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Por José Nilton Dalcim - 31 de agosto de 2014 às 2:02

Todo mundo esperava ver o tênis pesado, jovem, acrobático do garotão Nick Kyrgios. Mas o show de sábado à noite na Arthur Ashe coube ao bom e velho Tommy Robredo. O espanhol de 32 anos usou seus melhores recursos, correu, se esforçou, fez jogadas espetaculares até de costas para a quadra e roubou a cena.

Kyrgios certamente entendeu agora por que Robredo tirou Roger Federer nas oitavas do ano passado em Flushing Meadows. Combinação de ataque e defesa, muita perna e aplicação tática, apenas 15 erros em quatro sets. Apesar da virada que levou, o australiano de 19 anos não diminui a expectativa sobre um futuro brilhante. Precisa no entanto trabalhar muito em alguns aspectos, como a ansiedade e o jogo de rede.

Robredo tentará repetir a campanha do ano passado justamente contra outro suíço, Stan Wawrinka, que nem entrou em quadra neste sábado. Será uma partida diferente entre dois jogadores de backhand simples, um golpe que continua sobrevivendo no circuito masculino.

Novak Djokovic, por sua vez, teve uma atuação extremamente segura com sua poderosa devolução e liquidou Sam Querrey sem piedade. Quando já imaginava que teria de aplicar o mesmo padrão nas oitavas de final, eis que John Isner perdeu os três tiebreaks que disputou diante do competente Philipp Kohlschreiber, mudando completamente o quadro para o cabeça 1.

Ou seja, agora Nole terá pela frente um adversário firme de fundo de quadra, cheio de recursos e que já o venceu uma vez, no saibro de Paris. Mas se Nole mantiver o padrão de seus primeiros jogos em Nova York, talvez não perca sequer set.

Extremamente interessante será o duelo entre Andy Murray e Jo-Wilfried Tsonga, dois tenistas verdadeiramente adorados pela torcida americana. Acho que o francês está mais confiante, até porque vem de vitória sobre o escocês no Canadá. Diante de um adversário fraco, Murray teve mais problemas neste sábado. voltando a ser muito defensivo. De qualquer forma, tem tudo para ser um jogo de alta qualidade, porque ambos são jogadores versáteis e atléticos.

A segunda-feira aliás só verá jogos masculinos de primeira. Milos Raonic tirou o veterano Victor Estrella em três apertados sets, todos no tiebreak, com direito a 22 aces e mais 29 winners. Terá agora a firmeza de Kei Nishikori, que vive desde a adolescência no piso duro americano. Saque contra devolução, dois tenistas que batem o tempo todo na bola. Jogaço.

A chave feminina completou o quadro das oitavas com mais uma ‘zebra’: a sérvia Aleksandra Krunic tirou Petra Kvitova e liquidou a discussão sobre liderança do ranking, que permanecerá com Serena Williams. Número 145 do ranking aos 21 anos, Krunic joga seu segundo Slam e só tinha cinco vitórias em torneios de nível WTA até então. Antes de derrotar Madison Keys na rodada anterior, jamais havia tirado um set de uma top 30. Por aí dá para ter uma ideia do tamanho da surpresa.

Krunic será a oponente de Vika Azarenka, enfim muito mais solta em quadra, e se desenha assim um duelo imperdível entre a bielorrussa e Eugénie Bouchard. A canadense novamente teve inúmeras dificuldades, mas manteve o estilo agressivo mesmo diante dos erros e terá favoritismo contra Ekaterina Makarova. Lá em cima da chave, Serena desfila.

Nas duplas, ótimas vitórias de Bruno Soares e Marcelo Melo. O caminho continua longo. Soares/Peya podem cruzar nas quartas com Paes/Stepanek, na revanche da final do ano passado, enquanto Melo/Dodig têm tudo para disputar vaga na semi contra Sock/Pospisil, os campeões de Wimbledon. Muito por causa dos irmãos Bryan – a fila para assistir ao jogo deles hoje era absolutamente monstruosa -, todos as partidas de duplas têm sido muito concorridas.

