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Federer deixa dúvidas
Por José Nilton Dalcim
16 de janeiro de 2019 às 14:26

Muito menos pelo placar exigente com dois tiebreaks, muito mais por não ter achado o ritmo ideal diante de um adversário de parco currículo, Roger Federer venceu sua segunda partida no Australian Open mas deixou dúvidas. O backhand descalibrado o forçou a usar slices com maior frequência, sobraram ‘madeiradas’ de forehand e a devolução não foi incisiva diante do jogo agressivo do britânico Daniel Evans. Com isso, o suíço precisou salvar set-point e virar o tiebreak do primeiro set, perdeu um game de serviço quando dominava no segundo e só ficou mais à vontade na última série.

Na entrevista, Federer destacou dois pontos: a bola Dunlop, que não está agradando a maioria dos jogadores, e a diferença de velocidade do piso. O suíço diz que quem joga à noite sente as coisas bem diferentes: é mais difícil dar efeito na bola e a quadra fica mais lenta. Ele estreou na rodada noturna, mas encarou Evans no final de tarde, o que pode explicar seu maior desconforto com um adversário agressivo. É bem provável que volte a jogar de tarde contra Fritz, um emérito sacador.

Rafa Nadal, pelo jeito, gostou dessa maior lentidão. Em seu primeiro jogo noturno na Rod Laver, deu um show diante de Matthews Ebden, exibindo um amplo arsenal. O australiano deu um susto no começo, mas a partir da primeira quebra ficou dominado. Nenhuma dificuldade de movimentação para o espanhol, que buscou bolas bem difíceis e disparou seus contragolpes espetaculares.

Vem agora um duelo de geração diante da esperança local Alex de Minaur, e por isso deve ser o jogo noturno da sexta-feira. O pupilo de Lleyton Hewitt tem chances? Pequenas. Precisará se manter perto das linhas para pegar na subida e encurtar o tempo do espanhol, arriscar paralelas de backhand para ter a cruzada aberta, o ponto mais vulnerável de Rafa. Tem de evitar ao máximo que o cabeça 2 use o forehand. Parece simples, mas não é fácil manter um padrão desses por quatro ou cinco sets.

Rumo a um duelo direto, Marin Cilic e Roberto Bautista sofreram além do que se esperava. O croata ficou pregado demais no fundo de quadra contra o bom Mackenzie McDonald e o espanhol fez outra partida em cinco sets, desta vez diante do local John Millman, desgaste que pode custar caro diante de Karen Khachanov. O adversário de Cilic será o velho e bom Fernando Verdasco.

Bia fez o que deu
Pode parecer pouco tirar cinco games da vice-líder do ranking, mas Bia Haddad fez o que tinha de fazer diante da solidez de Angelique Kerber: arriscou saque, bateu pesado o tempo inteiro, encurtou o tempo com subidas espertas à rede, forçou devoluções. Claro que isso também lhe custou um caminhão de erros não forçados – 39, sendo 29 no primeiro set – e a certeza de que precisa continuar trabalhando duro no seu backhand.

Com o nível que tem apresentado, Bia deve voltar rapidamente ao top 100, que é seu lugar. Está cada vez mais à vontade nas quadras duras e voltou a ter confiança no saque. Abusou dos efeitos abertos contra Kerber, uma arma importante para ver o outro lado aberto e finalizar sem ter que forçar tanto. Quem sabe, Bia consiga encerrar o jejum brasileiro contra top 10, que está próximo de atingir 30 anos nesta temporada. A última foi Dadá Vieira, em julho de 1989.

A segunda rodada de Carol Wozniacki, Sloane Stephens, Petra Kvitova e Maria Sharapova foram muito tranquilas. Fica a expectativa para o duelo direto de Wozniacki e Sharapova. Pelo que vi até agora, sou mais a dinamarquesa.

