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Saibristas autênticos
Por José Nilton Dalcim
18 de abril de 2018 às 18:56

Não é nada difícil entender o que são verdadeiros saibristas. Basta admirar Rafael Nadal e Novak Djokovic para entender como se deve construir um ponto sobre a terra batida. Os dois deram uma aula de estratégia, paciência e deslocamento nesta quarta-feira, o que só aumenta a expectativa por um reencontro nas quartas de final de Monte Carlo.

Nadal fez sua estreia, mas já o terceiro jogo sobre o piso incluindo-se a Copa Davis, e não é preciso falar muito sobre o ‘rei do saibro’. A se destacar a firmeza cada vez maior do backhand e como funciona bem para ele o princípio de devolver seis passos atrás da linha, apostando numa devolução profunda que o permita dominar rapidamente o ponto.

Djokovic por seu lado passou com louvor por um duelo bem exigente diante de Borna Coric, em que precisou ser consistente na base e esperar a hora certa para ser agressivo. Usou mais as paralelas, mostrou-se fisicamente em ordem e acima de tudo a cabeça ficou no jogo o tempo inteiro, sem mostrar ansiedade ou frustração excessivos, nem mesmo depois de desperdiçar nove match-points.

Enquanto Rafa deve ter outro jogo protocolar diante de Karen Khachanov – o jovem russo possui fortes golpes de base, mas emocionalmente é muito instável para aguentar a pressão constante que o canhoto espanhol impõe -, Djokovic terá um teste ainda mais difícil diante de Dominic Thiem. No ano passado, o sérvio atropelou na semi de Roma, mas três semanas depois levou até ‘pneu’ nas quartas de Paris. Thiem joga bem diferente de Coric, acelerando muito da base com inteligente mescla de slices, sem falar num saque a mais de 200 por hora o tempo todo. Imperdível.

Do lado inferior da chave, admito completa indecisão sobre quem seria o maior candidato à vaga na final. Richard Gasquet surrou Diego Schwartzman, mas o argentino estava com problema na mão direita e não rendeu nada. Semifinalista em 2005, Gasquet é favorito natural contra Mischa Zverev, porém o habilidoso do saque-voleio pode explorar o forehand deficitário e surpreender. Quem avançar, enfrentará Alexander Zverev ou Jan-Lennard Struff, e então não é impossível termos um duelo de irmãos nas quartas. Ouso dizer que Sasha corre risco por conta de sua irregularidade, já que Struff joga direitinho e adora pressionar na rede.

No outro quadrante, Marin Cilic e Milos Raonic fazem duelo de gigantes onde a teoria manda apostar cegamente no jogo de base muito superior do cabeça 2. O vencedor terá Kei Nishikori ou o quali Andreas Seppi, dois jogadores que preferem muito mais um piso veloz, ainda que não sejam grandes sacadores.

Detalhes
– A favorável temporada sobre o saibro deverá levar Nadal do 10º para o 6º lugar em número de partidas disputadas em toda a Era Profissional. Ele agora tem 1.066, muito perto de Edberg (1.071), McEnroe (1.075) e Nastase (1.077) e apenas 19 atrás de Ferrer (1.085).
– Em termos de vitórias totais, Rafa marcou a 880ª e ocupa o quinto lugar. O próximo da lista é Vilas, com 929.
– Nadal e Djokovic ainda sonham superar Borg em percentual de vitórias na carreira. O sueco ficou com 82,74%, muito perto do sérvio (82,58%) e do espanhol (82,55%).
– Nadal ganhou ao menos um título por temporada desde 2004, portanto tenta ir à 15ª consecutiva e igualar recorde de Federer (2001-15).

Uma breve história do saibro
Por José Nilton Dalcim
17 de abril de 2018 às 20:17

Não deixa de ser irônico que as quadras de terra batida tenham sido ideia de dois campeões de Wimbledon, os irmãos Renshaw. Todo mundo sabe que o tênis como conhecemos hoje se formatou durante a disputa do primeiro torneio de Wimbledon, quando se padronizaram quadras, rede, regras e contagem. Pouquíssima coisa mudou desde 1877.

Segundo os próprios franceses, os Renshaw costumavam passar férias na Riviera e construíram quadras de grama em Cannes, mas o clima muito mais quente desgastava rapidamente o piso. Em 1880, eles tentaram uma solução: sobre a terra, colocaram um pó que vinha da moagem de panelas de barro defeituosas que eram feitas em Vallauris. O sucesso foi tão grande que 104 quadras foram construídas em cerca de dois anos somente em Cannes, porém aos poucos o pó de tijolo substituiu o de Vallauris, que não tinha escala suficiente para a demanda.

As vantagens eram enormes. Ao contrário da grama, não era preciso regar, cortar nem usar fertilizantes. Em 1909, uma empresa britânica achou uma forma de secar mais rapidamente o piso de terra quando molhado – algo que então chegava a demorar dois dias -, usando areia misturada com o tijolo, e com isso o piso se espalhou mais rapidamente por Espanha e Itália. O pó na França vinha das pedreiras de Saint-Maximin, no Oise, que até hoje fornecessem a matéria prima para as quadras de Roland Garros.

A técnica chegou aos Estados Unidos até que, em 1928, o engenheiro H. A. Robinson criou um sistema próprio que garantia um piso que secava com muita rapidez com o uso de pó de basalto, uma rocha vulcânica, e a esse novo piso se deu o nome de Har-tru (Har são as iniciais do nome do engenheiro e tru uma corruptela de ‘true’, verdadeiro, pela cor ser mais próxima da grama).

