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Por José Nilton Dalcim - 30 de agosto de 2014 às 1:33

Quando se fala em devoção pelo tênis, costumamos sempre pensar nos tenistas veteranos ou de carreira muito longa, em sucesso, em Roger Federer ou Serena Williams. Mas a croata Mirjana Lucic-Baroni deu uma grande aula sobre amor à profissão e ao esporte neste US Open. Ela explodiiu no circuito como uma prodígio, sofreu todo tipo de problemas físicos e pessoais, se casou e ainda assim continou treinando firme, decidida a recuperar sua trajetória na carreira. Nesta sexta-feira, 15 anos depois do auge, Lucic virou novamente notícia, ao eliminar a romena Simona Halep com uma atuação incrível.

“Puxa, eu queria tanto voltar a tudo isso”, declarou Lucic antes de derrubar lágrimas na entrevista oficial. “Ninguém imagina o esforço que você faz todos os dias até que consiga um resultado importante e seja notada no circuito. Tenho trabalhado muito esses anos todos, e convivendo com contusões. Só nos últimos meses machuquei as costas em Doha, o pescoço em Indian Wells e o ombro após Wimbledon”, contou. “É impossível não ficar emocionada com tudo isso. Joguei três vezes no quali e agora estou nas oitavas de final, é simplesmente incrível”. Antes de Halep, ela também tirou a ascendente Garbine Muguruza.

Para recordar, Lucic foi uma sensação. Aos 15 anos e um mês, ganhou o WTA de Bol, o primeiro que disputava na carreira. No ano seguinte, foi campeã de duplas na Austrália e se tornou a única tenista da história a vencer seus primeiros torneios tanto em simples como em duplas. Em 1999, chegou à semifinal de Wimbledon com vitória sobre Monica Seles, já beirando o top 30. Porém, a partir daí a cabeça entrou em ebulição, muito devido a sua dificuldade em lidar com a fama e com a cobrança. O casamento em novembro de 2011 ajudou muito. “Sinto como se estivesse começando uma outra carreira”, diz ela, agora com 32 anos e treinada pelo experiente Goran Prpic.

Aliás, não foi apenas Lucic quem viveu história de Cinderela. No extremo oposto, a promissora Belinda Bencic, com seus 17 aninhos, também obteve vitória expressiva em cima de Angelique Kerber, aumentando a cada dia a lista de cabeças que deixa precocemente Nova York. A suíça, campeã juvenil do ano passado, joga seu primeiro US Open com o considerável apoio de Melanie Monitor, a mãe de Martina Hingis, sua treinadora desde criança. Enquanto Bencic tem parada duríssima contra uma animada Jelena Jankovic, Lucic vê chances diante de Sara Errani, que ganhou com méritos um jogo absolutamente anormal diante de Venus Williams. Por isso, todos os olhos estarão no duelo de oitavas entre Maria Sharapova e Carol Wozniacki, de onde deve sair uma finalista.

Enquanto isso, o masculino encerrou sua segunda rodada com míninas surpresas. A maior novidade foi a vitória do garoto austríaco Dominic Thiem sobre o amigo Ernests Gulbis, mas o jogo foi nervoso e ruim, além de ter um Gulbis contundido desde o final do terceiro set. Para ir adiante, Thiem terá de superar a experiência de Feliciano López e provavelmente de Tomas Berdych e isso ainda parece demais para ele. Nesse quadrante, o descansado David Ferrer surge cada vez mais como a maior força.

O destaque certamente foi Roger Federer, que não fez um jogo perfeito mas ergueu o público com jogadas espetaculares. Muito difícil jogar contra um Sam Groth que sacou a maior parte do tempo acima dos 225 km/h, fazendo um tipico jogo de saque-rede dos anos 1980, embora tenha cravado apenas oito aces (metade de sua média de 16,3 por jogo ao longo desta temporada). Chegou a quebrar um saque do cabeça 2, mas a distância técnica é enorme. O suíço pega no domingo Marcel Granollers, que também gosta de atacar e sobreviveu a cinco sets chatíssimos diante de Ivo Karlovic.

Bem mais interessante devem ser Grigor Dimitrov x David Goffin e Gael Monfils x Richard Gasquet. O búlgaro mal treinou, mas o belga está jogando com uma confiança assustadora, dando na bola e acertando tudo. Perigo para o cabeça 7. Monfils também saiu de sua característica e foi para cima. Seria curioso para o torneio ver nas oitavas Dimi x Monfils, dois dos tenistas mais elásticos, acrobáticos e envolventes do circuito, sem dúvida.

