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Por José Nilton Dalcim - 16 de outubro de 2014 às 0:37

Incomodado com arquibancadas vazias e torcidas claramente manipuladas em Pequim e Xangai, acabei achando um excelente artigo de Jon Wertheim para o Sports Illustrated, que dão números e fatos à minha sensação de que o tênis não pegou na China, o tão sonhado mercado que as entidades oficiais, patrocinadores e fabricantes esperavam alcançar rapidamente.

A primeira grande cartada foi dada há quase 10 anos, quando a ATP levou a Masters Cup (hoje Finals) para Xangai. Daí em diante fixou-se um considerável calendário asiático, com três eventos seguidos na China, além de Japão, Malásia, Coreia e Hong Kong na sequência da temporada norte-americana. Xangai virou Masters 1000, dois ATP 500 se realizam simultaneamente, a WTA levou Premier e recentemente apostou em ter seu Finals em Cingapura.

Os resultados no entanto são pífios e arquibancadas vazias são o sinal mais evidente disso. Wertheim avalia em seu texto que é certo o prejuízo de ATP, WTA e dos organizadores asiáticos nesses torneios. A questão é saber o tamanho do saldo negativo. Pior ainda. Estima-se que o crescimento do tênis na região, que é inegável, ainda que abaixo do esperado, está muito centrado na figura da agora aposentada Na Li. Teme-se assim um desinteresse ainda maior, já que a maioria dos chineses desconhece os ídolos internacionais e sabe muito pouco do esporte.

Wertheim entrevistou jornalistas locais e lista os motivos que podem explicar o fraco desempenho do tênis apesar de todo o investimento já feito:

1. As crianças na China não são encorajadas a praticar esportes, seus familiares não possuem histórico esportivo. As escolas têm pouca estrutura para o esporte e os estudantes se dedicam a passar nos exames. Os eventuais atletas profissionais são bancados desde cedo pelo governo.

2. São raras as competições esportivas recreacionais. Concurso de Inglês, de canto ou de dança são o foco maior.

3. Tênis é um esporte para se praticar ao ar livre e a qualidade do ar é temerosa na maior parte do país. O inverno é rigoroso e há pouquíssimos ginásios na China.

4. Espaço é algo precioso nas grandes cidades e construir quadras de tênis está longe de ser prioridade. Badminton e tênis de mesa são os grandes esportes recreativos, porque são baratos e não necessitam de muito espaço.

5. A TV que cobre esportes dá muito pouco espaço ao tênis, geralmente destacando os jogadores locais. Mesmo os Grand Slam são cobertos apenas nas rodadas finais. E sem Na Li, isso dificilmente vai melhorar.

6. Por motivos óbvios, o tênis ainda é considerado um esporte de elite na China, e a maioria da população não está sequer na classe média.

Não é certamente um quadro animador. Vamos ver até quando dura.


Por José Nilton Dalcim - 12 de outubro de 2014 às 12:15

Roger Federer sofreu mais do que o esperado, não jogou com a mesma qualidade da véspera, mas se impôs na hora certa diante de Gilles Simon, conquistou seu segundo grande título da temporada e colocou um delicioso molho para as últiimas quatro semanas do calendário. Sobre piso coberto, Paris e Londres decidirão quem merece ficar com o número 1, quem sabe em duelos diretos por títulos. Não há favorito.

Quando o novo ranking sair nesta segunda-feira, Novak Djokovic estará 990 pontos à frente de Federer na classificação da temporada, que no momento é o que importa. Novamente vice-líder no ranking tradicional, algo que não acontecia desde maio de 2013, o suíço ganha um bônus importante nesta reta final: não cruzará com Djokovic antes de uma possível final em Paris e tem enorme chance de chegar a Londres ainda à frente de Nadal – a distância de 975 pontos é extremamente confortável -, o que também o deixaria em grupo diferente do sérvio na fase classificatória e possivelmente numa semifinal.