Frases

“Meu técnico está até agora aos berros, aos pulos (de alegria). Estou tentando ficar longe dele, permanecer com os pés no chão.”
(Aleksandra Krunic)

“Estou evoluindo na hora certa, no torneio certo. É aqui onde eu tenho de jogar meu melhor tênis.”
(Novak Djokovic)

“Nunca olho a chave de um torneio.”
(VIka Azarenka)

“Quando o jogo não está saindo como quero, eu penso ‘mantenha o saque e garanta que vá para o tiebreak’. Tenho muita confiança nos tiebreaks.”
(Milos Raonic)

“Nós, as mulheres, já nos oferecemos para jogar cinco sets. Os torneios é que não querem. Estamos prontas para isso.”
(Serena Williams)

“Só vamos conseguir parar e tentar arrumar alguma coisa no meu jogo no final do ano. Aí Mauresmo terá quatro ou cinco semanas para mudar algo.”
(Andy Murray)

“Acho que ganhei uns US$ 110 mil, mas tem que descontar as taxas. O que sobrar vou investir na minha carreira, pagar minhas viagens, com meu treinador.”
(Victor Estrella, 34 anos)


Por José Nilton Dalcim - 30 de agosto de 2014 às 1:33

Quando se fala em devoção pelo tênis, costumamos sempre pensar nos tenistas veteranos ou de carreira muito longa, em sucesso, em Roger Federer ou Serena Williams. Mas a croata Mirjana Lucic-Baroni deu uma grande aula sobre amor à profissão e ao esporte neste US Open. Ela explodiiu no circuito como uma prodígio, sofreu todo tipo de problemas físicos e pessoais, se casou e ainda assim continou treinando firme, decidida a recuperar sua trajetória na carreira. Nesta sexta-feira, 15 anos depois do auge, Lucic virou novamente notícia, ao eliminar a romena Simona Halep com uma atuação incrível.

“Puxa, eu queria tanto voltar a tudo isso”, declarou Lucic antes de derrubar lágrimas na entrevista oficial. “Ninguém imagina o esforço que você faz todos os dias até que consiga um resultado importante e seja notada no circuito. Tenho trabalhado muito esses anos todos, e convivendo com contusões. Só nos últimos meses machuquei as costas em Doha, o pescoço em Indian Wells e o ombro após Wimbledon”, contou. “É impossível não ficar emocionada com tudo isso. Joguei três vezes no quali e agora estou nas oitavas de final, é simplesmente incrível”. Antes de Halep, ela também tirou a ascendente Garbine Muguruza.

Para recordar, Lucic foi uma sensação. Aos 15 anos e um mês, ganhou o WTA de Bol, o primeiro que disputava na carreira. No ano seguinte, foi campeã de duplas na Austrália e se tornou a única tenista da história a vencer seus primeiros torneios tanto em simples como em duplas. Em 1999, chegou à semifinal de Wimbledon com vitória sobre Monica Seles, já beirando o top 30. Porém, a partir daí a cabeça entrou em ebulição, muito devido a sua dificuldade em lidar com a fama e com a cobrança. O casamento em novembro de 2011 ajudou muito. “Sinto como se estivesse começando uma outra carreira”, diz ela, agora com 32 anos e treinada pelo experiente Goran Prpic.

Aliás, não foi apenas Lucic quem viveu história de Cinderela. No extremo oposto, a promissora Belinda Bencic, com seus 17 aninhos, também obteve vitória expressiva em cima de Angelique Kerber, aumentando a cada dia a lista de cabeças que deixa precocemente Nova York. A suíça, campeã juvenil do ano passado, joga seu primeiro US Open com o considerável apoio de Melanie Monitor, a mãe de Martina Hingis, sua treinadora desde criança. Enquanto Bencic tem parada duríssima contra uma animada Jelena Jankovic, Lucic vê chances diante de Sara Errani, que ganhou com méritos um jogo absolutamente anormal diante de Venus Williams. Por isso, todos os olhos estarão no duelo de oitavas entre Maria Sharapova e Carol Wozniacki, de onde deve sair uma finalista.