Frases

“Martina (Hingis) me ensinou a jogar com inteligência, a pensar na quadra, a ter um jogo completo.”
(Belinda Bencic)

“Seria muito mais lógico eu abandonar o jogo contra ele, para salvar sua energia, porque é meu amigo. Mas eu nunca desisto enquanto puder ficar em quadra.”
(Ernests Gulbis sobre Dominic Thiem)

“Detesto essa situação de enfrentar um amigo, mas foi tudo especial hoje. Primeira vez que virei de 2 sets a 0, primeira vitória em cinco sets. Seria melhor se fosse contra outro adversário, ficaria mais feliz.”
(Thiem)

“Você precisa acreditar no seu golpe, não importa o quão bom ele seja. Se não confiar, não importa se ele é bom ou ruim.”
(Jelena Jankovic)

“Ouvi muita gente dizendo nestes dois dias que sou a maior esperança do tênis americano. E isso me faz querer trabalhar ainda mais duro.”
(Cici Bellis)

“Nunca tinha terminado um jogo tão tarde, nem ido para a entrevista oficial à meia noite e meia. Acho isso faz parte da experiência de jogar o US Open.”
(Eugénie Bouchard)

“Nós amamos você”
(De um fã para Bouchard durante a partida)


Por José Nilton Dalcim - 29 de agosto de 2014 às 0:28

Vento não é desculpa, porque venta para os dois lados, mas o que estava difícil de jogar hoje no estádio Arthur Ashe vocês não podem imaginar. Daí é preciso aumentar o elogio para a atuação de Novak Djokovic, Andy Murray e Serena Williams, que usaram experiência e paciência para avançar sem sustos à terceira rodada do US Open.

Como se esperava, Nole fez o segundo jogo seguido contra adversários perfeitos, ou seja, bons tenistas para dar ritmo e confiança sem correr o menor risco. Pode pegar agora dois homens da casa, com saque mais pesado e estilo agressivo, porém parece extremamente difícil que Sam Querrey ou John Isner (se passar por Kohlschreiber) sejam empecilhos para a caminhada firme do sérvio.

Gostei particularmente de Murray, porque ele jogou com seriedade, não se prendeu ao estilo defensivo e conseguiu fazer jogadas de efeito mesmo com o vendaval todo. Aliás, o alemão Bachinger mostrou um bom tênis. O escocês é sempre uma incógnita, mas deve superar Andrey Kuznetsov e fazer o aguardado duelo com Jo-Wilfried Tsonga, o primeiro grande momento do torneio.

O sábado, no entanto, promete um saboroso duelo de gerações entre Nick Kyrgios e Tommy Robredo. O australiano saca melhor, o espanhol é muito mais firme no fundo. Fator curioso destacado pelo garoto australiano: se o jogo for de dia, com sol, melhor para seu saque. Se for nos dois estádios maiores, onde o piso parece mais lento, estará mais para Robredo. Melhor ainda: quem vencer deve pegar Stan Wawrinka, outro jogão.

Quem não está me convencendo é Milos Raonic. Tudo bem que o vento atrapalhou seu movimento de saque e, por sorte, terá o veterano Victor Estrella pela frente. Mas se Kei Nishikori continuar evoluindo, o canadense pode ter sérios problemas nas oitavas. Importante observar aqui a atuação memorável de Estrella, jogando seu primeiro US Open aos 34 anos. Pegou o talentoso Borna Coric, metade exata de sua idade, e contou com uma ruidosa torcida dominicana. Acabou o jogo muito emocionado. Belo momento.

A chave feminina perdeu inesperadamente Ana Ivanovic. Ninguém entendeu nada, muito menos ela. Jogou mal e foi dominada pela valente Karolina Pliskova, que não tem qualquer golpe espetacular. No final das contas, simplificou ainda mais a tarefa de Serena, muito disposta e com chave cada vez mais aberta.

Confiança e humor renovados, Vika Azarenka está a uma vitória do duelo com Petra Kvitova, que muito provavelmente valerá vaga na semifinal, já que está difícil apostar um níquel em Eugénie Bouchard. O único predicado da canadense é o espírito de luta. Num Grand Slam, é pouco.

Frases

“O clima em Nova York é imprevisível nesta época. Na  estreia, troquei cinco camisas. Hoje, só usei uma. Você tem que estar preparado para tudo.”
(Novak Djokovic)

“Comecei o jogo cansada, muito nervosa, não me sentia relaxada como na estreia.  Estou feliz por ter avançado.”
(Petra Kvitova)

“Acho que as pessoas me apreciam, porque se eu perder será uma notícia muito maior do que se eu ganhar. As pessoas acreditam no meu jogo.”
(Serena Williams)

“Puxa, que legal. Deve ter sido um grande feito.”
(Nick Kyrgios, admitindo não saber que Robredo derrotou Federer no US Open do ano passado)

“O tênis masculino é muito diferente do feminino. Os rapazes ficam na cruzada até surgir uma bola para a paralela. As meninas jogam em qualquer lugar da quadra o tempo todo, você nunca sabe onde vai a bola”.
(Venus Williams)

“Você joga melhor tênis quado não pensa. Simples assim. Não dá tempo de pensar, você só consegue reagir.”
(Ernests Gulbis)