O suíço joga dentro de oito dias em casa e nem sabe ainda se Nadal será mesmo seu grande adversário na Basileia. Esses 500 pontos se mostram fundamentais. Ainda assim, Djokovic tem mais chances de manter a ponta por uma questão meramente matemática. Bastaria fazer campanha igual a Federer em Paris e Londres, que serão seus dois últimos torneios. Nole não se inscreveu para os ATP 500, período previsto para o nascimento do filho, e há considerável risco de não ir a Paris caso a gravidez de Jelena se prolongue.

Não por acaso, Nole e Federer dividem os principais números do circuito. O suíço é quem mais disputou finais em 2014 (quatro títulos e cinco vices), enquanto Djokovic é o único a ter cinco troféus no ano, um deles de Grand Slam. Os dois têm os melhores desempenhos contra adversários top 10 (Federer soma 13-4 e Nole, 12-5). O suíço lidera em quantidade de vitórias totais (61-10) e na quadra dura (45-6), mas é Djokovic quem tem melhores percentuais (52-8 e 31-6, respectivamente).

A favor de Federer, sem dúvida, está sua excepcional fase desde que acabou o calendário do saibro europeu. Após Roland Garros, foram 31 vitórias em 34 partidas, com três títulos, duas finais e uma semi. No mesmo período, Djokovic soma 22 triunfos em 25 tentativas, com duas conquistas e uma semi.

Dez anos depois de ter atingido a liderança do ranking pela primeira vez e ter iniciado um domínio espetacular no circuito, Roger volta a jogar um tênis vistoso, eficiente e empolgante. Parece assim inevitável que vá atingir a aguardada marca de 1.000 vitórias em questão de meses. Está com 984, e só conseguiria anotar essas 16 restantes em 2014 se vencesse todos os três torneios que lhe faltam, mais os dois jogos da final da Copa Davis. É mais sensato que o feito venha em janeiro ou fevereiro. Em termos de títulos, chega a 81, ainda 13 atrás de Ivan Lendl. Permanece uma marca ousada de se alcançar. Os 109 de Jimmy Connors estão fora de cogitação.


Por José Nilton Dalcim - 11 de outubro de 2014 às 15:13

Quatro dias atrás, por um golpe de sorte, Roger Federer escapou de pegar o voo mais cedo para casa. Retornando ao circuito depois de quatro semanas, foi um jogador cheio de altos e baixos, precisou salvar cinco match-points diante do argentino Leo Mayer, parecia necessitar de muitos ajustes para ter chances na semana.

Mas aí veio o sábado, semifinal contra o melhor tenista do mundo. E então, naquelas situações que somente o tênis parece permitir, Federer foi o verdadeiro número 1 em quadra. Fez talvez sua mais notável exibição de toda a temporada. Não que tivesse sido perfeito, palavra que não existe no dicionário deste esporte.

No entanto, diante de Novak Djokovic, que possui uma das melhores devoluções da história, teve peito e categoria para executar saque-voleio dezenas de vezes. Diante da consistência de base do sérvio, não perdeu um único game de serviço mesmo tendo vencido “apenas” 71% dos pontos com o primeiro saque. Aliás, liderou a estatística de trocas de bola em todos os quesitos, o que explica bem melhor o placar de duplo 6/4.

Decidido a executar um tática muito agressiva, somou mais winners e menos erros não forçados. Assim como ganhou game com quatro saques precisos, também venceu longas trocas de bola com grande desenvoltura e aplicação, mesclando diferentes efeitos, velocidades e direções. E não teve vergonha: encheu muitas vezes seu forehand de topspin para colocar bolas longe do alcance de Djokovic. Esse no fundo foi o ponto que me chamou a atenção. Federer encontrou neste sábado o ponto ideal entre a paciência e a ousadia.

Com isso, deixa ainda mais claro que a vice-liderança do ranking é um posto plenamente cabível, que a luta pelo número 1 ainda em 2014 é um sonho não tão impossível e que continua a pertencer com folga ao rol dos favoritos. E prova de vez que achou um caminho, na verdade um velho caminho, para enfrentar os grandes.