Thiago responde
Por José Nilton Dalcim
11 de fevereiro de 2018 às 01:17

A inesperada campanha de Thiago Monteiro num local difícil de jogar, em que a altitude acelera muito mais a bola e torna o controle um verdadeiro desafio, serve como uma luva para os ‘profetas do apocalipse’, onde se inclui infelizmente até jornalistas, que parecem não querer enxergar como uma carreira no esporte de alto rendimento tem de ser pacientemente moldada. Como é fácil criticar!

Claro que Thiago não viveu seus melhores dias ao longo de 2017. As grandes vitórias e desempenhos animadores do ano anterior serviram apenas para colocar pressão e expectativa. Era de se esperar, e me lembro de ter repetido isso aqui algumas dezenas de vezes, que ao dar um salto para um calendário mais exigente Monteiro teria de adaptar e reaprender uma série de coisas.

Entre elas, claro, saber perder e conseguir conviver com isso. Num nível constante de ATP, Masters e Grand Slam, era óbvio que aconteceriam jogos duros, apareciam lugares desconhecidos, viriam adversários bem mais experientes.

Mais ainda, Thiago não é um talento nato, ainda que seja um excepcional tenista. Precisa de árduo trabalho para evoluir pequenos e decisivos detalhes. Não tem toda aquela altura para decidir no saque, o jogo de rede é fraco, o deslocamente para a frente vacila. Ainda aos 23 anos, ele e seu time sabem de tudo isso e se esforçam para corrigir os defeitos. Vimos contra Gael Monfils e Albert Ramos, por exemplo, subidas bem mais calculadas para os voleios. Foram atuações dignas de um top 50.

Disse aqui dias atrás que me preocupava o fato de sentir Thiago sem confiança, o que ficou evidente nos jogos da Copa Davis de uma semana atrás contra a fraca República Dominicana. Confiança no entanto é uma coisa mágica, que some misteriosamente e reaparece num estalar de dedo, às vezes depois de um lance, um game ou uma partida bem jogada.

Tudo se encaixou em Quito e, novamente entre os 100 primeiros do ranking, ele terá de reviver o agridoce contraponto entre motivação e cobrança quando Rio e São Paulo chegarem. Mas isso também se aprende.

Federer quer mesmo o nº 1
Por José Nilton Dalcim
7 de fevereiro de 2018 às 20:16

Roger Federer surpreendeu o mundo do tênis novamente. Quando todos esperavam que ele jogasse Dubai, que é sua segunda residência, antecipou os prognósticos e aceitou convite para voltar a Roterdã, onde não competia há cinco anos.

A meta parece óbvia: tentar o número 1 uma semana antes de Rafael Nadal entrar em quadra em Acapulco e assim depender exclusivamente de seus resultados para atingir a semifinal e somar os 180 pontos necessários para se tornar o mais idoso a atingir a ponta do ranking na história, aos 36 anos, três a mais que Andre Agassi. A última vez que o suíço esteve lá foi em 2012.

Mas como assim trocar Dubai por Roterdã? Pergunta interessante. Além de poder ficar em casa e ir com seu próprio carro ao torneio, Federer ainda contaria com uma chave fraca nos Emirados, onde o cabeça 1 de momento é o amigo Grigor Dimitrov, que ainda por cima se recupera de problema no ombro.

Roterdã está com um quadro muito mais difícil. Os quatro cabeças deverão ter Dimitrov, Alexander Zverev e David Goffin, mas esses não seriam adversários antes da semi. Assim, para chegar à quarta rodada, Federer provavelmente terá de passar por Nick Kyrgios, ou Stan Wawrinka, ou Tomas Berdych ou Lucas Pouille. Quem sabe Jo-Wilfried Tsonga, que não será cabeça, ainda nas primeiras rodadas.

O que talvez tenha feito diferença é que Roterdã acontece sobre quadra sintética coberta e usa uma bola consideravelmente mais rápida. E quem sabe não seja uma estratégia ainda mais ousada: se não for bem na Holanda, ele poderá pedir convite para Dubai, que estará de portas abertas.

Sufoco e esperança
Por José Nilton Dalcim
5 de fevereiro de 2018 às 00:06

O tênis brasileiro sofre para valer quando sai para qualquer duelo da Copa Davis, ainda mais se for em quadra que não seja de saibro. A dificuldade para superar a desfalcada República Dominicana, com três jogadores de nível future, só acabou recompensada com a atuação de João Pedro Sorgi no quinto jogo.

Não que tenha sido um espetáculo técnico, mas o esforço e a dedicação do paulista de 24 anos depois de perder o primeiro set foram louváveis. Como Rogério Silva e Thomaz Bellucci não aceitaram a convocação, ele teve sua oportunidade como titular e não decepcionou, fazendo duas partidas de empenho numa superfície que claramente não é sua favorita.

Thiago Monteiro decepcionou. Venceu sua partida de sexta-feira com um tênis muito irregular e, apesar de ótimos lances e colocar até mais slice no seu backhand, voltou a mostrar pressa demasiada principalmente nos momentos de maior pressão. Fica a sensação preocupante de que Monteiro perdeu confiança, o que não é saudável num início de temporada.

Em abril, teremos de ir à Colômbia, que pode escolher a altitude e a quadra dura para nos atrapalhar. Daí precisaremos mesmo de Bellucci e quem sabe de João ‘Feijão’ Souza, que adoram jogar nessas condições. Rogerinho Silva demonstrou estar insatisfeito com o comando do time, ressentido pelo descaso que sofreu contra o Japão. De qualquer forma, não deveríamos temer Alejandro González e Daniel Galan. Ou devemos?

No Grupo Mundial, excelentes vitórias de Alemanha e Itália fora de casa. Com Nick Kyrgios outra vez ‘baleado’, Alexander Zverev deitou e rolou na partida decisiva. O encrenqueiro Fabio Fognini aprontou das suas, mas foi um herói e tanto: 14 sets e 12 horas em quadra para participar dos três pontos diante do Japão.

A Itália recebe agora a atual campeã França, que superou a Holanda com Adrian Mannarino e Richard Gasquet nas simples, e a Alemanha deve encarar o saibro depois que a Espanha avançou, mas com inesperado trabalho diante do time de novatos britânicos. Destaque para o canhoto Cameron Norrie, 22 anos e 114º do ranking, que marcou virada incrível sobre Roberto Bautista e deu sufoco em Albert Ramos.

A Croácia escolheu certinho o saibro para barrar o Canadá. O ponto decisivo foi uma aula de Borna Coric em cima de Denis Shapovalov. O número 3 Marin Cilic só jogou nas duplas e pode ajudar muito contra o Cazaquistão dentro de casa. Já a Bélgica contou novamente com David Goffin, muito firme mesmo na quadra dura. Esse aliás deve ser o piso escolhido pelos EUA para a rodada de 6 a 8 de abril. Sam Querrey e John Isner atropelaram a Sérvia como visitantes.

Por falar em tênis sérvio, o final da semana marcou a notícia já esperada da cirurgia de Novak Djokovic para tentar corrigir de vez o problema no cotovelo direito. Ficam dúvidas a se esclarecer: como ele ficou seis meses parado e em tratamento, e acabou por decidir enfim operar após três partidas em Melbourne? Que avaliação tão ruim teria sido essa de sua equipe médica ou física? Mais ainda: qual é a real extensão do problema e quanto tempo ele ainda terá de amargar fora do circuito? Me parece pouco provável que Nole volte no saibro europeu e seria temerário que jogasse na grama, o piso menos recomendado do mundo para quem tem problemas de cotovelo.