Muito se investiu na tecnologia para se aperfeiçoar as quadras de terra, que já na metade dos anos 50 consumiam 85% menos água para irrigação e assim reduziu-se o tempo de manutenção em até 40%. Por fim, surgiu a quadra de argila sintética, onde a base é um tapete emborrachado ou uma laje microporosa. A dificuldade é o alto custo.

Há também diferença no uso de argila, o que não ocorre na França e na Itália, onde se opta pelo calcário. Daí o tom por vezes bem mais escuro de algumas superfícies.

Fato curioso, apenas 13% de todas as quadras de tênis na França hoje são de saibro, em contraste com os 83% dos anos 1960. Ao mesmo tempo, países de pouca tradição, como Inglaterra, Austrália e Estados Unidos, têm optado por iniciar a formação de seus tenistas sobre a terra para fortalecer a biomecânica dos golpes de base.

Monte Carlo
Rodada interessante nesta terça-feira, com ênfase para o grande duelo entre Dominic Thiem e Andrey Rublev. O russo, que continua sendo um dos destaques da temporada, teve saque para fechar a partida e vacilou. Aliás, também aconteceu com Pablo Cuevas, que deixou escapar vitória em dois sets contra Fernando Verdasco.

Surpresa mesmo foi a queda de Lucas Pouille para o saque-voleio de Mischa Zverev, numa partida um tanto estranha. O francês abriu 4/2 no terceiro set e permitiu a virada. Grigor Dimitrov mostrou sua dificuldade em se adaptar ao saibro, Fabio Fognini teve intensos altos e baixos, Alexander Zverev errou demais. Não me agradaram.

Desempenho animador de David Goffin diante do jovem Stefanos Tsitsipas. Dois sets bem disputados, ainda que com falhas do belga principalmente com o saque. Mas ele pode embalar.

A rodada de quarta tem como pontos altos a estreia de Nadal contra Aljaz Bedene, o promissor duelo de Djokovic com Coric, Schwartzman encarando Gasquet e Verdasco podendo dar sufoco em Cilic.

Prova de fogo
Por José Nilton Dalcim
13 de abril de 2018 às 20:45

Ainda que seu favoritismo seja absoluto, Rafael Nadal não poderia contar com uma chave mais dura em sua primeira aventura sobre o saibro de 2018. O número 1 do mundo vai em busca do 11º troféu em Monte Carlo, um torneio em que venceu 63 de 67 jogos, com a provável necessidade de enfrentar uma série de nomes muito respeitáveis sobre a terra batida.

A estreia já pode ser interessante se der Aljaz Bedene, já que o esloveno saber jogar na terra. Em seguida, deve vir o canhoto Adrian Mannarino e portanto tudo indica que teremos uma fantástica terceira rodada diante de Dominic Thiem ou Novak Djokovic.

Não sabemos o que esperar da forma física e técnica tanto do austríaco como do sérvio. E os dois ainda têm testes reais pela frente: Nole pega um quali antes de Borna Coric e Thiem aguarda Andrey Rublev ou Robin Haase.

De qualquer forma, são adversários que conhecem muito bem Nadal e estarão motivados a uma surpresa. Vale lembrar que Djokovic bateu Rafa na final de 2013 e encerrou sua série de 46 vitórias no torneio de então, enquanto Thiem cruzou quatro vezes com Rafa no saibro de 2017, vencendo em Roma.

Claro que o mundo do tênis apreciaria muito rever o mais repetido duelo da era profissional, já que Nadal e Nole se cruzaram exatas 50 vezes, com apertados 26 a 24 em favor do sérvio. Eles se enfrentaram pela última vez em Madri do ano passado, com vitória tranquila do espanhol. Porém, Nole ousou derrotar Rafa até em Roland Garros. Fora tudo isso, cada um tem 30 títulos de Masters e se torce por uma luta direta por essa supremacia ao longo de 2018.

No mesmo lado da chave de Nadal, estão ainda Grigor Dimitrov, David Goffin e Albert Ramos. O saibro lento não é a praia do búlgaro, que ainda por cima pode pegar Ramos, vice do ano passado, já na terceira rodada. Goffin fez um grande torneio em 2017, porém só ganhou um game desde o acidente em Roterdã.

O outro lado da chave me parece totalmente aberto. Alexander Zverev teria o favoritismo caso não vivesse uma fase tão irregular. Para piorar, tem Fabio Fognini no caminho antes de um possível duelo com Lucas Pouille ou Diego Schwartzman. Um quadrante bem interessante e imprevisível. A outra vaga para a semi está entre Marin Cilic ou Pablo Carreño. Uma incrível primeira rodada acontece entre o vice de 2015 Tomas Berdych e Kei Nishikori.

Detalhes
– Nadal começa a temporada de saibro com a incrível marca de 391 vitórias e apenas 35 derrotas sobre o saibro ao longo da carreira, ou seja, eficiência superior a 91%.
– Se existe alguma pressão sobre o espanhol, certamente é a manutenção do número 1. Derrota em Monte Carlo já lhe tira o posto pelo menos até o final de Roma, mas muito provavelmente até o começo de junho.
– Djokovic e Pouille moram em Monte Carlo, mas não se pode dizer que jogam em casa, porque o Tênis Clube monegasco está localizado em território francês.
– Zverev tem um retrospecto muito discreto no Principado: apenas cinco jogos, com três vitórias.
– Dos tenistas em atividade, Stan Wawrinka foi o único outro campeão em Monte Carlo, além de Nadal e Djokovic. O suíço está fora desta edição e ainda tenta recuperar a forma. A previsão de volta é em Madri.
– Nunca é ruim recordar que Guga Kuerten ganhou as duas finais que disputou no Principado, em 1999 e 2001.