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O Mestre está mais forte do que nunca
Por José Nilton Dalcim
12 de agosto de 2018 às 23:53

Rafael Nadal acertadamente desistiu de ir a Cincinnati, mas qualquer coisa que aconteça no Masters americano que começa nesta segunda-feira não terá influência em cima da posição cada vez mais favorável do espanhol frente ao US Open que se aproxima.

Antes de tudo, vale lembrar que Toronto está muito mais para Flushing Meadows do que a velocidade de Cincy. E todo mundo viu como Rafa subiu de produção a cada partida disputada. É bem verdade que o calor e a umidade de Nova York exigem muito mais do físico, mas isso nem de longe é um problema para ele.

Enquanto Nadal poderá descansar, com a confiança lá em cima, e se adaptar mais cedo à Big Apple, todos seus concorrentes mais diretos estarão à procura de ritmo. Cincinnati será o único preparativo para Roger Federer, a chance de Alexander Zverev esquecer Toronto, a oportunidade de Novak Djokovic mostrar um tênis mais vigoroso. Há dúvidas sobre o punho de Juan Martin del Potro. Ainda se deve observar Marin Cilic, Kevin Anderson e John Isner.

Por tudo isso, se entende por que Rafa enfatiza tanto a importância do título conquistado neste domingo, seu primeiro Masters fora do saibro em cinco anos. Ele chegará para a defesa do US Open em melhor situação física e emocional do que qualquer concorrente e então terá apenas de torcer por uma sequência ideal de adversários. Alguém duvida que Nadal ficou extremamente perigoso?

Esquecendo-se aquele final de jogo fora do contexto, seu domínio sobre o jovem Stefano Tsitsipas foi expressivo em fatos e números: 27 winners contra 15, 94% de pontos vencidos com o primeiro saque, placar de 23 a 14 nas trocas acima de 5 golpes e 10 a 4 nas que superaram 9. É bem verdade que o grego se perdeu rapidamente na partida, apressando-se na medida em que seus forehands falhavam – dos 25 erros, 16 foram com seu golpe principal.

Nadal foi impecável com o saque até a falha no 5/4 do segundo set, ficou pressionado no único momento que o Tsitsipas entendeu que não precisava arriscar a linha para ser competitivo. O espanhol teve de salvar um set-point e depois virar o começo do tiebreak, momentos em que se determinou a não errar.

Stef sai de Toronto animado. Nós também. Mostrou grande arsenal de golpes e maior frieza diante da pressão, procurou alternativas táticas e nunca se entregou. Dispara no ranking, mas é claro que ainda se torna precipitado apostar todas as fichas no seu futuro. O tênis lá no topo requer gigantesca consistência física e mental, progresso técnico contínuo, entrega absoluta, humildade e resiliência.

Esse é o melhor ainda que árduo caminho do sucesso.

Mire-se em Nadal.

Esse tênis infernal
Por José Nilton Dalcim
10 de agosto de 2018 às 23:58

Cada dia fico mais convencido que um velho amigo tem razão: o tênis foi criado pelo demo. Esporte cruel demais. Os dois excelentes jogos das quartas de final de Toronto mostraram esse aspecto tão peculiar de quem escolhe o esporte das raquetes grandes: a forma incrível como as coisas mudam e fogem de seu controle num piscar de olhos.

Alexander Zverev passeava em quadra, golpes poderosos, adversário apagado. Chegou ao saque com 5/4 para finalizar a tarefa e então começou o drama. Ficou apressado e viu Stefanos Tsitsipas acreditar. Perdeu match-points num tiebreak tenso, mas manteve a frieza para abrir quebra à frente no terceiro set. Nada feito. Faltou um pouco de coragem, o grego parou de errar o backhand e, sempre calmo e concentrado, virou. Outra vez com o poderoso saque na mão, Zverev jogou um game pavoroso e perdeu.

À noite, Marin Cilic fez o set mais incrível de sua carreira que me lembro de ter visto. Entrou decidido a arriscar e parecia iluminado. Raras vezes vi Rafael Nadal tão encurralado e sem opções. O espanhol não se entrega, apostou em aprofundar bola e esperar que a carruagem virasse abóbora. A primeira falha imperdoável de Cilic veio com um smash básico que daria 5/5 e reação no segundo set. Conseguiu apagar o vexame e jogou um terceiro set bem mais normal. Até que, outra vez tendo de sacar na pressão do 5/4, Cilic não era mais nem sombra do tenista impecável de duas horas e meia atrás. Serão noites difíceis para ele e Zverev.

Tsitsipas faz sua primeira semi de Masters contra o veterano Kevin Anderson, que continua em alta no circuito e joga num piso que lhe agrada demais. Promete ser um duelo de dois tenistas que sabem esperar o momento do ataque, sem desespero. Nadal fez outro jogo muito mais tático e de coração do que técnico, ainda que a evolução do saque ao longo dos sets tenha sido determinante para dobrar Cilic. É amplo favorito no duelo de gerações diante de Karen Khachanov, que também faz inédita presença numa semi desse porte. O russo de 22 anos mostrou saque poderoso e devolução vigorosa nas vitórias sobre Pablo Carreño, John Isner e Robin Haase.

