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Por José Nilton Dalcim - 24 de fevereiro de 2015 às 16:05

Você já pode, e deve, confiar em quem tem mais de 30 anos. O início da temporada 2015 tem sido um assombro. Dos 15 torneios de primeira linha disputados no circuito masculino, nada menos que sete foram vencidos pelos ‘trintões’, e seis em cima de adversários, digamos, novos.

Há medalhões, como Roger Federer e David Ferrer, mas também vimos o sucesso de Ivo Karlovic, pertinho dos 36, e até de Victor Estrella, que se tornou o mais velho tenista a ganhar seu primeiro ATP, aos 34. A lista de campeões tem ainda Guillermo Garcia-López e Gilles Simon. O suíço Stan Wawrinka ganhou dois títulos mas ainda está fora. Por pouco. Completará 30 anos em pouco mais de um mês. Pablo Cuevas acabou de fazer 29.

O top 20 do ranking, aliás, também está cheio dos veteranos, com Federer, Ferrer, Feliciano López, Simon e Tommy Robredo. Com possibilidade de incluir rapidamente Wawrinka, Tomas Berdych, Jo-Wilfried Tsonga e John Isner, que estão com 29 anos e fazem aniversário nos próximos meses. Ou seja, quase 50%.

E se olharmos um pouquinho mais atrás, entre os top 30, aparecem Karlovic, Cuevas, Philipp Kohlschreiber, Garcia-López e Julien Benneteau. Querendo entrar lá, nosso conhecido Fernando Verdasco.

Isso certamente explica a dificuldade que a nova geração encontra no tênis de hoje, já que precisa dividir espaço com adversários fisicamente em ótima forma e com a relevante experiência no bolso do calção.

Incrível que os únicos tenistas abaixo dos 25 anos a figurar hoje em todo o top 20 sejam o canadense Milos Raonic, 24, e o búlgaro Grigor Dimitrov, 23. O belga David Goffin, hoje 21º do mundo, tem também 24. Por isso, todo mundo olha com tanta atenção para Nick Kyrgios, 19, um oásis entre os 40 mais bem pontuados.

Aqui e ali, é possível vermos alguns garotos tentando sucesso. Bernard Tomic, que passa longe de um novato, fez seguidas quartas de final em 2015, Dominic Thiem entra nos ATPs mas dificilmente ganha duas rodadas seguidas. Borna Coric está todo prestigiado, porém não embala. Thanasi Kokkinakis e Alexander Zverev têm furado qualis e ameaçado vitórias. Nem chegaram ao top 100. A tarefa é dura.

Um nome interessante, pouco lembrado, é o tcheco Jiri Vesely. Foi até agora o mais jovem campeão da temporada, ao faturar o pequeno ATP de Auckland aos 21 anos. Com isso, o canhoto de 1,98m já beliscou o 39º posto e deve permanecer algum tempo entre os 50, o que lhe dará chance de sair cabeça de chave em alguns torneios e tentar novas aventuras.


Por José Nilton Dalcim - 22 de fevereiro de 2015 às 0:50

Alcançar uma bola difícil requer muito mais do que físico no tênis. É também uma questão de antecipar, reagir e explodir. Muito mais complicado, no entanto, é decidir o que fazer com a bola quando se chega nela. Essa para mim é a maior qualidade de um tenista. Fabio Fognini portanto merece ser aplaudido de pé, porque o que fez no ponto final da vitória de virada sobre Rafael Nadal coloca o lance naquelas cenas antológicas do esporte.

Importante também situar a façanha histórica que o italiano obteve. Fognini é apenas o 11º diferente jogador a derrotar Rafa sobre o saibro desde 2005, o momento que marca o início de seu domínio sobre a terra, e tal fato demonstra o tamanho da raridade que presenciamos neste sábado no Rio Open. A minúscula lista tem Gaudio, Andreev, Ferrero, Verdasco, Federer, Soderling, Djokovic, Zeballos, Ferrer e Almagro, sendo que só Djokovic (4) e Federer (2) venceram mais de uma vez.

Rafa está deixando de ser o ‘rei do saibro’? Seus números são incomparáveis: no total, soma 321 vitórias e agora 25 derrotas. Mais ainda: desde 2005 ele perdeu apenas 15 de seus 310 jogos sobre a superfície, onde mordeu 45 de seus 64 troféus. Porém não é menos verdade que há uma queda de rendimento preocupante, que já vem de 2014. Dos seis últimos torneios disputados no saibro, ganhou dois (ainda que um deles fosse de novo Roland Garros). Ou seja, quatro derrotas no espaço de 10 meses – porém em sete desses meses não há torneio de saibro -, sem falar que se livrou por sorte da quinta derrota devido à contusão de Nishikori em Madri.

