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Pé esquerdo
Por José Nilton Dalcim
4 de janeiro de 2018 às 19:03

Depois de um 2017 de escasso sucesso, a nova temporada já começou com o pé esquerdo para o tênis brasileiro. Thomaz Bellucci anunciou nesta quinta-feira ter chegado a um acordo com a Federação Internacional cinco dias atrás e aceitou a suspensão de cinco meses por uso não intencional de substância proibida, que teria contaminado um suplemento de vitaminas que ingere por conta de seu problema de suor excessivo.

Já havia muita gente sussurrando nos bastidores de que essa parada de Bellucci havia sido muito repentina. Afinal, ele chegou a viajar para disputar o ATP de Shenzhen, na China, mas deu meia volta. Agora, sabe-se que foi justamente lá quando a ITF o notificou da suspensão preventiva – o exame fora feito em julho durante Bastad – e daí em diante a contusão no tornozelo virou a desculpa certa para justificar sua ausência forçada.

Ao fazer o acordo para pegar a pena mínima, já que felizmente conseguiu provar a falta de intenção e falou alto seu histórico na carreira, Bellucci se viu obrigado a desistir de disputar os torneios na Austrália e assim o retorno acontecerá no saibro de Quito, já na primeira semana de fevereiro.

Claro que a suspensão levou Bellucci a terminar a temporada fora do top 100 – ele chegou a se inscrever nos challengers sul-americanos, mas não pôde jogar devido ao julgamento não concluído – e ainda por cima terá de defender a semi e os 90 pontos de Quito logo de cara. Com 30 anos completados no penúltimo dia de 2017, o recomeço fica um pouco mais difícil. Ele ainda decidiu se mudar para a Flórida e a intenção de contratar um técnico espanhol.

Outra má notícia veio com Thiago Monteiro. O canhoto cearense encarou o duro quali de Pune, no piso sintético sufocante do verão indiano, ganhou uma boa primeira rodada e estava dando trabalho ao top 15 Kevin Anderson quando a dor no tornozelo esquerdo não o deixou prosseguir na partida e certamente preocupa para o quali do Australian Open da semana que vem.

Para compensar, Rogerinho Silva herdou a vaga de Kei Nishikori e garantiu ao menos duas presenças do tênis brasileiro no primeiro Grand Slam da temporada, somando-se a Bia Haddad. A canhota, que teve os resultados de simples mais expressivos de 2017, exigiu da experiente Aga Radwanska em Auckland. Parece que será apenas uma questão de ganhar maturidade e um pouco mais de confiança para Bia aprontar em cima das grandes.

Por fim, há de se lamentar também a esperada desistência de Andy Murray do Australian Open. O escocês está tentando de tudo para voltar a jogar e, como havia feito no US Open, viajou, treinou, chegou a fazer um set público e entrou até na chave de Brisbane antes de a realidade bater à porta.

Murray não tem mesmo condições de seguir carreira sem a cirurgia no quadril, nem mesmo num nível mediano. Então chegou a hora da verdade a ele: ou se submete não apenas à operação mas principalmente à sacrificante fisioterapia de recuperação, que levará no mínimo seis meses, ou terá de se aposentar.

Melhores do Ano
Por José Nilton Dalcim
7 de dezembro de 2017 às 10:51

Como acontece há 17 anos, TenisBrasil colocou no ar sua pesquisa dos Melhores do Ano, com algumas questões também sobre o que pode acontecer na temporada 2018. Como de hábito, as respostas são coletadas em dois painéis separados, um para os internautas e outro para especialistas convidados, o que sempre dá panoramas curiosamente distintos. Saberemos os resultados na segunda-feira. Até lá, convido vocês a votarem.

Vou dar minha visão da temporada em cima das perguntas. Claro que a mais polêmica é quem teriam sido os melhores da temporada. Eu voto em Roger Federer e Garbiñe Muguruza, pelo conjunto da obra, ainda que Rafa Nadal e Simona Halep tenham terminado com merecidos números 1. Difícil mesmo é decidir sobre o ‘feito do ano’. Ficarei com o título incrível de Federer na Austrália, pela exigência da chave, por então marcar seu retorno incerto às quadras e ainda por cima após a épica final diante de Rafa. Também por isso, Australian Open foi o ‘torneio do ano’ para mim, com menção honrosa ao inesperado sucesso da Laver Cup.

A surpresa pode ser tanto de Jelena Ostapenko como de Sloane Stephens. Tendo mais para a letã e seu jogo deliciosamente agressivo em pleno saibro de Paris. E daí podemos falar das evoluções técnicas, outra questão cheia de alternativas. Ficarei com David Goffin e CoCo Vandeweghe, que me parecem candidatos aliás a boas coisas em 2018. Quanto às revelações, Denis Shapovalov, sem dúvida.

A área de jogos é bem divertida. Zebra do ano? Puxa, quantas. Gostei demais do jogaço entre Denis Istomin contra Novak Djokovic na Austrália. Melhor jogo masculino? Esse é barbada: Fedal em Melbourne. Melhor do feminino? O duelo de estilos Muguruza x Kerber de Wimbledon.

As questões sobre 2018 devem ser bem competitivas. Acredito que Djokovic consiga ganhar um novo Grand Slam, talvez já em Roland Garros, e que ele e Murray serão ameaça real a Rafa e Federer a partir de Miami. A número 1 ao final de 2018 será… Serena Williams! E imagino que Halep esteja bem mais perto de seu primeiro Slam do que Karolina Pliskova, Sascha Zverev ou Grigor Dimitrov.