Surpresas americanas
Figura pouco destacada entre os novatos, sempre achei Frances Tiafoe com o melhor potencial entre os norte-americanos da Next Gen, já que tem um tremendo físico e golpes de base compactos. Faltava a ele um saque mais contundente e um voleio seguro, e foram exatamente esses dois componentes que o ajudaram na virada em cima de Kevin Anderson, um dos fortes postulantes à final deste Australian Open. Colocou 70% do primeiro saque, ganhou 80% desses pontos, e venceu 21 de 27 pontos na rede. Encara agora o sempre perigoso Andreas Seppi.

Entre as meninas, Amanda Anisimova, apenas 17 anos e mais jovem entre as top 100 de hoje, arrasou a cabeça 23 Lesia Tsurenko com seu estilo agressivo. Agora, fará delicioso duelo diante da bielorrussa Aryna Sabalenka, que é apenas três anos mais velha mas já 11ª do ranking.

A nova geração também avançou nesta quarta-feira com De Minaur, Khachanov, Fritz, Stefanos Tsitsitpas e a convidada Kimberly Birrell.

Destaques do dia
As vitórias de Tomas Berdych e Grigor Dimitrov valeram pela ótima qualidade técnica dos duelos. Aos 33 anos e voltando de longa parada por contusão nas costas, o tcheco se reinventou, e com sucesso. Agora, não perde qualquer oportunidade de ir à rede e tem feito voleios de grande categoria. Chances reais de passar por Diego Schwartzman. Na rodada noturna, Dimitrov e Pablo Cuevas fizeram quatro sets muito bem disputados, tirando tudo de seus backhands de uma mão. O búlgaro, agora sob supervisão de Andre Agassi, se candidata a cruzar com Nadal lá nas quartas.

Digno adeus
Por José Nilton Dalcim
14 de janeiro de 2019 às 12:32

Andy Murray, é certo, jamais vencerá o Australian Open. O escocês fez sua despedida nesta segunda-feira do Grand Slam em que somou cinco vices, mas fez um bonito papel. Sabe-se lá o tamanho do esforço de seu quadril, lutou por quatro horas e cinco sets diante de um firme Roberto Bautista, fez jogadas de grande qualidade técnica, correu como um louco e levantou o público até mesmo quando a derrota era iminente.

Felizmente, a expectativa de uma saída melancólica se esvaiu logo. Murray perdeu na verdade apenas dois serviços nos dois primeiros sets, curiosamente logo depois de desperdiçar break-points. Viu Bautista muito firme o tempo todo, até o espanhol fazer 2/1 e saque no terceiro set.

Então entrou em cena o Murray brigador, de várias opções táticas e toque refinado. Ganhou dois tiebreaks mostrando notável equilíbrio emocional para delírio do público. Com justiça, o espanhol ratificou seu grande momento e o 23º lugar do ranking. Dominou o quinto set e atravessou a quadra para um caloroso abraço de despedida.

Apesar da voz embargada, Murray segurou ao máximo as lágrimas e recebeu bela homenagem dos concorrentes e amigos de circuito, incluindo meninas, numa clara referência a seu apoio ao tênis feminino. Foi ele, afinal, quem ousou contratar Amélie Mauresmo como treinador no auge de sua carreira.

Fica a expectativa sobre os próximos passos do escocês, que está inscrito para Montpellier, Marselha e Dubai agora em fevereiro, mas não tem qualquer intenção de participar. Na entrevista pós-jogo, ele disse que precisa tomar uma decisão: ou descansa e tenta entrar em forma para se despedir em Wimbledon ou então opera novamente, sem qualquer garantia que poderá voltar a jogar e portanto sequer disputar seu último Slam da grama.

O poder do saque
Piso e bolas estão velozes em Melbourne e apostar no saque é a postura certa. Rafa Nadal e seu novo serviço se deram bem. Com movimento mais natural e pequenas adaptações que objetivam dar mais velocidade ao golpe após o quique na quadra, o desempenho foi muito animador – 67% de acerto, 74% de pontos vencidos, seis aces -, ainda que James Duckworth não seja um grande devolvedor.

Roger Federer, claro, também usou sua arma predileta para superar Denis Istomin, na base de 14 aces. O índice de acerto de 56% pode melhorar muito, porém jamais viu break-points e pôde arrancar ‘ohsss’ com seu requintado arsenal de voleios e deixadas, aliados a ótima movimentação de pernas.