Enquanto isso, o masculino encerrou sua segunda rodada com míninas surpresas. A maior novidade foi a vitória do garoto austríaco Dominic Thiem sobre o amigo Ernests Gulbis, mas o jogo foi nervoso e ruim, além de ter um Gulbis contundido desde o final do terceiro set. Para ir adiante, Thiem terá de superar a experiência de Feliciano López e provavelmente de Tomas Berdych e isso ainda parece demais para ele. Nesse quadrante, o descansado David Ferrer surge cada vez mais como a maior força.

O destaque certamente foi Roger Federer, que não fez um jogo perfeito mas ergueu o público com jogadas espetaculares. Muito difícil jogar contra um Sam Groth que sacou a maior parte do tempo acima dos 225 km/h, fazendo um tipico jogo de saque-rede dos anos 1980, embora tenha cravado apenas oito aces (metade de sua média de 16,3 por jogo ao longo desta temporada). Chegou a quebrar um saque do cabeça 2, mas a distância técnica é enorme. O suíço pega no domingo Marcel Granollers, que também gosta de atacar e sobreviveu a cinco sets chatíssimos diante de Ivo Karlovic.

Bem mais interessante devem ser Grigor Dimitrov x David Goffin e Gael Monfils x Richard Gasquet. O búlgaro mal treinou, mas o belga está jogando com uma confiança assustadora, dando na bola e acertando tudo. Perigo para o cabeça 7. Monfils também saiu de sua característica e foi para cima. Seria curioso para o torneio ver nas oitavas Dimi x Monfils, dois dos tenistas mais elásticos, acrobáticos e envolventes do circuito, sem dúvida.

Frases

“Martina (Hingis) me ensinou a jogar com inteligência, a pensar na quadra, a ter um jogo completo.”
(Belinda Bencic)

“Seria muito mais lógico eu abandonar o jogo contra ele, para salvar sua energia, porque é meu amigo. Mas eu nunca desisto enquanto puder ficar em quadra.”
(Ernests Gulbis sobre Dominic Thiem)

“Detesto essa situação de enfrentar um amigo, mas foi tudo especial hoje. Primeira vez que virei de 2 sets a 0, primeira vitória em cinco sets. Seria melhor se fosse contra outro adversário, ficaria mais feliz.”
(Thiem)

“Você precisa acreditar no seu golpe, não importa o quão bom ele seja. Se não confiar, não importa se ele é bom ou ruim.”
(Jelena Jankovic)

“Ouvi muita gente dizendo nestes dois dias que sou a maior esperança do tênis americano. E isso me faz querer trabalhar ainda mais duro.”
(Cici Bellis)

“Nunca tinha terminado um jogo tão tarde, nem ido para a entrevista oficial à meia noite e meia. Acho isso faz parte da experiência de jogar o US Open.”
(Eugénie Bouchard)

“Nós amamos você”
(De um fã para Bouchard durante a partida)


Por José Nilton Dalcim - 29 de agosto de 2014 às 0:28

Vento não é desculpa, porque venta para os dois lados, mas o que estava difícil de jogar hoje no estádio Arthur Ashe vocês não podem imaginar. Daí é preciso aumentar o elogio para a atuação de Novak Djokovic, Andy Murray e Serena Williams, que usaram experiência e paciência para avançar sem sustos à terceira rodada do US Open.

