Arquivo da tag: Borna Coric

O dono do tênis
Por José Nilton Dalcim
14 de outubro de 2018 às 12:18

Num passe de mágica, Novak Djokovic deixou as trevas de uma primeiro semestre desalentador para virar outra vez o grande nome do tênis do momento. Que transformação. Até Monte Carlo, o sérvio era um jogador tenso, irregular, apressado, lento, impreciso, sofrendo derrotas estranhas para adversários muito inferiores. Nos últimos três torneios, voltou a ser atlético, incansável, ousado, agressivo e alegre. E nesse estágio de corpo e alma é bem difícil segurá-lo.

Não tenho muita dúvida que o momento da virada de Djokovic aconteceu naquela semifinal espetacular de Wimbledon diante de Rafael Nadal. A vitória suada sobre o número 1, que vinha de uma arrancada notável ao longo do saibro, parece ter não apenas recuperado toda a confiança do sérvio, mas também lhe dado o desejo de reação. Dali em diante, com exceção natural no Canadá, Djoko só melhorou a cada semana.

Inegável também que essa evolução tem tudo a ver com seu aprimoramento físico, e aí é importante recordar entrevista de Marian Vajda em que o treinador disse que precisou convencer o pupilo a minimizar algumas condutas da dieta. Ao retomar a firmeza de pernas e a resistência, pudemos ver novamente aquele sérvio extremamente ágil e competente nos contragolpes a realizar uma cobertura impecável da quadra, o que geralmente leva o adversário ao risco cada vez maior.

Recuperado fisicamente, faltava a Nole acreditar em si e provavelmente Vajda teve toda a responsabilidade nisso. Depois de barrar Nadal em Wimbledon, voltando aos títulos de Grand Slam ainda sem mostrar seu melhor tênis, dominar Roger Federer para a conquista tão sonhada em CIncinnati selou a reação. Desde aquele domingo, ficou difícil duvidar de Nole. Ele teria ainda provação nas rodadas iniciais e infernais do US Open. O que vimos nesta semana em Xangai foi um desfile do melhor Djokovic.

Num momento tão espetacular e dominador do arqui-rival, parece pouco provável que Nadal ainda consiga se manter como número 1 nesta reta final de temporada, porque aí entram componentes essenciais: a falta de ritmo que o espanhol terá, já que não compete desde a queda em Nova York, e o histórico pouco expressivo de Rafa na quadra coberta europeia. Paris e Londres são justamente dois grandes títulos que jamais conquistou.

Borna Coric não repetiu nesta madrugada a atuação exuberante da véspera diante de Roger Federer, mas era previsível que o croata teria maior dificuldade para matar pontos diante do volume defensivo do adversário. Golpe por golpe, Djokovic tem tudo superior e isso ficou patente nos mínimos buracos que cedeu. Coric lutou muito e poderia ser recompensado por uma quebra no segundo set, mas falhou feio no único break-point que teve.

De qualquer forma, foi uma final intensamente disputada, com ótimos lances dos dois lados, e a certeza de que o croata evoluiu muito desde o ano passado, quando ouviu conselhos de Riccardo Piatti e adotou postura mais ofensiva. Ainda falta trabalhar mais o forehand, porém a projeção para seu futuro está bem mais promissora.

Melo de novo
O mineiro Marcelo Melo e seu parceiro polonês Lukasz Kubot conseguiram embalar. Conquistaram o segundo título seguido, obtendo duas vitórias sobre os líderes do ranking Marach/Pavic e outra neste domingo sobre Bruno Soares e o britânico Jamie Murray.

Com isso, Melo e Kubot assumem o terceiro lugar no ranking de parcerias da temporada e o quarto lugar no individual. Dificilmente no entanto conseguirão chegar à liderança, já que estão quase 2.200 pontos atrás de Marach/Pavic e a 2.700 de Mike Bryan.

Melo gosta mesmo do Oriente. É agora tri em Xangai (ganhou com Dodig e Klaasen) e soma um em Tóquio e outro em Pequim.