O saque também ajudou muito Marin Cilic na sua perigosa estreia contra Bernard Tomic, permitiu Kevin Anderson recuperar-se do susto diante de Adrian Mannarino e marcou a inesperada vitória de Reilly Opelka sobre John Isner, em quatro tiebreaks e num festival de 87 aces.

 

Pneus e bicicleta
Oito placares de 6/0, o chamado ‘pneu’, sendo quatro em cada chave já aconteceram na primeira rodada. Maria Sharapova aliás é uma especialista nisso. Em 2013, marcou duas ‘bicicletas’ consecutivas nas duas primeiras rodadas do AusOpen. Destaque também para Gael Monfils, que fez nesta madrugada dois ‘pneus’ contra Damir Dzumhur.

Grande, Bia!
Apesar de alguns altos e baixos, muito normais para este momento da carreira e para o piso veloz, Bia Haddad fez um jogo corajoso, bateu sempre na bola, forçou saque, foi à rede e tirou a top 70 Bernarda Pera. Pouco a pouco, seu melhor tênis está voltando.

O desafio agora é a também canhota Angelique Kerber, vice do ranking e campeã de 2016. Para quem nunca venceu uma top 10, a tarefa de Bia é hercúlea. A alemã estreou com sobras, repetindo Carol Wozniacki, Sloane Stephens, Petra Kvitova, Aryna Sabalenka e Ash Barty. Lado duro da chave!

Três cabeças já caíram no feminino: Julia Goerges, Jelena Ostapenko e Barbora Strycova, o que não chega a abalar estruturas. Goerges tinha grande vantagem quando Danielle Collins resolveu trocar raquete no meio do game. Coincidência ou não, virou o placar.

O jogo do dia
Sem dúvida, não só pelo clima emocional mas pelo equilíbrio e lances de qualidade, a vitória de Bautista em cinco sets foi o grande momento da chave masculina neste dia inicial. O espanhol de 30 anos ainda sonha com sua primeira quartas de Slam, após nove tentativas frustradas nas 4ª rodada, três delas em Melbourne.

No feminino, Katie Boulter e Ekaterina Makarova inauguraram o supertiebreak de terceiro set, com direito é claro a confusão. A britânica comemorou ruidosamente ao fazer 7-4, mas então foi avisada pela juíza que a contagem iria até 10. Recobrou-se e fechou.

triple-towers-memphis-2017A surpresa da rodada
Opelka, de 21 anos, certamente sai como a ‘zebra’ da segunda-feira. Com 2,11m – há discusão se não seriam 2,13m, o que o tornaria o mais alto tenista da história – é três centímetros maior que Isner. Foi seu segundo jogo de Slam e apenas a nona vitória de nível ATP. Campeão juvenil de Wimbledon em 2015, contraiu mononucleose duas temporadas depois e perdeu o embalo. Na foto, as três ‘torres’ do tênis masculino.

Os velhinhos sonham
Por José Nilton Dalcim
10 de janeiro de 2019 às 10:45

É absolutamente incrível que dois tenistas de 37 anos sejam sérios candidatos a levantar o primeiro Grand Slam de 2019. O histórico recente em Melbourne, a superação constante de façanhas e a qualidade técnica permitem tal distinção a Roger Federer e Serena Williams. Não será certamente tarefa fácil, ainda mais porque Novak Djokovic voltou a sua melhor forma e a nova geração está faminta. Mais do que adversárias jovens ou atléticas, Serena por sua vez lutará antes de tudo contra si mesma. Como ficou o sorteio das chaves?

Pelo menos até as semifinais, não consigo ver nem de longe um adversário capaz de frear Djokovic numa melhor de cinco sets. Nem a experiência de Jo-Wilfried Tsonga, a ousadia de Denis Shapovalov ou a consistência de base de Daniil Medvedev. Claro que o russo merece cuidado especial, porque tem golpes agressivos, se mexe muito bem no fundo de quadra e adora um contragolpe. Por fim, o mais provável é que Djokovic faça as quartas contra Kei Nishikori e, apesar de estar na procura de uma mudança de estilo, o japonês costuma falhar na parte física e emocional.

