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Gol de placa da Croácia
Por José Nilton Dalcim
24 de junho de 2018 às 20:15

O tênis croata sempre combinou com aces, quadras velozes e piso de grama, isso desde Goran Ivanisevic mais de 20 anos atrás. No entanto era difícil imaginar que Marin Cilic e Borna Coric pudessem ganhar dois ATP 500 ao mesmo tempo no piso, e em cima de adversários que tinham tudo a favor.

Por incrível que pareça, saque só foi fazer diferença em favor de Cilic no terceiro set. O croata jogou com 36% de primeiro serviço na série inicial e 54% no seguinte, passando sufoco o tempo todo diante da boa devolução do sérvio e de sua firmeza de base inferior. Parecia inevitável a 15ª vitória do sérvio no 16º duelo diante do croata, mas dois break-points e um match-point escaparam no segundo set, assim como a vantagem de 4-1 no tiebreak. Observe-se que Cilic ganhou o set com apenas quatro pontos vencidos como devolvedor (e só um sobre o primeiro serviço).

Aí a situação se inverteu e foi Nole quem passou a sentir dificuldade crescente para manter o serviço até a quebra definitiva. Talvez tenha pesado contra o sérvio o fato de estar há um ano sem ganhar um torneio – o último havia sido na grama de Eastbourne -, mas ficar tão perto de derrotar o atual vice de Wimbledon deve ser encarado como motivador.

Com apenas duas vitórias na grama até seis dias atrás, Coric foi mesmo a grande surpresa. Encarou o todo-poderoso eneacampeão de Halle com uma bela variação de armas, desde um saque muito consistente (11 aces contra 12, 74% de acerto e apenas 19 pontos perdidos) mas também com voleios firmes, devoluções arriscadas e muita agilidade no fundo de quadra. Claro que o suíço lhe abriu a porta ao desperdiçar 6-4 e saque no tiebreak, e ganhar o primeiro set muito provavelmente mudaria o ritmo do jogo.

É de se elogiar a conduta de Coric ao longo de todo o terceiro set, principalmente porque ele vinha de uma falha absurda na rede que dera o empate ao adversário minutos antes. O croata jamais saiu de jogo, acertou 19 de 20 primeiros serviços nesse set de grande pressão e ganhou 10 pontos no saque suíço. Muito curioso o fato de Federer ter vencido mais pontos na soma total da partida (97 a 89), o que mostra evidentemente que Coric se saiu muito bem nos lances realmente importantes.

Claro que os títulos desde domingo não colocam imediatamente Cilic e Coric como grandes favoritos a Wimbledon, mas dão um molho saboroso ao Grand Slam da grama e devem fazer agora Federer, Rafael Nadal e o próprio Djokovic sonharem em ficar longe de ambos no sorteio da chave de sexta-feira.

Nadal reassume
Como resultado da derrota, Federer voltou a perder a ponta do ranking para Rafa e, como muito bem observado por Mário Sérgio Cruz em TenisBrasil, esta foi a sexta troca de liderança entre os dois nesta temporada sem que houvesse um único duelo direto entre os dois pelo número 1. Também não chega a ser um recorde, já que Ivan Lendl e John McEnroe se alternaram seis vezes em 1984, mas no total eles se revezaram por 11 vezes seguidas no alto da lista, entre 1983 e 1985.

Vale observar que Nadal deverá permanecer como líder pelo menos até defender seu troféu no US Open, já que Federer é o atual campeão de Wimbledon e finalista em Montréal, podendo eventualmente somar em Cincinnati. No entanto, o espanhol somou apenas 470 pontos entre Roland Garros e US Open no ano passado – sendo 180 em Wimbledon – e assim tem boa chance de aumentar a distância para o suíço antes de Nova York.

Alívio nas duplas
Enfim, Marcelo Melo e o polonês Lukasz Kubot foram bem em Halle e voltaram a erguer um troféu, algo que não acontecia desde janeiro, em Sydney. E esse é um ótimo prenúncio para a difícil e importante defesa do título em Wimbledon. Um resultado inferior a semifinal pode até tirar Melo do top 10. A parceira entra na faixa de classificados para Londres, em oitavo lugar, imediatamente atrás de Bruno Soares e o escocês Jamie Murray, que fizeram uma grande partida no sábado em Queen’s mas perderam a decisão.