Detalhes
– Se Djokovic realmente retomar o número 1, marcará a maior ascensão de um tenista ao topo dentro de uma mesma temporada, já que era 22º em maio. O maior feito nesse aspecto cabe a Andre Agassi, que foi de 14º à ponta ao longo de 1999.
– Djokovic não perdeu um único de seus 47 games de serviço nesta semana. Ele disse após a estreia que nunca vira a quadra chinesa tão veloz.
– Sérvio tem 27 vitórias em seus últimos 28 jogos desde a estreia em Wimbledon e 18 de invencibilidade desde Cincinnati.
– Coric continua sua temporada de feitos particulares: fez primeira semi de Masters em Indian Wells, ganhou inédito ATP 500 em Halle, quebrou a barreira do top 20 em julho e será 13º nesta segunda-feira após a primeira final de Masters.
– Karolina Pliskova perdeu a final de Tianjin para Caroline Garcia e ainda não garantiu vaga no Finals. Terá de brigar em Moscou contra Kiki Bertens, mas precisa de muito pouco, já que Elina Svitolina não joga nesta semana.

Tênis moderno
Por José Nilton Dalcim
13 de outubro de 2018 às 13:30

O que me parecia uma tendência, neste Xangai ficou ainda mais claro. Não é Roger Federer quem está velho, mas o seu jogo. Apesar de toda sua indiscutível habilidade e elegância, nem mesmo uma quadra tão veloz permitiu que exibisse um tênis de alta qualidade e principalmente consistência. Houve lampejos de genialidade, mas isso não basta no circuito de hoje.

Borna Coric foi um exemplo perfeito de como o tênis moderno se impõe. Sacou muito mais forte – geralmente acima dos 200 por hora – e com maior precisão, bateu dos dois lados com profundidade e coragem sem se afastar de linha de base, subiu uma única vez à rede mesmo num piso tão veloz. Ao mesmo tempo, Federer não conseguiu efetividade com o primeiro saque, defendeu-se quase sempre com slice de backhand, tentou solução com um forehand chapado demais.

A principal pergunta é se haverá tempo e vontade para Federer se reinventar, ainda mais quando o ‘padrão Djokovic’ está sendo adotado por tantos tenistas competentes, jovens e determinados. Por enquanto, a resposta não é animadora, porque vimos a dificuldade de o suíço se manter competitivo até sobre superfícies em que deveria ainda dominar, como Wimbledon, Cincinnati ou Xangai. Vale lembrar que também vimos Coric ganhar de Federer na grama muito rápida de Halle.

Neste domingo, o croata de apenas 21 anos – mas já com quatro temporadas no nível mais elevado do circuito – vai enfrentar Djokovic pela terceira vez, a primeira fora do saibro. Como se sabe, seguem padrão técnico e tático muito semelhantes, e exatamente por isso o croata nunca tirou set do sérvio, porque afinal Nole faz tudo um pouco melhor.

Mas é preciso ressaltar que desde o ano passado Coric vem trabalhando incansavelmente no saque e isso já mostra muito resultado. Aventura-se cada vez mais na rede e fisicamente tem leveza e resistência. Ainda assim, precisará de um dia menos feliz do adversário para ter chances de ganhar seu primeiro Masters.

A má notícia para Coric é que Djokovic joga cada dia de forma mais solta e confiante. E que o diga Alexander Zverev. Claro que o alemão abusou dos erros não forçados na semifinal deste sábado, mas a diferença de volume de jogo foi assustadora. Nole literalmente desfilou sobre um piso veloz que tanto o agrada e que maximiza o saque, a devolução, o contragolpe e o jogo de rede.

O número 2 do ranking tradicional está garantido, porém é muito mais significativo olhar o ranking da temporada, aquele que reflete com mais clareza o momento: em caso de tetra em Xangai, Djoko surgirá na segunda-feira meros 35 pontos atrás de Rafa Nadal e já terá mais de 2.100 sobre o terceiro colocado Juan Martin del Potro.

Final mineira
Título brasileiro garantido nas duplas de Xangai. Marcelo Melo e Bruno Soares tiveram semana perfeita, em que garantiram vaga no Finals de Londres e hoje estão entre as quatro melhores parcerias da temporada.