Parece que Nadal vem sofrendo daquele problema que ataca os favoritos de longa data quando eles começam a ter problemas frequentes: a freguesia começou a perder o medo. No ano passado, ele quase perdeu até de Pablo Andujar no Rio, cedeu sets para Gilles Simon e Mikhail Youzhny, suou contra Andy Murray. Só realmente foi o Nadal de outrora quando pisou em Paris.

Após a longa parada por contusão e cirurgia de apêndice, o canhoto espanhol foi mal na quadra dura e esperava-se muito sua reação no saibro carioca. No entanto, o que vimos foram atuações irregulares e inseguras, sufoco contra Pablo Carreño e jogo apertado com Pablo Cuevas. Depois de atropelar Fognini e começar o segundo set com break-point, teve queda brusca de rendimento, que culminou com a eliminação inédita em solo brasileiro. Cede ao mesmo tempo o quarto lugar do ranking para Murray e já sofre ameaça de Nishikori, que estará em Acapulco.

Não se deve claro tirar o mérito de Fognini, que manteve a cabeça no lugar em que pesem discussões bobas. Soube ser agressivo diante de um Rafa exageradamente dependente do saque e com pouca iniciativa ofensiva. O irreverente italiano chegou a ser o ‘princípe do saibro’ com a boa série de vitórias no ano passado. Quem sabe, o feito do Rio mude de vez sua cabeça e ele use o talento que tem.

P.S.: Vejo agora na ATP que Nadal não perdia uma semi no saibro há 12 anos e 52 jogos.


Por José Nilton Dalcim - 21 de fevereiro de 2015 às 10:04

Diante de tudo o que aconteceu na sexta-feira no Rio Open, só vale registrar alguns pontos antes que a rodada já recomece dentro de poucas horas.

1. Bia Haddad perdeu uma chance inacreditável de fazer história. O tênis feminino brasileiro não vence uma adversária de nível top 20 desde Andrea Vieira, em 1990. A canhoto paulista vacilou na hora de fechar – isso sem falar que esteve sempre à frente no segundo set, em que bastaria confirmar um saque para surpreender Sara Errani -, mas os nervos pesaram. Ela humildemente reconheceu que passaram muitas coisas na sua cabeça na hora dos match-points, o que é admissível diante de sua já longa história nas quadras. O lado positivo é vermos que Bia tem sim jogo para encarar até mesmo as melhores do ranking, algo que o tempo e muito treino deverão se encarregar.

2.João Souza também deixou escapar a oportunidade de estar na semi, entrar para o top 70 e ainda por cima ganhar vaga direta na chave de Buenos Aires (como ‘special exempt). Há de se dar crédito ao tênis agressivo do austríaco Andreas Haider-Maurer no primeiro set, antes de o paulista iniciar grande reação que o levaram a 6/1 e 3/1. Faltou talvez acreditar um pouco mais no final do jogo, mas não se pode crucificar Feijão pelo deslize, frente a todos os bons jogos que fez nas últimas duas semanas.

3. Fabio Fognini e Federico Delbonis fizeram um dos melhores duelos sobre o saibro dos últimos tempos. E olha que eu custo a gostar do italiano. Foi um jogo de muita qualidade técnica, variações táticas, enorme disposição e tremendas reviravoltas. Pena que tão tarde, público reduzido no Rio e provavelmente esgotado diante de tantas horas de TV. Acredito que Delbonis deu um grande passo para a convocação na Copa Davis ao recuperar seu tênis agressivo. Pior para nós.

4. E o que o árbitro geral Lars Graf fez com Rafael Nadal é digno de punição. Desta vez, o espanhol teve toda a razão de reclamar. Oras, o jogo de Fognini começou  quase 21h30, portanto com a programação inteiramente comprometida. O lógico era deslocar a partida do italiano para o estádio secundário e permitir que Nadal e Pablo Cuevas entrassem em horário decente em quadra. A decisão prejudicou o público, que não aguentou a maratona e ainda viu um sofrível primeiro set. O uruguaio perdeu boa chance de surpreender, porque Rafa só conseguiu ‘acordar’ ali pela metade do segundo set, quando seu saque passou a fazer diferença e com ele o espanhol usou enfim o forehand agressivo. Saiu da quadra às 3h18, algo inconcebível numa programação que não teve um real imprevisto, como a chuva. Mas como Fognini terminou sua batalha de outras 3 horas completamente estafado, Rafa continua firme rumo ao bi e a manutenção do terceiro lugar do ranking.

5. Ah, David Ferrer fez sua melhor partida no Rio e, bem mais descansado, tem oportunidade de ouro de levar o título no domingo. Juan Mónaco mostrou evolução e, com a recorrente contusão nas costas de Leo Mayer, pode muito bem ser o títular de sexta-feira na Davis contra o Brasil.