Vale tudo
Por José Nilton Dalcim
25 de janeiro de 2018 às 12:23

A primeira e talvez maior história deste Australian Open será escrita às 6h30 de sábado. A final feminina envolverá duas tenistas com apenas um ano de diferença, que estarão na maior luta de suas carreiras: erguer enfim um troféu de Grand Slam após várias frustrações e cobranças. Simona Halep ou Caroline Wozniacki? Uma irá realizar um sonho, a outra permanecerá no pesadelo. Bem menos importante, o jogo também vale a liderança do ranking.

Guerreira nata diante de suas limitações de força, Halep fez um duelo épico contra Angelique Kerber nesta madrugada. Abriu 5/0 e depois chegou a ter 6/3 e 3/1 com a paciência de esperar a canhota alemã ditar o ritmo do jogo, para o bem ou para o mal. A campeã de 2016 enfim se achou e levou a um épico terceiro set, onde aconteceu de tudo. Halep teve 5/3 e saque, perdeu dois match-points no game seguinte e levou virada para 6/5 e desta vez dois match-points para Kerber. Mas incrivelmente achou forças para reagir e vencer por 9/7. Esforço memorável das duas.

A romena prometeu que não iria se render depois da terrível derrota na final de Roland Garros, em que deixou escapar 3/0 no segundo set e 3/1 no terceiro set diante de Jelena Ostapenko. Sua primeira chance, também em Paris de 2014, foi menor diante de Maria Sharapova.

Wozniacki mostrou alguma tensão na semi diante da pouco experiente Elise Mertens e são justamente os nervos que geralmente dificultam as coisas para a vice do US Open de 2009 e 2014, que chegou a cair para 74º do ranking em agosto de 2016 e agora está com o pé na porta para reassumir a ponta.

Talvez, Halep mereça um pouquinho mais. Torceu o tornozelo ainda na estreia, quando salvou três match-points, e sobreviveu a maratona de 3h45 diante de Lauren Davis, sem falar no duelo tão duro contra Kerber que exigiu o máximo de poder mental. Wozniacki também fez mágica ao sair de 1/5 no terceiro set contra Jana Fett. Sem dúvida, o título e o número 1 estarão em boas mãos.

Final e número 3
Marin Cilic por sua vez confirmou com relativa facilidade sua terceira diferente final de Grand Slam e a segunda nos últimos três eventos disputados. É um currículo muito respeitável. O campeão do US Open de 2014 e finalista de Wimbledon no ano passado será também o número 3 do ranking na segunda-feira, seu recorde pessoal.

Kyle Edmund só deu trabalho por um set. Ele até começou bem a partida e teve dois break-points, mas rapidamente passou a mostrar um backhand frágil e acabou indo ao vestiário para atendimento médico ao final do set. Sua movimentação era ainda pior do que o normal e deu sinal de abandono, mas uma discussão com o árbitro lhe carregou de tanto ânimo que acabou fazendo um segundo set consistente ainda que jamais ameaçasse para valer o saque do croata.

A estatística mostra que Cilic nem precisou fazer seu melhor. Disparou 11 aces, mas acertou apenas 56% do primeiro saque. Lá do fundo, foram 20 winners e 29 erros não forçados, o que está longe de ser um fenômeno. O importante é ter economizado energia e se mostrar fisicamente inteiro, bem diferente da frustrante final de Wimbledon. Certamente torcerá agora para dar Hyeon Chung na outra semifinal, já que perdeu 8 de 9 para Federer e ganhou todas as três frente o sul-coreano.

