abriram na hora do cumprimento, certas do dever cumprido. A exigente chave de Serena a coloca agora contra Karolina Pliskova – que atropelou Garbine Muguruza e diz ter feito o jogo de sua vida – e, se passar, quem sabe o aguardado reencontro com Naomi Osaka, que enfrentará Elina Svitolina.

A rodada masculina teve de tudo. Começou na madrugada com a medíocre apresentação de Zverev. Incrível. Ele quebrou Raonic no primeiro game da partida, o que deveria lhe dar confiança, mas o que se viu foi um alemão assustado, apressado, nervoso. Perdeu quatro serviços consecutivos, arrebentou raquete num espetáculo mais lamentável do que suas 10 duplas faltas, baixou a cabeça ainda na metade do segundo set.

Sem nada a ver com isso, Raonic ganhou mais de um terço de seus pontos na rede. Tem natural favoritismo sobre Pouille, contra quem jamais perdeu set em três confrontos. É um alívio ver Pouille reagir na carreira, um jogador cheio de recursos técnicos mas pouco compromisso com o físico e cabeça frágil para o tamanho de seu ranking. Se o canadense tenta repetir a semi de 2016, o francês busca seu maior resultado de Slam.

Djokovic por seu lado pareceu um pouco acomodado com o jogo sem iniciativa de Daniil Medvedev e daí se viu um primeiro set sonolento. Abriu depois 3/1, com maior variedade, porém ‘viajou’ e fez um tiebreak sofrível. Como é muito mais tenista que o russo – ninguém pensou em ensinar Medvedev a volear? -, atropelou no terceiro set e administrou o esgotamento do adversário – pera aí, ele tem 22 anos e nenhum jogo anterior longo, não? Ainda assim, o sérvio quase torceu o pé numa tentativa de ir à rede e foi outra vez ao chão, sem pernas para chegar numa bola longa. Preocupante.

Nole reencontrará um de seus maiores fregueses. Com 18 sets já disputados, fico a imaginar com que condições Kei Nishikori irá tentar barrar alguém para o qual perdeu 15 partidas, com duas solitárias vitórias há quase cinco temporadas. Mas há de se elogiar o empenho do japonês para reagir outra vez, num jogo que parecia perdido diante de Pablo Carreño (2 a 0 e uma quebra atrás no terceiro set), sem nunca abandonar o estilo agressivo e as tentativas junto a rede, com 54 subidas.

No match-tiebreak, também se viu atrás por 5-8 e aí veio o lance polêmico. É compreensível a decisão do árbitro – o japonês não foi atrapalhado pelo ‘out’ e jogou a bola muito longe do espanhol -, mas o bom senso recomendaria voltar o ponto pelo momento delicado. Para que complicar, senhor juiz?

Enquanto isso, Bruno Soares e o escocês Jamie Murray evitaram três match-points, estão nas quartas e desafiam os perigosíssimos Henri Kontinen e John Peers. Mas precisam ficar um pouco mais consistentes.

A luta por semi começa
Duelos inéditos entre ‘trintões’ e Next Gen marcam os primeiros jogos de quartas  da chave masculina.
– Nadal busca sua 30ª semifinal de Slam (apenas Federer, Djokovic e Connors chegaram a tanto). Ele não perde para um americano em Slam há 20 jogos, desde US Open de 2005.
– Tiafoe, 11 anos mais jovem, já derrubou dois cabeças para obter sua maior campanha em Slam. Faz uma década que Roddick atingiu semi na Austrália. Este será seu quinto duelo contra um top 5, ainda sem sucesso.
– Tsitsipas completou seus quatro jogos até agora em quatro sets, mas Bautista, 10 anos mais velho, correu muito mais e já foi três vezes ao quinto. Espanhol ganhou seus 9 jogos de 2019.
– Se Nadal e Bautista vencerem, será segunda semi espanhola na história do torneio, repetindo Nadal e Verdasco de 2009. Se os garotos avançarem, teremos pela primeira vez dois tenistas de 21 anos ou menos numa penúltima rodada de Slam desde que Djokovic e Murray chegaram lá no US Open de 2008.
– Kvitova busca sua segunda semifinal em Melbourne sete anos depois e tem dupla vantagem: não perdeu set e ganhou os três duelos contra Barty, que vem de jogos difíceis.
– Duas jogadoras que estão fora do top 30, Collins e Pavlyuchenkova disputam duelo inesperado. A russa tem muito mais rodagem, mas Collins está cheia de confiança com sua incrível série de vitórias e a surra que deu em Angie Kerber.