Por fim, o tênis brasileiro viveu uma temporada fraca, apesar da campanha magnífica de Marcelo Melo, da grande e esperada ascensão de Bia Haddad e dos bons jogos de Rogerinho Silva. O feito do ano nem dá nem para pensar duas vezes: título de Wimbledon é o máximo que se pode querer no tênis.

Por falar em Bia, será um ano duro por jogar em nível muito alto e então minha expectativa é que se mantenha no top 50. A aposta da nova geração me deixa em dúvida, infelizmente. Talvez opte por Luísa Stefani, que tem o piso duro como seu forte.

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Torneios de base despencam no Brasil
Por José Nilton Dalcim
4 de outubro de 2017 às 23:19

Considerados o degrau mais importante na transição entre a carreira juvenil e o universo profissional, os torneios ‘futures’ praticamente desapareceram do calendário brasileiro nas três últimas temporadas.
O auge da crise para os meninos veio justamente em 2017, quando apenas três campeonatos dessa categoria serão realizados e todos agora em novembro. Isso quer dizer que não houve um único future masculino no país desde julho do ano passado. Os três previstos acontecerão em Santos, São Paulo e São Carlos, todos com a premiação mínima exigida que é agora de US$ 15 mil.

Este é o pior calendário de torneios de base para os homens desde que Gustavo Kuerten virou número 1 do mundo. Apenas cinco foram promovidos em 2002, mas a partir de 2006 veio um crescimento vertiginoso, principalmente porque a Confederação decidiu investir pesado, ajudando os promotores com arbitragem e bolas. Assim, houve 38 em 2009, 33 na temporada seguinte, o recorde de 37 em 2011.

Daí em diante, a queda foi gradativa. Em 2014, com a retirada dos subsídios da CBT, o calendário de futures masculinos caiu para 13, depois 9 em 2015 e 4 no ano passado, com o agravamento da crise econômica. A consequência imediata é que os pre-profissionais brasileiros tiveram de ir para o Exterior em busca de experiência e pontos, o que certamente limitou a aventura da maciça maioria.

O resultado é visível no ranking de simples da ATP. Na lista desta semana, estão classificados 61 brasileiros, mas apenas 11 deles entre os top 500. Seis anos antes, quando tivemos o maior calendário de futures, eram 89 pontuados e 25 deles entre os 500 primeiros.

Embora numericamente menos abastado, o tênis feminino ao menos tem mantido um padrão. Neste ano, foram nove torneios de base promovidos, dois deles de US$ 25 mil, um pouco inferior aos 11 do ano passado, sendo seis deles de US$ 25 mil. Novamente, o ano de 2011 foi o mais rico, com 20 ITFs promovidos, apenas um a mais do que em 2010. Fica muito claro perceber também a diferença: nesta semana, são 17 meninas brasileiras no ranking de simples contra 30 de seis anos atrás.

Não por acaso, Thiago Monteiro e Bia Haddad Maia subiram os degraus a partir dos futures e ambos começaram aos 14 anos. O cearense foi ganhar o primeiro título justamente num dos últimos torneios de 2011 e disputou nove futures aqui para saltar 300 posições no ano seguinte. Bia também faturou seu primeiro ITF em Goiânia há seis anos.

Qual a solução? A curto prazo, parece difícil. Torneios futures sofrem para conseguir pagar as despesas, que necessariamente já começam perto dos R$ 50 mil. Mesmo dando o mínimo de estrutura regulamentar, a conta beira os R$ 70 mil. E como o Brasil permanece em crise econômica, não está fácil arrumar patrocinadores. Vamos lembrar que são eventos pequenos, com raros tenistas conhecidos e portanto muito pouca mídia. Acredito que a principal solução seja a criatividade, buscar fórmulas atrativas de envolvimento do investidor, o que pode incluir clínicas, torneios amadores ou ações sociais paralelas.

Para complicar ainda mais, existe a regra internacional da ITF que exige a disputa de ao menos dois torneios próximos em semanas consecutivas para autorizar uma data. Claro que a CBT poderia voltar a dar algum apoio como fazia antes, principalmente com relação à arbitragem, já que bola não é o fim do mundo. Um bom caminho é negociar melhor valores com as equipes de arbitragem. Afinal, se o calendário crescer, todo mundo sai ganhando.

Como sempre insisto, é só com união das várias partes que o tênis começará a sair do buraco. Outra vez.

Futures no Brasil (masculino)
2017 – 4 previstos e 1 cancelado
2016 – 7 previstos e 3 cancelados
2015 – 9
2014 – 16 (3 cancelados)
2013 – 21 (3)
2012 – 36 (8)
2011 – 44 (7)
2010 – 38 (5)
2009 – 39 (1)
2008 – 35
2007 – 25
2006 – 22
2005 – 11
2004 – 14
2003 – 6
2002 – 5
2001 – 10
2000 – 2

ITFs no Brasil (feminino)
2017 – 10 (1 cancelado)
2016 – 11
2015 –  8 (1)
2014 –  8
2013 – 16 (1)
2012 – 14 (1)
2011 – 25 (5)
2010 – 21 (2)
2009 –  8
2008 – 10
2007 – 16
2006 –  3
2005 –  5
2004 –  5
2003 –  3
2002 –  3
2001 –  6
2000 –  2