A sexta-feira
– Federer já perdeu quatro jogos de Slam para tenistas de ranking inferior ao 58º atual de Chung, mas desde 2004 só aconteceu uma vez (Stakhovsky em Wimbledon-2013).
– A última vez que um Australian Open não teve qualquer representante do Big 4 foi com Safin-Hewitt de 2005.
– A diferença de idade de 14 anos e 284 dias é a quarta maior entre semifinalistas de Slam na Era Profissional.
– Federer pode se tornar o tenista com mais finais na Austrália (7) e o terceiro mais velho desde 1972. E aumentar seu total de Slam para 30.
– Das 13 vezes que Federer perdeu uma semi de Slam, sete aconteceram em Melbourne (Djokovic por três vezes, Nadal em duas, Murray e Safin).
– Suíço tenta atingir sua sexta final de Slam sem perder sets. Ele ganhou dois Slam invicto: AusOpen-2007 e Wimbledon-2017).
– Chung tenta se tornar terceiro asiático na final de um Slam, repetindo Na Li (dois títulos) e Kei Nishikori.
– Coreano pode ser primeiro jogador a debutar numa final profissional diretamente num Slam desde Tsonga em 2008. Hyung-Taik Lee é único coreano finalista de ATP até hoje.
– Este é apenas seu oitavo torneio de Slam. Se atingir a final, repete o feito de Sampras no US Open de 1990
– Chung venceu três top 20 neste início de temporada: Isner em Auckland, Zverev e Djokovic em Melbourne. Ele já garantiu o 29º posto, chegará a 21º se derrotar Federer e ao top 10 se for campeão.
– O tênis brasileiro pode sonhar com uma final de duplas mistas no Australian Open, mas com um de cada lado. Bruno Soares reativou a parceria com Ekaterina Makarova e tem favoritismo para decidir o título. Marcelo Demoliner se juntou a Maria Jose Martinez. Ambos disputam semi na manhã desta sexta-feira. Vale a torcida.

Físico abandona Rafa. Outra vez.
Por José Nilton Dalcim
23 de janeiro de 2018 às 11:55

Pelo terceiro torneio consecutivo, Rafael Nadal se rendeu a seus problemas físicos. E desta vez nem foi o joelho que o limitou em Xangai, o tirou da Basileia e o fez abandonar Paris e Londres, mas sim um incômodo insuperável na virilha direita. O número 1 foi obrigado a desistir no início do quinto set diante de um inspirado Marin Cilic, que mereceu a vaga na semifinal do Australian Open apesar das circunstâncias.

Houve é verdade evidente queda de rendimento de Nadal a partir da metade do quarto set, porém ainda assim é preciso elogiar a conduta de Cilic. Depois do primeiro set em que a cabeça falhou feio e uma quebra atrás no segundo, o croata se manteve firme no jogo, mudou a postura tática e não se entregou como vimos tantas vezes acontecer. Passou apostar no saque menos veloz e mais aberto, o que lhe dava tempo para atacar de forehand ou tentar ir à rede. Perdeu claro alguns pontos, principalmente pela qualidade das bolas do espanhol, mas seu tênis ganhou corpo e ele ficou cada vez mais solto e perigoso.

Nadal teve altos e baixos muito antes de sentir a virilha. E talvez a derrota tenha vindo ali no sexto e oitavo games do segundo set, quando ele já tinha 3/2 e inexplicavelmente substituiu a postura agressiva por um jogo mais conservador. Baixou a intensidade e deu a motivação que o adversário precisava. Cilic deveria ter levado também o tenso tiebreak do terceiro set, principalmente quando abriu 3-2 com dois saques. Ou mais tarde, quando teve quadra aberta para fazer 6-5 e servir em seguida. O ponto positivo é que novamente ele reagiu bem e entrou no quarto set com a mesma dedicação.

A partir daí a questão física entrou em cena e outra vez Nadal sucumbiu à exigência do Australian Open, como no abandono de 2010, a derrota feia para David Ferrer em 2011, a maratona de 2012 em que pregou antes de Novak Djokovic e a final perdida de 2014 para Stan Wawrinka. Curiosamente, das sete vezes em que caiu nas quartas de um Grand Slam, cinco foram em Melbourne. Mais tarde, reclamou do calendário e das quadras duras outra vez, logo ele que acabou de anunciar que jogará Acapulco antes de Indian Wells e Miami e em seguida embalar na longa sequência do saibro europeu. Difícil entender o rapaz.

