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Por José Nilton Dalcim - 27 de maio de 2015 às 21:03

Não foi o melhor Thomaz Bellucci que poderia se exibir na principal quadra do complexo de Roland Garros, mas ele jogou bem o suficiente para todo mundo ficar de olho ainda mais aberto em Kei Nishikori. O brasileiro bateu forte, sacou bem, tentou variar, fez bolas difíceis e jogadas perfeitas, mas ainda assim o adversário achou soluções e um jeito de vencer. E em três sets.

A primeira parcial foi decisiva para o 40º do ranking. Ele encarou muito bem o cabeça 5, e teve uma chance de ouro de obter a quebra no sexto game. Fez muita diferença. Pouco depois, seu saque começou a cair. Ainda salvou quatro break-points antes da queda definitiva no 11º game. Daí em diante, foi uma presa mais fácil, ainda que continuasse a produzir um tênis decente e ótimos lances.

Nishikori definitivamente achou um jeito de jogar muito bem sobre o saibro, sem ter que recuar tanto. Ele não joga o tempo todo próximo da linha, e a bola pesada de Bellucci muitas vezes o obrigou a ser bem conservador, mas o japonês constrói o ponto para entrar cada vez mais e por fim pegar a bola na subida, conseguindo ao mesmo tempo ângulo e profundidade mortais. É um tremendo arsenal.

Será preciso alguém com bola muito rápida, excelente saque e estilo agressivo para impedir que Nishikori chegue pelo menos na semifinal. Dentro do seu quadrante, só mesmo Tomas Berdych poderia fazer isso, como vimos na sua boa apresentação de Monte Carlo, onde o saibro aliás estava bem mais pesado. Vale observar que a única vitória do tcheco sobre Kei, em quatro confrontos, foi justamente na terra, embora há três anos.

O antigo Tsonga, não este de hoje em dia, também poderia ser uma barreira. Mas o meu tenista francês predileto está cada dia mais pragmático, talvez fruto de seus eternos problemas físicos. No duelo de hoje contra o baixinho Dudi Sela, foi menos vezes à rede do que o israelense, o que é inadmissível. Quem se lembra do Tsonga de 2008, lá na Austrália, dando um show na rede diante do poderoso Rafa Nadal, há de concordar que seu jogo perdeu um tanto da graça.

Esse setor da chave aliás ficou sem duas forças do saibro: Fabio Fognini e Roberto Bautista foram massacrados. Que vexame. E pensar que eu considerei o italiano como uma potencial novidade no torneio. Os maldosos dirão que é praga de espanhol, mas desde que venceu Nadal em Barcelona ele não jogou mais nada.

O outro quadrante, o dos suíços, viu uma séria ameaça a Gael Monfils pelo cada vez mais respeitado Diego Schwartzman. Já começo a duvidar que Gael passará pelo perigoso Pablo Cuevas e, se conseguir, não sei se terá pernas para encarar Roger Federer. Vai lá que o campeão de 2009 não fez um jogo brilhante – notável a quantidade de deixadinhas que levou de Marcel Granollers -, porém a situação parece administrável.

Incrível, mas o cabeça 2 vê tudo dar certo, incluindo-se aí a lamentável queda de Ernests Gulbis, que vai beirar o top 90, incompatível com seu talento mas adequado para sua fase. A porta fica aberta para Stan Wawrinka, desde que ele não se inspire no letão.

E as meninas? Maria Sharapova vai superando o resfriado e começa a jogar melhor. Variou muito o jogo, de pancada a curtinha. Está bem mais divertido vê-la jogar. Agora pega Sam Stosur, o que pode ser um tremendo duelo. No mesmo setor, Sabine Lisicki x Lucie Safarova também promete. Mais em cima, boa chance de acontecer duelo espanhol entre Carla Suárez e Garbine Muguruza nas oitavas.

Diante da inesperada queda de Simona Halep – outra vez para a veterana Mirjana Lucic – e dos altos e baixos de Ana Ivanovic, tudo indica que a finalista sairá desse equilibrado setor de Sharapova. Não ficaria surpreso se Ekaterina Makarova aproveitasse a brecha deixada por Halep. A russa, que tirou hoje Teliana Pereira, não preza pela regularidade, mas tem bola muito forte e boas pernas. E é canhota.

Vale aqui finalizar com um rápido comentário sobre a derrota de Teliana. No seu estágio atual, tirar um set de top 10 é um resultado louvável, porque fica nítida a diferença de golpe. A valente brasileira precisou usar um pouco de tudo, mas lhe falta um saque mais contundente para poder comandar pontos diante de jogadoras de nível tão alto. Sobra garra, e aí ela incomoda qualquer uma.

Os números da quinta-feira
- Djokovic e Murray reencontram adversários a quem derrotaram no Australian Open de janeiro: Gilles Muller e João Sousa. Já Almagro tenta ser o sexto jogador a conseguir mais de uma vitória sobre Nadal no saibro.
- Em seu primeiro Roland Garros, o garoto Coric encara Robredo, que já fez cinco quartas no torneio.
- Há 19 jogadores com mais de 30 anos na segunda rodada, recorde em Paris para a Era Aberta.