Como se esperava, Nole fez o segundo jogo seguido contra adversários perfeitos, ou seja, bons tenistas para dar ritmo e confiança sem correr o menor risco. Pode pegar agora dois homens da casa, com saque mais pesado e estilo agressivo, porém parece extremamente difícil que Sam Querrey ou John Isner (se passar por Kohlschreiber) sejam empecilhos para a caminhada firme do sérvio.

Gostei particularmente de Murray, porque ele jogou com seriedade, não se prendeu ao estilo defensivo e conseguiu fazer jogadas de efeito mesmo com o vendaval todo. Aliás, o alemão Bachinger mostrou um bom tênis. O escocês é sempre uma incógnita, mas deve superar Andrey Kuznetsov e fazer o aguardado duelo com Jo-Wilfried Tsonga, o primeiro grande momento do torneio.

O sábado, no entanto, promete um saboroso duelo de gerações entre Nick Kyrgios e Tommy Robredo. O australiano saca melhor, o espanhol é muito mais firme no fundo. Fator curioso destacado pelo garoto australiano: se o jogo for de dia, com sol, melhor para seu saque. Se for nos dois estádios maiores, onde o piso parece mais lento, estará mais para Robredo. Melhor ainda: quem vencer deve pegar Stan Wawrinka, outro jogão.

Quem não está me convencendo é Milos Raonic. Tudo bem que o vento atrapalhou seu movimento de saque e, por sorte, terá o veterano Victor Estrella pela frente. Mas se Kei Nishikori continuar evoluindo, o canadense pode ter sérios problemas nas oitavas. Importante observar aqui a atuação memorável de Estrella, jogando seu primeiro US Open aos 34 anos. Pegou o talentoso Borna Coric, metade exata de sua idade, e contou com uma ruidosa torcida dominicana. Acabou o jogo muito emocionado. Belo momento.

A chave feminina perdeu inesperadamente Ana Ivanovic. Ninguém entendeu nada, muito menos ela. Jogou mal e foi dominada pela valente Karolina Pliskova, que não tem qualquer golpe espetacular. No final das contas, simplificou ainda mais a tarefa de Serena, muito disposta e com chave cada vez mais aberta.

Confiança e humor renovados, Vika Azarenka está a uma vitória do duelo com Petra Kvitova, que muito provavelmente valerá vaga na semifinal, já que está difícil apostar um níquel em Eugénie Bouchard. O único predicado da canadense é o espírito de luta. Num Grand Slam, é pouco.

Frases

“O clima em Nova York é imprevisível nesta época. Na  estreia, troquei cinco camisas. Hoje, só usei uma. Você tem que estar preparado para tudo.”
(Novak Djokovic)

“Comecei o jogo cansada, muito nervosa, não me sentia relaxada como na estreia.  Estou feliz por ter avançado.”
(Petra Kvitova)

“Acho que as pessoas me apreciam, porque se eu perder será uma notícia muito maior do que se eu ganhar. As pessoas acreditam no meu jogo.”
(Serena Williams)

“Puxa, que legal. Deve ter sido um grande feito.”
(Nick Kyrgios, admitindo não saber que Robredo derrotou Federer no US Open do ano passado)

“O tênis masculino é muito diferente do feminino. Os rapazes ficam na cruzada até surgir uma bola para a paralela. As meninas jogam em qualquer lugar da quadra o tempo todo, você nunca sabe onde vai a bola”.
(Venus Williams)

“Você joga melhor tênis quado não pensa. Simples assim. Não dá tempo de pensar, você só consegue reagir.”
(Ernests Gulbis)

“Hoje foi bom. A quadra estava bem rápida, foi ótimo para o saque.”
(Jo-Wilfried Tsonga, que jogou na Grandstand)

“Acho que jogo muito mais do que meu ranking”
(Sam Querrey, agora 57º do mundo)

“São os sul-americanos. No fim do dia, com tanto jogo, eles acabam ficando um pouco bêbados.”
(Stan Wawrinka, sobre seu pedido para um torcedor ‘calar a boca’ no jogo contra Bellucci)