Cilic fechou a partida com 83 winners, um número muito expressivo e que mostra sua determinação. Aliás, ‘apenas’ 20 deles foram por aces. Mas não menos relevante é que ele fez 26 winners de forehand e 13 de backhand, mas também errou 30 direitas e 22 esquerdas, ou seja, o saldo no geral foi até negativo. Aos 29 anos, não se pode criticar de todo sua competência. Afinal, ele tem quartas em todos os Slam e só não fez semi até hoje em Paris. Está agora a uma vitória de atingir pela primeira vez o terceiro lugar do ranking.

Seu inesperado adversário de quinta-feira será o britânico Kyle Edmund, um jogador geralmente acusado de ser um tanto robótico mas que parece ter encontrado um caminho desde que trocou para o pouco conhecido treinador Fredrik Rosengren no ano passado. Sua vitória sobre Grigor Dimitrov teve um pouco de tudo. O búlgaro jogou bem menos do que fizera contra Nick Kyrgios, talvez sentindo o desgaste físico e mental, enquanto Edmund se superou a partir do terceiro set. Conseguiu administrar os nervos, arrancando saques precisos e bolas de risco. Ele soltou outra boa frase: “Preciso curtir o momento, porque às vezes você fica tão envolvido emocionalmente na partida que se esquece de aproveitar a vitória”.

Elena Svitolina foi outra vítima dos problemas físicos. Limitada por dores no quadril e jogando à base de analgésicos, não rendeu nada e chegou a perder sete games seguidos para a belga Elise Mertens. Aos 22 anos e apenas no seu quinto Grand Slam, Mertens ainda não perdeu na temporada e admite que chegou muito mais longe do que poderia esperar no AusOpen.

Dificilmente terá chances se Carol Wozniacki não sentir pressão de estar tão perto de seu primeiro troféu de Grand Slam. A dinamarquesa viveu altos e baixos contra Carla Suárez, dando-se ao luxo de arriscar mais bolas do que o normal no primeiro set. É um estilo bem mais gostoso de se ver.

O tênis brasileiro por sua vez se despediu das chaves de duplas masculinas do Australian Open com outra amarga derrota. Tal qual havia acontecido com Bruno Soares e o escocês Jamie Murray, surpreendidos por uma parceria tecnicamente inferior, Marcelo Melo e o polonês Lukasz Kubot foram muito irregulares e deixaram escapar uma grande chance de faturar mais um Grand Slam

A quarta-feira
– Federer e Berdych vão se cruzar pela 10ª vez num Slam, o que é a quarta mais repetida partida da Era Aberta. Suíço tem 19-6 no geral e ganhou as últimas oito desde Dubai-2013.
– Suíço jamais perdeu uma rodada de quartas em Melbourne e tenta assim 14ª semi na Austrália e 43ª da carreira.
– Berdych disputará sua 200ª partida de Slam, tendo 143 vitórias. Tcheco é o tenista com mais semis de Slam (7) sem jamais ter chegado ao título.
– Chung ganhou de Sandgren duas semanas atrás em Auckland em três sets bem disputados. Cada um teve campanhas incríveis até agora: coreano tirou Zverev e Djokovic, americano bateu Wawrinka e Thiem.
– EUA não têm um semi em Melbourne desde Roddick, em 2009. Nunca houve um coreano na penúltima rodada de um Slam.
– A última vez que um Slam teve dois não cabeças nas semis foi em Wimbledon de 2008, com Safin e Schuettler. Na Austrália, não acontecia desde 1999.
– Halep é favorita diante de Pliskova, sobre quem tem 6-1, mas o piso mais veloz pode ajudar a tcheca. Quem vencer, continua a sonhar com título inédito e número 1.
– Kerber também leva 6-1 de vantagem sobre Keys, mas as duas não se cruzam desde outubro de 2016. Americana não perdeu set no torneio e deve ser também um duelo típico de ataque e defesa.