“Hoje foi bom. A quadra estava bem rápida, foi ótimo para o saque.”
(Jo-Wilfried Tsonga, que jogou na Grandstand)

“Acho que jogo muito mais do que meu ranking”
(Sam Querrey, agora 57º do mundo)

“São os sul-americanos. No fim do dia, com tanto jogo, eles acabam ficando um pouco bêbados.”
(Stan Wawrinka, sobre seu pedido para um torcedor ‘calar a boca’ no jogo contra Bellucci)


Por José Nilton Dalcim - 28 de agosto de 2014 às 2:40

Thomaz Bellucci fez uma exibição decente, mas era mesmo muito difícil derrotar o número 4 do mundo Stan Wawrinka, que tem uma porta aberta para as oitavas de final do US Open. O brasileiro demorou para pegar ritmo, jogou dois games de serviços ruins nos dois primeiros sets, mas depois achou a devolução, conseguiu ficar agressivo e passou a jogar em alto nível.

Claro que contou também com a inconsistência que vem perseguindo Wawrinka na temporada. O suíço perdeu intensidade e poderia ter levado 6/1 no bom terceiro set do canhoto paulista. Tal qual fez contra Nicolas Mahut, Bellucci voltou a mostrar firmeza mental para salvar os dois match-points e brigar no final do quarto set, apesar do tiebreak muito mal disputado.

A boa notícia para o tênis brasileiro é que nosso número 1 parece ter recuperado confiança nas duas partidas que fez em Nova York, num piso que não é o seu predileto. Isso se torna extremamente importante às vésperas da repescagem da Copa Davis. Com enorme chance de a Espanha não ter Nadal nem Ferrer, Bellucci em forma se torna perigoso. Aliás, se dá como certo por aqui que João Souza não será chamado, algo que, se ocorrer, precisará ser muito bem explicado.

As outras partidas masculinas da quarta-feira encerraram a primeira rodada, uma tradição no torneio mas que não funcionou devido à ausência de Nadal e de um americano empolgante. O jogo de Bellucci não teve 60% da lotação do Arthur Ashe e quando ele quebrou o saque de Wawrinka pela primeira vez, no quarto game do terceiro set, talvez não chegasse a 40%.

De qualquer forma, o público pode ver um Grigor Dimitrov de altos e baixos – enfim ganhou um jogo no US Open após quatro tentativas – e um Ernests Gulbis forte. Mas gostei mesmo de ver, ainda que aos pedaços, o uruguaio Pablo Cuevas. Isso mesmo. Com seu jogo de saibro, ficou bem perto de tirar Kevin Anderson em partida cheia de emoções. As rodadas têm sido um tanto difíceis nestes dias, com um misto de forte calor e muito vento.

O feminino abriu a segunda rodada e Agá Radwanska de novo falhou no US Open, um torneio onde não engrena. Ela mesma admitiu não saber o motivo. Ao contrário, Simona Halep, quietinha, vai atropelando. Pouco se falou nisso até agora, mas a romena tem chance real de atingir a liderança do ranking, concorrendo com Petra Kvitova. As duas precisam ganhar o torneio e torcer para Serena não passar das oitavas.

Maria Sharapova superou outra partida difícil, em que se safou de uma quebra no começo do segundo set que poderia ser fatal. Ela continua brigando  muito e, como bem observou Mary Joe Fernandez na ESPN, é raro ver uma tenista tão recheada de troféus sofrer tanto em torneios seguidos.

Frases

“Perfeito.”
(Roger Federer, ao ser lembrado por um jornalista que ganhou todos os US Open em que derrotou adversários australianos)

“Temos Bernard (Tomic) e (Nick) Kyrgios, então quando eu decidir parar, o tênis australiano ficará em boas mãos.”
(Lleyton Hewitt, mas negando planos de se aposentar no final do ano)

“Tem sido ótimo treinar para correr a maratona (de Nova York), porque meu físico está melhorando muito. Sei que posso correr por horas.”
(Carol Wozniacki)

“Não existe mágica que possa te colocar de uma hora para outra no top 10. Só mesmo trabalhando duro.”
(Sloane Stephens, derrotada na segunda rodada)

“Foi uma noite incrível. Joguei meu primeiro US Open diante do público na Arthur Ashe e diante de um dos meus ídolos, Serena. Foi muita coisa para administrar na minha cabeça. Serena é um símbolo. Uma afro-americana que nasceu em Compton, ganhou 17 Slam e é numero 1 aos 30 e tantos anos.”
(Taylor Townsend)

“(Michael) Jordan foi meu ídolo no esporte porque jogava fácil, queria ser o melhor, sabia lidar com a pressão carregando um time por tantos anos. E em termos de movimento, o tênis tem muito do basquete, com deslocamentos rápidos, de lado, de costas, mudança brusca de direção, reposicionar.”
(Federer)