Alexander Zverev carrega a maior esperança de renovação deste Australian Open e parece que o destino resolveu ajudá-lo, dando-lhe uma sequência promissora para quem imagina fazer sua primeira semi de Slam. Ainda assim, precisa de cabeça no lugar contra o trabalho de formiga de Gilles Simon, numa eventual terceira rodada, e terá de aguardar o sobrevivente de um setor de chave curiosíssimo que tem Nick Kyrgios x Milos Raonic e o vencedor encarando Stan Wawrinka ou Ernests Gulbis. Apostaria no suíço e provavelmente Zverev adoraria evitar Kyrgios. Há uma boa chance de as quartas serem diante de Borna Coric, ainda que o croata não tenha feito qualquer preparação para Melbourne.

O caminho de Federer também não empolga nas três primeiras rodadas, ao menos se o suíço mostrar a mesma qualidade e determinação que vimos na Copa Hopman. As oitavas prometem ser mais interessantes seja com o garoto Stefanos Tsitsipas – que deu trabalho em Perth – ou com o sólido Nikoloz Basilashvili. Acho que o georgiano seria um grande teste. Por fim, as quartas indicam reencontro com Marin Cilic, o favorito de um setor que tem Karen Khachanov e Roberto Bautista. A estreia de Cilic contra Bernard Tomic não é fácil, mas pode lhe dar o ritmo e a confiança necessários.

Por motivos óbvios, Nadal gera dúvidas. Desde o US Open, já foi o joelho, o pé, o músculo abdominal e a coxa. Assim, não vence uma partida desde o duelo épico contra Dominic Thiem, há quatro meses, incluindo exibições. Mudou o saque, segundo Carlos Moyá para jogar de forma mais agressiva, o que sempre é um risco. Pode ter uma sequência australiana – James Duckworth, Matthew Ebden e Alex de Minaur – antes de Diego Schwartzman. Ou seja, partidas fisicamente exigentes. Por fim, nas quartas, viria um grande sacador. Kevin Anderson é o mais cotado no grupo que tem John Isner e Grigor Dimitrov. Aliás, Anderson me parece o jogador fora dos quatro cabeças com maior potencial de ir bem longe.

Dureza mesmo está a vida de Simona Halep. Sem técnico e sem vitórias desde agosto, terá de estrear contra a mesma Kaia Kanepi que a tirou do US Open e a levou a encerrar prematuramente a temporada. Se avançar, ainda pode ter as duas Williams pela frente: Venus na terceira e Serena em seguida. Isso que é sorteio cruel.

Claro que novamente o foco está em Serena, campeã em 2017 já grávida e que vem de duas finais frustradas na tentativa do histórico 24º troféu. É também seu primeiro torneio desde a confusão de Nova York e há certa expectativa de como o público irá reagir. Serena tem estreia perigosa contra Tatjana Maria e está no setor de Karolina Pliskova. E não é nada impossível que cruze outra vez com Naomi Osaka, agora na semi. A japonesa não começou bem a temporada, porém tem ótima sequência até possivelmente encontrar Elina Svitolina.

Na chave inferior, Angelique Kerber e Carol Wozniacki, duas das três últimas campeãs, me parece levarem favoritismo. Ash Barty no entanto corre por fora para ser o grande nome da casa. Petra Kvitova e Aryna Sabalenka prometem grande confronto por quartas. E nunca se pode desprezar Sloane Stephens. É portanto um setor bem diversificado.

Cada vez mais prestigiado no circuito por seu esmero de organização, o Australian Open tem o clima como tradicional adversário para todos. O verão tem sido especialmente quente e os dois primeiros dias podem ter temperaturas acima dos 35 graus, mas há uma queda vertiginosa prevista para o restante da primeira semana. Outro fator a se verificar é a velocidade de piso e bola, que mudou de Wilson para Dunlop. Como todo mundo sabe, rodadas noturnas deixam as condições mais lentas. Por fim, há a grande novidade do supertiebreak (um tiebreak que vai até 10 e não a 7) se houve empate por 6/6 no quinto set. Emoção garantida.