Enquanto Marcelo disputará sua 54ª final da carreira em busca do 32º troféu e do 9º Masters, Bruno faz 56ª decisão atrás do 30º título e do quarto Masters, o segundo seguido.

Melo/Lukasz Kubot já enfrentou Soares/Jamie Murray seis vezes pelo circuito, com três vitórias no ano passado. Semanas atrás, no piso também veloz de Cincinnati, deu Bruno.

Detalhes
– Coric assume o 13º do ranking tradicional, sua maior marca pessoal, e está em 11º na temporada. Para ter chance de ir ao Finals, o título neste domingo é essencial, já que o levaria a 2.700 pontos, ou seja 835 atrás de Dominic Thiem. O croata está inscrito em Viena e Paris.
– Os Masters já tiveram dois campeões inéditos em 2018: Del Potro em Indian Wells e John Isner em Miami, e assim pode ter em Coric o terceiro. Desde 2003, isso só aconteceu no ano passado, com Zverev, Dimitrov e Sock.
– Djokovic pode novamente se aproximar de Nadal na luta pela liderança de títulos de nível Masters. O sérvio tem 31, dois a menos. Fato curioso e notável, Nole pode ser tetra em seis dos nove Masters, uma vez que venceu pelo menos quatro em Indian Wells (5), Miami (6), Roma, Canadá e Paris.
– O título vale US$ 1,3 milhão e isso levaria Djoko a mais de US$ 10 mi na temporada. Mesmo com os US$ 670 mil de vice, é o primeiro na história a superar os US$ 120 mi totais.

Djokovic à frente
Por José Nilton Dalcim
11 de outubro de 2018 às 13:11

Claro que não é possível comparar Marco Cecchinato na quadra dura com Roberto Bautista, mas as duas exibições já feitas em Xangai deixam claro que Novak Djokovic está nadando de braçadas, enquanto Roger Federer não achou ainda seu melhor tênis sequer sobre uma quadra decidamente rápida.

Diante de Jeremy Chardy e Cecchinato, o sérvio começou mais lento, como que ainda a procurar um ritmo comfortável, e aí mostrou não apenas um saque firme mas também determinação de ir à rede e ótima movimentação, sem falar é claro numa devolução tão apurada que o italiano – seu algoz em Roland Garros cinco meses atrás – levou uma surra impiedosa.

Na contramão, Federer fez apresentações firmes nos primeiros sets diante de Daniil Medvedev e Bautista, mas sofreu uma repentina e preocupante queda de intensidade. Irritado com seus erros e escolhas, correu risco real de derrota diante do espanhol. O suíço está determinado a ir muito à rede e repetiu a tática nos dois jogos, mas por vezes faltaram velocidade para chegar mais perto da rede ou calma na preparação da subida.

Curiosamente, os dois grandes favoritos em Xangai têm partidas exigentes nas quartas de final. Djokovic reencontra Kevin Anderson, que adora um piso rápido e provavelmente ganhou confiança com aquela vitória sobre Nole na Laver Cup, ainda que amistosa.

Federer terá pela frente Kei Nishikori, um adversário muto mais qualificado sobre a quadra dura do que os anteriores, que joga em cima da linha com capacidade tanto de defesa como de ataque. Os dois não se cruzam desde aquela espetacular batalha de cinco sets no Australian Open do ano passado.

A se lamentar a contusão no joelho de Juan Martin del Potro, sofrida ainda na metade do primeiro set diante de Borna Coric, o que tirou o argentino da briga imediata pelo número 2 e pode ter consequências ruins para os três últimos torneios que estavam no seu calendário (Basileia, Paris e Finals).

Detalhes
– Bruno Soares está na semi de Xangai e jogará o Finals pela 5ª vez na carreira, a 3ª ao lado de Jamie Murray.
– Nishikori já retomou o 11º lugar do ranking e será top 10 se for à final de Xangai.
– Coric, que tem sido outro jogador depois da cirurgia no joelho em setembro de 2016, garante o melhor ranking da carreira, com o 16º.
– Com mais uma vitória, Alexander Zverev estará matematicamente no Finals.