Por José Nilton Dalcim - 26 de maio de 2015 às 19:47

Foi um resultado apertado, daquele tipo em que os dois times tiveram suas chances, um marcou logo no primeiro tempo e segurou o placar até o fim. No entanto, me parece que na tensa estreia de Roland Garros o sérvio Novak Djokovic se saiu um pouco melhor do que Rafael Nadal.

Nole chegou a levar um susto e esteve na iminência de perder o segundo set, Nadal cedeu um game de serviço na partida, mas a qualidade dos adversários tem uma diferença abismal. O canhoto Jarkko Nieminen exigiu bastante, com boas jogadas no fundo e na rede, agilidade, pontos bonitos. O garoto Quentin Halys é muito frágil, se saiu melhor com o forehand e variou com deixadas.

Não foi difícil perceber que os dois grandes favoritos para Roland Garros estavam com os nervos à flor da pele, natural para o momento e a ansiedade que vivem. Por isso, a nota maior vai para Djokovic, que conseguiu jogar mais solto, disparando seus golpes de fundo, deslizando pelo saibro. Rafa cometeu muito mais erros, embora tenha dito que gostou de seu forehand, e teve uma vitória quase burocrática.

Ainda não se sabe quem será o segundo oponente de Djokovic. Se for Gilles Muller, será uma repetição da estreia: jogador canhoto, agressivo, poucas trocas. Se der o veteraníssimo Paolo Lorenzi – que domingo estava ganhando torneio challenger na quadra dura -, servirá como bom treino de base, muitas trocas. Tenho a certeza de que prefere o italiano. Rafa tem um especialista, o compatriota Nicolas Almagro, que está longe do tênis com que superou Nadal no ano passado. Ainda assim, é um teste importante e deverá dar muito mais confiança ao eneacampeão.

A se lamentar mesmo foi a queda tão precoce de Grigor Dimitrov. Para amenizar a tragédia, observe-se que Jack Sock anda jogando direitinho, mas o placar é duro de engolir. Parece que Nadal terá Tommy Robredo como barreira lá nas oitavas.

O tênis brasileiro perdeu João Souza, que foi vítima de sua falta de confiança. Se levasse o primeiro set contra Daniel Gimeno, teria grande chance de ganhar seu primeiro jogo de Grand Slam. A impressão é que Feijão voltou a jogar daquela forma de antes, pouco produtiva, com risco exagerado e um backhand vacilante, deixando bolas muito curtas. Nesse nível mais alto de torneio que está encarando, não funciona, Está faltando aquele bom resultado para reordenar as coisas. Ele tem vaga em Wimbledon, quem sabe…

A chave feminina levou uma chacoalhada com as quedas de Eugénie Bouchard e Jelena Jankovic. Incrível como a canadense está mal, perdida em quadra, sem um padrão definido. Isso vem desde o US Open do ano passado, já passou de má fase. É hora de fazer mudanças, talvez em seu próprio comportamento. Venus Williams também caiu, mas sua presença hoje em dia num torneio sobre saibro é para cumprir tabela.

Lá em cima da chave, Serena Williams e Vika Azarenka estrearam firmes e nem mostraram todas as armas. Pena que Hlavackova não tenha servido muito de parâmetro, porque eu estava curioso para ver a reação da cabeça 1 na quadra central dita tão lenta. O duelo entre Serena e Vika já na terceira rodada é inevitável. Grande momento da primeira semana.

Os números de quarta-feira
- Terceiro tenista em número de vitórias sobre o saibro em 2015, atrás de Nadal e Ferrer, empatado com Cuevas -, o nosso Bellucci volta à Philippe Chatrier, onde enfrentou duas vezes Rafa ( fez uma mista em 2011, me lembra Mário Sérgio Cruz). O brasileiro perdeu todos os nove jogos contra top 10 em eventos de Slam. A maior vitória nesse nivel foi sobre Ljubicic, então 16º, em Roland Garros de 2010.
– Granollers, adversário de Federer, tem retrospecto bem pior do que Bellucci contra adversários top 10 na carreira: uma única vitória (Murray, por abandono) em 12 tentativas.
– Stepanek faz duelo nacional contra Berdych e, aos 36 anos, tenta ser o mais idoso tenista a atingir a terceira rodada de Paris desde Jimmy Connors, em 1991.
– Apenas sete franceses disputarão a segunda rodada, pior marca em cinco anos. O dia é cheio, com Monfils, Tsonga e Simon em quadra.
– Wawrinka tem jogo duro contra Lajovic. O suíço tem uma estatística importante: já virou seis vezes um jogo em que perdeu os dois primeiros sets.
– Vitalia Diatchenko encara Sharapova com apenas um jogo (e derrota) sobre o saibro em 2015.
– Mirjana Lucic não ganha uma partida em Paris há 13 anos. Halep precisa entrar ligada.
– A última vez em que uma brasileira atingiu a 3ª rodada em Roland Garros foi em 1989, com Dadá Vieira e Niege Dias. É mais uma marca para Teliana igualar. A adversária é muito difícil: Makarova foi pelo menos às quartas dos três últimos Slam.