A garotada pela segunda semana seguida dá as caras.

E saiu a chave de Cincy
Roger Federer, Juan Martin del Potro, Nick Kyrgios, Andy Murray e Andrey Rublev estão na chave e isso deverá garantir um torneio extremamente interessante na próxima semana em Cincinnati.

O sorteio coloca Novak Djokovic e Zverev no caminho de Rafa, que já pode ter estreia complicada contra Milos Raonic e pegar em seguida Denis Shapovalov ou Kyle Edmund. O alemão está no quadrante de Cilic e John Isner, nada fácil.

Do outro lado, Federer deu sorte e sua sequência prevê Lucas Pouille, Dominic Thiem e quem sair de Delpo, Kyrgios ou  Anderson. O sul-africano parece de longe o mais inteiro de todos, ainda que esteja na semi de Toronto. Ele pode cruzar com Tsitsipas de novo nas oitavas.

Assim como aconteceu no Canadá, vários jogos promissores de primeira rodada: Tiafoe-Shapovalov, Isner-Querrey, Tsitsipas-Goffin, Nishikori-Rublev, Wawrinka-Schwartzman e Pouille-Murray.

Delpo será o 3
Del Potro herdará mesmo o terceiro lugar do ranking, o mais alto de sua carreira, com a queda de Zverev. A última vez que a Argentina teve um número 2 foi em outubro de 2006, com David Nalbandian. Adivinhe quem estavam na frente: Federer e Nadal.

‘Stef’ e a agressividade bem dosada
Por José Nilton Dalcim
9 de agosto de 2018 às 20:37

Atualizado à 0h19

A nova geração ganhou mais uma do Big 4. Com seu estilo tão completo, Stefanos Tsitsipas aproveitou-se de um Novak Djokovic menos intenso e ainda defensivo demais para avançar de forma inédita às quartas de um Masters 1000. Foi a quinta vitória do grego de 19 anos sobre um top 10, mas a primeira em cima de um campeão de Grand Slam.

Tsitsipas entrou na temporada 2018 com apenas quatro vitórias em torneios de primeira linha e com um ranking bom para sua idade, o 91º. Sofreu para se adaptar à nova realidade. Passou o quali em Doha e fez quartas, porém amargou depois  cinco derrotas em torneios ATP, sendo obrigado a jogar um challenger na França para tentar recuperar a confiança.

Ao furar o quali e avançar uma rodada em Monte Carlo, as coisas começaram a mudar. Veio então a final em Barcelona, com vitórias de peso em cima de especialistas como Diego Schwartzman, Albert Ramos, Dominica Thiem e Pablo Carreño, e enfim Tsitsipas deixou o anonimato. Fez outra semi no saibro português, ganhou três jogos em Wimbledon e retornou à quadra dura com expectativa de retomar a ascensão.

Dito e feito. O grego tem aquele estilo tão gostoso de se ver que se encaixa em todos os pisos, sempre agressivo mas sem o exagero da pressa. Mostrou tudo isso contra Djokovic, a quem faltou intensidade e sobrou passividade. O defeito de Tsitsipas ainda é um certo descontrole emocional, como o destempero meio assustador dos murros que deu na própria testa ainda no começo da semi em Washington. Também já foi criticado por adversários por uma conduta considerada um tanto arrogante.

Com a atuação corajosa diante de Djokovic, Stef será pelo menos 25º do ranking e estará entre os cabeças do US Open. Reencontra o embaladíssimo Alexander Zverev nesta sexta-feira, para quem perdeu em Washington há menos de uma semana. O alemão fez duas exibições firmes e rápidas em Toronto, no caminho certo para poupar físico na busca pelo bicampeonato. Quem vencer, jogará as quartas diante de Grigor Dimitrov – jogo bem curioso do dia frente a Frances Tiafoe – ou de Kevin Anderson.

No outro lado da chave, a melhor notícia foi a atuação valente de Stan Wawrinka diante do número 1 do mundo. Quando se esperava que ele não tivesse físico para aguentar o volume de jogo de Rafael Nadal, o suíço entrou decidido a arriscar e conseguiu equilibrar os dois sets, com chance de ter levado o segundo não fosse um game afoito na hora de fechar.

Nadal usou muito bem o saque, defendeu-se com a maestria habitual mas usou uma postura de devoluções ofensivas que certamente é importante num piso mais veloz como o de Toronto. Isso aliás é chave diante de Marin Cilic, que costuma se atrapalhar quando vê a bola voltando com frequência.

O vencedor dará um largo passo para a final, já que o adversário sairá de Robin Haase e Karen Khachanov. Como Denis Shapovalov decepcionou pelo tênis afoito e pouco preciso, o russo garante a nova geração na parte de cima após – acreditem – vencer John Isner em dois tiebreaks!