Por José Nilton Dalcim - 25 de maio de 2015 às 19:43

É muito pouco provável que Roland Garros assista a uma grande surpresa neste ano, principalmente do lado masculino. Mas ainda assim se torna animador ver vários nomes da novíssima geração avançando em Paris, principalmente alguns que não deveriam ter tanta intimidade com o saibro. Melhor ainda, há alguns duelos diretos entre eles, garantindo rostos novos pelo menos na terceira rodada.

O melhor exemplo é o duelo australiano entre Bernard Tomic, quase veterano com seus 22 anos, e Thanasi Kokkinakis. A mesma Austrália terá Nick Kyrgios, que já deixou de ser promessa para virar top 30, diante do garoto britânico Kyle Edmund, talvez o tenista de maior potencial surgido por lá desde Andy Murray, com vaga quase garantida no top 100. Aliás, o escocês foi lá anonimamente torcer para ele. Se os dois ganharem, duelarão entre si na terceira rodada

Já o croata Borna Coric, que aos 18 anos é o mais jovem membro do top 50, somou sua segunda vitória de Slam. Para mim, ele não tem o mesmo talento que os outros, faz um tênis muito mais padrão. Porém, tem espírito vencedor. Passou pelo experiente Sam Querrey e será interessante avaliar sua reação diante de um matreiro do saibro como Tommy Robredo. É difícil, mas Paris pode até ver um duelo entre Coric e Grigor Dimitrov por vaga nas oitavas.

O austríaco Dominic Thiem também está na hora de mostrar serviço. Aproveitou Nice para ganhar seu primeiro ATP, o que confere confiança e experiência, e nada melhor do que um rodado Pablo Cuevas para testar isso. Agora 31º do mundo, Thiem não deu muita sorte na chave. Se passar pelo uruguaio, deverá duelar com Gael Monfils e ainda teria Roger Federer pela frente. Verdadeira provação.

A chave feminina tem seus destaques, mas apenas a croata Ana Konjuh, de 17 anos, pode ser considerada realmente uma novata. Belinda Bencic, 18 anos e 35ª do ranking, já tem quartas do US Open no currículo. Um pouco mais velhas, Garbine Muguruza.já foi sensação de Paris no ano passado ao ganhar de Serena Williams e Daria Gravilova tem a capacidade de tirar o sono de Maria Sharapova, duas vezes campeã de Paris nos últimos três anos.

Grande Thomaz
Vencer, e vencer rápido. Meta cumprida para Thomaz Bellucci. Ele cedeu dois games de serviço para Marinko Matosevic, mas desta vez foram vacilos desculpáveis, já que não perdeu a cabeça nem a consistência. Ao contrário, me pareceu muito centrado na sua tarefa e nem sentiu o tradicional frio na barriga de uma estreia em Roland Garros.

Dá para surpreender Kei Nishikori? Difícil, mas factível. O retrospecto de Bellucci contra top 10 é fraco – 5 em 29 tentativas -, com todas as vitórias no saibro, como as sobre Murray, Berdych e Ferrer. Pior ainda diante dos top 5, com 1 em 13 (o mesmo Murray). O momento no entanto é ótimo. Bellucci pode jogar solto e o japonês tem obrigação de ganhar, já que está muito cotado até para decidir o torneio.

O saque será arma fundamental, precisa estar afiado. Hoje, apesar da boa vitória, Thomaz ganhou apenas 45% dos pontos com o primeiro serviço, uma estatística desastrosa diante de um devolvedor como Nishikori. Vai precisar muito mais do que isso. Por enquanto, vale muito mais descansar muito do que treinar até quarta-feira.

Os números da terça
- Djokovic defende invencibilidade de 22 jogos contra Nieminen. O canhoto finlandês já ganhou de Nole, em 2009. O sérvio não perde na estreia de um Slam desde a Austrália de 2006.
- O garoto Halys fará seu primeiro jogo de Slam contra Nadal e na condição de 296º do ranking. Semanas atrás, ganhou seu primeiro jogo de nível challenger antes de perder para André Ghem. O espanhol soma 335 vitórias apenas sobre o saibro, onde só perdeu 29 vezes em toda a carreira.
- Ferrer se aproxima da vitória de número 300 no saibro, algo que só Nadal tem entre os tenistas em atividade. Seu adversário de estreia, Lukas Lacko, não vence uma partida na terra há exatos quatro anos.
- Agora ‘trintões’, Isner e Seppi engrossam o rol de 39 jogadores na chave principal com mais de 30 anos, recorde absoluto para qualquer Slam na Era Profissional.
- Serena só deixou de disputar a terceira rodada de um Slam por três vezes. Duas delas foram em Paris, onde também sofreu sua única queda numa estreia. Ainda bem que Hlavackova é 190ª do ranking, sobre quem Serena aplicou ‘bicicleta’ no US Open de 2012.
- Se Feijão vencer Gimeno, o tênis brasileiro terá três classificados na segunda rodada, repetindo feito de 2002, com Guga, Meligeni e Saretta.